Crônicas de Domingo

ARRANCANDO A VIDA COM A MÃO

Fala-se de floresta e de sertões como se fossem apenas ambientes, e assim sendo, isso seria pouco. Seria conversa de ambientalista

. Pessoas que sequer sabem se situar geograficamente, não saberiam mesmo situar matas e rincões no panorama global. Sabem apenas repetir que é preciso produzir, investir... Não enxergam que o refrão foi criado por quem quer mesmo é auferir. Poderes na mão de gente sem noção.

Muitos pensam com números e com ambições. Disfarçam isso dizendo que se interessam pelo desenvolvimento, que se interessam pelo povo e esse precisa de oportunidades. É claro. Claríssimo. Para quem só enxerga o que é mostrado no imediato direcionamento, suas visões são a própria convicção da verdade. O mais é conversa desses e daqueles, como vem sendo dito aqui e ali. É preciso ver que essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer, como uma música disse lá atrás. É vida de gado.

De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% ficaram exclusivamente com 1% dos mais ricos do planeta. Isso é desigualdade! Nessa conta, a metade da população mais pobre do globo (3,7 bilhões de pessoas) não ficou com nada! No nosso país há cinco bilionários detendo patrimônio (549 bilhões de reais, em 2017) igual ao da metade mais pobre do Brasil. Isso é uma vergonha! Nesse mesmo ano, os 50 por cento mais pobres tiveram suas posses reduzidas de 2,7 para 2,0%. Isso é uma tristeza.

Nas florestas e nos sertões há vida. Vida em muitos sentidos. Seres que vivem lá ou aqui. Biodiversidade que só ali existe. Água, como em nenhum outro lugar, só existe na Amazônia. Vida há que haver também para as gerações futuras. Porém, a sede de lucro é imediata. O desejo por dinheiro e poder, disfarçado de boas intenções, é bruto e covarde. É preciso reformar e os bancos agradecem. Mas o filé para os de casa é sempre bem-vindo, até com delivery nos EUA, com avental bem amarrado. É preciso mudar, dizem os que se disfarçam. Então, tá ;... Só que não.

Olhando bem, não se vê quase ninguém interessado em reduzir as diferenças sociais. Está garantido o ‘direito’ para dar tiros. E até comemora-se. Por isso, a indústria de armas e munições agradece... Quase ninguém quer meter a mão no bolso e agir para reduzir a cruel desproporção na distribuição das riquezas. Fala-se em abater os bandidos, como se isso fosse solução para a falta de educação e de oportunidades que o Estado sempre patrocinou... Por&eac ute;m, é preciso achar culpados. Os candidatos mentem.

Em relatório global pré-Davos 2016, a Confederação Oxfam mostrou que a crescente desigualdade criou um mundo onde 62 pessoas possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população. Para piorar, na perspectiva atual, de 2017 em diante, segundo estimativas do mesmo instituto, a tendência é que no universo apenas oito pessoas terão patrimônio igual ao da metade mais pobre da população da terra. Ou seja, a Economia funciona em prol dos mais ricos, pune excessivamente os pobres e necessitados, mas tá tudo ok.

Para sentir isso e tentar modificar, não precisa ser de direita nem de esquerda, basta ser humano. Humano, gentil, pensante, interessado em melhorar o mundo. Em preservar bons ambientes e em criar boas ações. Atualmente, é preciso ter em conta que até para produzir alimentos se gera poluição. Então, alternativas de preservação são sempre bem vindas! Discursos tolos são bons apenas para quem precisa de tolice, seja para se justificar, seja porque não sabe criar. E o gado apenas engorda, sem ver que vai virar bife e ser digerido com suquinho de laranja.

O que se vê, como já disse uma música, é gente pobre arrancando a vida com a mão. Só que gente é para brilhar, não para morrer de fome. E a massa que passa nos projetos do futuro, cantada em outra música, segue no varadouro que lhe é dado seguir, porque é preciso investir... Investir significa deixar o pobre trabalhar para os mais ricos, ou será que não? É preciso enxergar a ilusão, que pode estar de um lado ou de outro.

Pessoas tentam justificar o tiro dado nos próprios pés, batem palmas com as mãos fechadas, estão com os olhos vendados. Muitas sequer enxergam o óbvio. Não sabem nem querem saber que os dez por cento mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos que os dez por cento da população inteira. Isso ocorre no Brasil e em muitos outros lugares. Saúde, educação e outros serviços públicos universais reduzem o fosso entre ricos e pobres e entre mulheres e homens. Podem reduzir, se forem mesmo universais e ac essíveis. Mas quando vão ser?

Cobrar impostos mais justos dos ricos pode ajudar a pagar por esses serviços. Os serviços públicos, como educação e saúde, dentre outros, têm condições efetivas de combater a pobreza, reduzir a desigualdade e enfrentar a injustiça que grassa no mundo. Isso é ainda pior para os que moram longe dos grandes centros, em locais de difícil acesso ou em locais inteiramente esquecidos, ‘paraíbas’ ou de outro além.

E nisso, aqueles que preferem viver nas matas ou nos sertões são tidos como de outro mundo. São subespécies. Estão no bornal dos vagabundos, esse bornal criado por justiceiros e aproveitadores. Milicianos de fardas desbotadas ou de fraldas alaranjadas dizem que essa gente escondida não produz. Não serve a pátria nem ao mundo, essa gente que não é do grupo poderoso e mentiroso.

A se acreditar nos aproveitadores, as pessoas mais humildes não são gente deste planeta do céu de anil. São melancias disfarçadas de gente. Mas, aqui pra nós, isso precisa mudar. Há sempre uma flor para plantar. E as flores não são para arrancar e sim para despertar bons sentimentos, acima de todos! A religião maior é querer fazer o bem, sem guerras nem tiros perdidos. Sem dramas nem tramas.

O primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Essas belas palavras precisam virar realidade. Combater a desigualdade continua sendo um dos desafios mais complexos do mundo. E proporcionar serviços públicos universais é uma forma testada e comprovada de fazer frente a ele. É necessário que todos ajam contra a cruel desigualdade para alcançar um futuro mais justo, saudável e feliz para todos, e não apenas para uns poucos.

Urge enxergar além do ver, para enxergar com o sentir. No meio de tanta gente, há os que sonham e enxergam. Há os que respeitam e dão as mãos, mesmo nas florestas e nos sertões. Índios, seringueiros, mateiros, sertanejos, plantadores, sonhadores, gente do luar e das secas, gente de beira de rio, gente da solidão e da simplicidade. Também os povos das cidades e das esquinas da vida. Das favelas e das mazelas. Há muita gente que pede igualdade. Como diz a música, “no coração da mata gente quer prosseguir. Quer durar, quer crescer, gente quer luzir”.