Amazônia

    No Acre, coronavírus se aproxima de áreas de indígenas isolados e de recente contato

    Já há casos confirmados da Covid-19 em aldeias localizadas próximas às regiões da presença de indígenas em isolamento voluntário, na fronteira do Brasil com o Peru; efeitos podem ser devastadores para essas populações

    Após infectar e causar mortes entre os povos indígenas do Acre moradores de aldeias em territórios já reconhecidos, agora o coronavírus passa a ser uma ameaça real aos grupos que vivem em isolamento voluntário e de recente contato. Os casos confirmados da Covid-19 entre os Huni Kuin moradores da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Humaitá, no município de Feijó, levantam a suspeita de vir a ocorrer a infecção também dos isolados por manterem certo contato com estas comunidades, sobretudo quando precisam de alimentos ou ferramentas. 

    Este contato com outros indígenas e não-indígenas ocorre justamente agora nos meses secos do “verão amazônico”, e quando a epidemia parece não dar sinais de tréguas no Acre. 

    No último fim de semana houve o registro da morte de um idoso Huni Kuin de 83 anos morador de aldeia Vigilante, localizada na Ti Kaxinawá do Rio Humaitá. Ele morreu na própria aldeia. A causa foi dada como parada cardíaca, mas há a suspeita de que tenha sido por Covid-19. Há o registro de ao menos 25 pessoas infectadas. O mais grave é que houve velório para sepultar o idoso, o que provocou aglomeração e a ida de pessoas de outras aldeias, contribuindo para espalhar o vírus. 

    O caso chama a atenção devido a comunidade estar em um território muito distante dos centros urbanos vizinhos (Feijó e Tarauacá). Para se chegar até lá a viagem pode durar até cinco dias de barco pelos rio Muru e Humaitá. A contaminação mostra que o vírus de fato não encontra barreira, e vem se espalhando de forma assustadora pelas comunidades mais remotas da Amazônia, ameaçando até os povos em isolamento voluntário. 

    “Se a Covid-19 chegou realmente às aldeias da TI Kaxinawá do Rio Humaitá, não só os Huni Kuin estão vulneráveis, mas também a população de um povo ainda desconhecido que vive em isolamento voluntário nas cabeceiras daquele rio”, diz o trecho de uma mensagem redigida pelo indigenista Terri Aquino, conselheiro e fundador da Comissão Pró-Índio (CPI-Acre).   

    “Se essas populações do entorno forem contaminadas pelo novo coronavírus, os “isolados do Humaitá” também correm o sério risco de serem contagiados por essa doença respiratória aguda grave,  contagiosa, que poderá levar ao seu extermínio, como aconteceu com muitos grupos indígenas durante as epidemias do século passado.” 

    As cabeceiras dos rios Humaitá e Envira - além do Muru e Tarauacá - estão na fronteira do Brasil com o Peru, sendo conhecidas por abrigar incontáveis grupos de indígenas em isolamento. A estimativa é que eles variem entre 30 e 70 grupos que decidiram manter seu modo tradicional de vida no meio da floresta, sem manter relações com o “mundo civilizado” ou seus parentes mais próximos. 

    Foi nessa região da fronteira do Acre com o Peru que foram registradas as primeiras imagens de indígenas isolados que rodaram o mundo. Na primeira delas, de 2009 (como esta que ilustra a reportagem), feitas de um avião, eles apontam suas flechas na direção da aeronave. Em outra, de 2014, é feito o vídeo de uma interação entre os isolados e os Ashaninka que vivem nas cabeceiras do rio Envira. O anfitrião entrega um cacho de banana para o visitante, que lhe retribui com um jabuti. 

    Depois eles são filmados levando ferramentas como terçados e machados. O contato aconteceu numa região do Envira conhecida como Xinane. Este grupo, por sinal, acabou deixando o isolamento, e hoje é definido como de recente contato, morando numa base da Funai nas cabeceiras do Envira. Com frequência eles também vão à cidade de Feijó, que é um fator de risco para eles e para os isolados por manterem interações. 

    Se de fato ocorrer uma contaminação entre estes povos, o efeito seria catastrófico. Por seus organismos não terem os anticorpos para as doenças mais básicas da “civilização”, o contato com o coronavírus seria devastador.    

    Em geral, os povos indígenas são mais vulneráveis às infecções do trato respiratório, porém, no caso dos indígenas de recente contato, ou em isolamento voluntário, as estimativas científicas estabelecem que seu sistema imunológico estaria ‘defasado’ em cerca de 300 anos, justamente devido ao fato de não terem sido expostos e, por conseguinte, não terem desenvolvido imunidade a vírus, fungos e bactérias que são presentes no mundo dos brancos. 

    Além do município de Feijó, há registros de grupos isolados por quase toda a extensão da fronteira do Brasil com o Peru, indo da cidade acreana de Assis Brasil, onde fica o território dos Manchineri, até o Vale do Javari, no Amazonas. Conforme mostrou reportagem da Amazônia Real, do último dia 2, havia o registro de ao menos 26 pessoas testadas positivas para a Covid-19 na Terra Indígena Vale do Javari. 

    A catequização dos isolados 

    Desde que Jair Messias Bolsonaro chegou à Presidência da República, os evangélicos iniciaram uma ofensiva para prevalecer seus interesses na política indigenista. O objetivo é eliminar barreiras impostas pelo corpo técnico da Fundação Nacional do Índio (Funai) à entrada de missionários nas aldeias. Um dos principais alvos dos religiosos é a “catequização” dos povos em isolamento voluntário. 

    No começo de fevereiro, o governo nomeou um missionário evangélico para o cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), da Diretoria de Proteção Territorial da Funai. A nomeação gerou polêmica, levando o MPF a entrar com ação para suspender a posse. O processo está em tramitação na Justiça. 

    Em março, quando o país começava a sentir os efeitos da pandemia do novo coronavírus, a presidência da Funai emitiu portaria que permitia às coordenaçoes regionais (CRs) autorizar o contato de não-indígenas com as populações em isolamento. 

    Apesar de um dos artigos vetar atividades que “impliquem em contato com comunidades indígenas isoladas”, em outro há uma brecha ao permitir que as CRs concedam a autorização  “caso a atividade seja essencial à sobrevivência do grupo isolado.” Diante da repercussão negativa a Funai voltou atrás. Qualquer tentativa de contato com os isolados só pode ocorrer com o aval da CGIIRC. 

    A Covid entre os povos indígenas 

    Passados quatro meses de pandemia no país, o coronavírus aumenta seu número de vítimas fatais entre as populações indígenas.  Segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 517 indígenas já morreram vítimas da Covid-19. Os casos de pessoas contaminadas já passam dos 15 mil. A doença causou impactos, até aqui, em 129 diferentes povos. 

    Deste casos, a grande maioria está entre as populações da Amazônia: 461 óbitos e 11.029 infectados. Os dados são da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). No Acre, análise da Comissão Pró-Índio (CPI) aponta 654 indígenas testados positivos (entre aldeados e moradores das cidades) e 21 mortes. 

    Outro lado 

    A reportagem entrou em contato com a chefia da Frente de Proteção Etnoambiental Envira, que é a responsável pelas ações de proteção aos povos isolados e de recente contato do Acre. A resposta foi a de que a orientação dada pela Funai é que todas as demandas de imprensa sejam encaminhadas para a assessoria de comunicação em Brasília. 

    A coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Juruá, que cuida do atendimento médico às comunidades de Feijó, não retornou aos pedidos do blog. 


     Foto/Gleilson Miranda/2009

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