Cidade

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O casamento dos moradores da Seis de Agosto com o bairro

“Aqui eu me sinto bem. Pretendo sair só quando for para a cidade do pé junto”.

A fala é da autônoma Maria Aldecília, 70, que há 39 anos mora na Seis de Agosto. A frase de Aldecília poderia facilmente representar o pensamento da maioria dos moradores do bairro histórico. Mas o que há de tão diferente nesse lugar, capaz de causar tamanho sentimento em seus moradores? Uma indagação difícil de responder.

O bairro não tem nenhum glamour. Muito pelo contrário. É um lugar desgastado pelas enchentes que se sucederam nos 114 anos de existência. As ruas esburacadas atrapalham o tráfego dos carros e dificultam até mesmo para os carrinhos de bebês, como comenta Maria:

“A rua tá muito derrubada. Toda feia, tudo quebrado. Não pode nem andar com as crianças em um carrinho porque cai em buracos.” À medida que se caminha pela parte final do bairro, o cenário vai se alterando. As casas começam a ter mais espaços umas entre as outras, e os matos ocupam mais o ambiente. São moradores que decidiram permanecer ao invés de ir para a Cidade do Povo.

Os botecos são iguais, os varais de roupas com fios de telefone também. As fofocas entre os vizinhos continuam, e com agilidade melhor que a de qualquer jornal. Ainda dá para comprar fiado no comercio do seu Zé. Os meninos ainda voltam à mercearia para trocar a compra errada. As mães ainda dão “aquelas pisas conversadas” que meio bairro ouve. É tudo igual. Todo bairro tem isso.

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Mas há algo diferente e forte na Seis de Agosto. E que fez muita gente voltar para aquele bairro, mesmo depois de passar por enchentes. Mesmo depois de perder móveis para a alagação. Algo capaz de fazer alguns moradores recusarem a proposta de mudar de conjunto habitacional. Afinal, o que há de tão especial nesse bairro, capaz de gerar sentimentos como o da Maria Aldecília?

Não há uma resposta simples para isso. Mas talvez a resposta esteja nos próprios moradores daquele lugar. A Seis de Agosto é feita de pessoas fortes. É feita de gente que por várias vezes precisou entrar em águas contaminadas da alagação para tentar salvar os poucos móveis, pondo em risco a própria vida. De gente que acredita que esse lugar é mais do que um bairro histórico da capital. Para eles, a Seis de Agosto é um lar.

A aposentada Luiza Mendes de Oliveira, 76, moradora do bairro há dez anos, não contém a felicidade ao falar: “Eu gosto muito! Alegro-me de morar neste bairro. É perto do Centro da cidade. É bem tranquilo. Antes eu morava no quilômetro 30 da estrada de Boca do Acre, mas eu e meu esposo já estávamos velhos e decidimos vir para a Seis de Agosto. Aqui é muito bom”.

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A aposentada conta também que passou por momentos difíceis no bairro, perdeu móveis na alagação, mas que, no final, deu tudo certo. “Nós nos sentimos muito abatidos e aperreados. Ficamos aflitos! Toda pessoa que fica alagada fica aflita. Perdemos um bocado de móveis - cama, guarda-roupa... - porque a água tomou de conta. Mas Deus já deu tudo de volta!”, disse, sorrindo.

Na alegria e na tristeza, até que a alagação nos separe

Luiza Mendes têm as características essenciais para ser uma moradora do bairro Seis de Agosto. Ela tem força e alegria. Alegria é outro detalhe importante e característico de quem mora nesse lugar. O aniversário do bairro é a data mais esperada pelos moradores, e é festejada com muita euforia durante todo o dia, como comenta a estudante Natália Moura.

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“Todos os anos eu participo. É lá no mercado. Começa bem cedinho, com a queima de fogos. Pela manhã tem a corrida. Tem também o bolo. Eu nunca vi o bolo [risadas], mas, eles colocam lá no mercado. Depois repartem, não sei ao certo. À noite tem o bingo e também o concurso de miss e mister. E finalizam com as bandas.”

A festividade acontece no dia 6 de agosto, e se mistura com a data na qual se comemora a Revolução Acreana. Além das atividades citadas pela estudante, há também o desfile das forças policiais, corpo de bombeiros, fanfarras, escolas etc. E tudo é acompanhado de perto pelos moradores do bairro e adjacências.

A comunidade que se une durante as enchentes é a mesma que se une durante a festa do bairro. Parecem os votos de casamento – na alegria e na tristeza. A criançada que corre em busca de um pedaço do bolo é a mesma que anda pelas águas barrentas da alagação. Os homens e mulheres que jogam o bingo são os mesmos que, aflitos, embarcam seus móveis em barcos em busca de salvá-los.

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Seis de Agosto parece ser um bairro como qualquer outro, mas não é. É um lugar lindo! Mas não é bonito só por causa dos grafites, da praça ou do viaduto que o liga ao Cadeia Velha. É belo porque tem gente forte, alegre e que nos momentos difíceis, se une. E talvez sejam esses os motivos pelos quais os moradores, mesmo podendo partir, decidem ficar.

*Acadêmico de Jornalismo da Ufac


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