O time que não ganhou, nem perdeu, mas consigo mesmo empatou!

Foto: Reprodução

Por Valdeci Duarte (*)

Ei, senhor leitor, lembra-se daquela ideia brilhante que um dos jogadores do Tentativas Futebol Clube teve, de dividi-lo em duas equipes, para que seus jogadores sentissem o gostinho da vitória? Então. Aquilo foi a “descoberta da roda” para o estrelado. E durante longas temporadas foi a grande solução para a equipe conquistar vitórias. A cada ano a vitória era certa e por décadas foi assim.

Exibir a conquista era o orgulho das estrelas. Quem se atreveria a dizer que o Tentativas não ganhava? Sempre que falavam isso em público, o Senhor das Estrelas, o Presidente de Honra ou mesmo, outros maiorais da Associação dos Estrelados Unidos, apontavam para o Caneco e os resultados do último campeonato anual. Aquele troféu era a prova de que o time era vitorioso e ponto final.

O Estrela, metido a sabe tudo, vivia se espocando pelas laterais de alegria, pois, quase sempre, alguém dizia que a ideia de transformar o Tentativas em dois times e promover o campeonato anual entre ambos, era a descoberta da existência dele, o moço não se cabia em si. Mas o fim desse glamour estava com os dias contados!

Ele se sentia a última bolacha do pacote, o pingo que caía na cueca do governador, aquela gota d`água do deserto, ele se sentia o último saquinho de groselha da dispensa. Para ele, o Cara era ele e o resto era o resto. Naquela caixa torácica ele gostava de estampar os seguintes dizeres: “esse cara sou eu”. A verdade verdadeira era que ele era um miserável. Seu alimento era a bajulação barata. Ele sonhava ser rico, na usa cabeça poluída imaginava que por cada citação dessa descoberta ele ganhava os direitos autorais, além das propagandas, direito de imagem, viagens, os cruzeiros mais famosos do mundo e blá, blá, blá… Ahh, coitado. Ele não sabia, mas era um pobre, perebento e nu!

A regra do campeonato anual era clara: quem vencia o único jogo do ano, passava o ano seguinte com a posse do caneco, como se fosse dono da relíquia. O detalhe que os tentativeiros não observaram foi a ausência de previsão de amistosos ao longo do ano. Mas para agradar um dos deuses do Olimpo, a direção do Tentativas decidiu promover um inédito amistoso.

Isso foi há muito tempo. Era um belo dia, desses dias comemorativos. Foi no dia internacional do trabalho em que a Direção do clube, na euforia de querer bajular o único deus que se faria presente, promoveu-se a partida, com o melhor do futebol do Tentativas, cada equipe defendendo a sua cor. Definiram as regras desse jogo como sendo apenas dois tempos corridos, eles estavam certos que o atual defensor do caneco iria sagra-se vencedor da partida, pois nessa disputa historicamente sempre, sempre havia uma equipe vendedora e a festa era geral, pois representava uma conquista para todos. Uma vitória era coisa rara, mas quando acontecia, mesmo que fosse uma partida entre o mesmo time, dividido em duas equipes, era motivo de festa.

Um dos jogares mais deslumbrados com a presença do deus do Olimpo e incentivado pelo torcedor número um do time — aquele que é amigo de longe do Tentativas, e, na sua euforia de homem sedentário, motivou o miserável mortal, a passar uma rasteira no deus que ali estava em busca de diversão e o fez sentir o calor do chão e o cheiro da escassa grama do campinho de terra, alguma poeira e muita lama.

Aquela histórica partida teve nuances inesquecíveis. O resultado final fechou em 4 pra cá e 4 para lá. Mas o primeiro tempo tinha finalizado em 4 pra cá e 0 pra lá. A equipe que estava vencendo de 4 a zero, até mais da metade do segundo tempo, era a que tinha perdido a posse do caneco no último campeonato anual. A euforia era geral!

Faltava pouco para o final da partida e a equipe decidiu que o jogo já estava ganho, abriu a guarda e despediu alguns das suas melhores estrelas para preparar o churrasco, com o fim de realizarem a maior comemoração das galáxias unidades e começaram as sessões de mangação, misturada ao som que estavam tocando para a equipe perdedora sambar.

Nessa rapinha de tempo restante para o final da partida e na certeza de que haveria mais uma vitória para ser conquistada pelo Tentativas, quem estava sambando na goleada promoveu uma verdadeira revanche metendo sem dor nem piedade, bolas e mais bolas no rumo das traves adversárias ao ponto de fazerem três gols rapidinho, deixando os malucos com os cabelos em pé, dentes à amostra e olhos arregalados.

Expectadores do jogo dizem mais, só não venceram a partida por que havia um dos melhores em campo que perdeu um gol feito, um pênalti perdido pelo jogador “bola murcha” da vez, que se redimiu no último lance da partida em que reuniu todas as suas forças e enviou uma bicuda de fora da área rumo ao gol que estava vencendo, resultando nesse histórico empate.

E foi assim que aconteceu, quando o time que não ganha de ninguém, empatou consigo mesmo, ao decidir fazer um amistoso com seus próprios jogadores. Aquele ficou conhecido como o divisor de águas no regulamento do campeonato de dois times do Tentativas, pois nenhum das duas equipes ganhou. Naquele dia, o Tentativas nada ganhou, nem perdeu, já que, conseguiu a inédita façanha de empatar consigo mesmo.

(*) Valdeci Duarte – “Escritor acreano contemporâneo mais lido do Acre”, assim diz o seu leitor número 1.

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