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O renascimento dos filhotes da ditadura

Certa feita ouvi de um experiente político que na política “não existe coincidências, existe interesses”

. Pois ao longo de quase quatro décadas lidando com o jornalismo político complemento a afirmação acrescentando “e intenções”. Por certo que qualquer agente político irá dizer que se trata do interesse público. E que as intenções são sempre as melhores possíveis e abrangem o maior número possível de pessoas. Ocorre que na prática o que se observa é a defesa dos interesses de uma minoria, seja de grupos ou, na maioria das vezes, do próprio interesse. E a intenção, óbvio, é fazer acontecer esses interesses.

Inúmeros são os exemplos, desnecessário, pois, citá-los. Ocorre que, por uma excepcionalidade pontual, o momento político do país está se prestando à supervalorização desta regra, até então dissimulada. Falo do enfraquecimento do regime democrático pela imposição de um governo com nítida feição autoritária. E o mais preocupante, feita por uma organização chancelada pelas urnas, ou seja, ungida pelo sistema democrático, e que tem como principais protagonistas o presidente da República e seus filhos.

A manifestação mais recente desse planejamento ostensivo, sarcasticamente denominada de “nova política”, feita por Carlos Bolsonaro, é por demais esclarecedora. Disse ele: “Por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos… E se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes”. Ou seja, a frase tem pensamento de ditadura, cara de ditadura, jeito de ditadura, portanto, só pode estar pregando a volta da ditadura.

Mas ele nega e chega a chamar de “canalhas” os jornalistas que, segundo ele, interpretaram a sua declaração como arroubo ditatorial. Trôpego habitual das ideias e das palavras, Carlos não percebe que o termo ofensivo utilizado abrange um contingente enorme de brasileiros, dentre eles governadores, juristas, lideranças políticas diversas, dentre elas os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, intelectuais e outros tantos que tiveram a mesma impressão do malfadado Twitter.

Enquanto isso o pai, mentor do pensamento e do comportamento do clã Bolsonaro, mais uma vez nada diz e nada faz. Inadmissível, mas compreensível. Afinal, o garoto só repetiu aquilo que ouve o pai dizer há mais de trinta anos. Mas se não se comporta como o estadista que deveria ser, Bolsonaro endossa a atitude do filho 02 ao tirar, no mesmo dia da desastrosa manifestação, uma foto em seu leito hospitalar com o outro filho, Eduardo. Nela o pré-candidato à embaixador nos EUA aparece com uma pistola na cintura. Legítimo caso do ditado que diz que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Eduardo, é bom lembrar, foi o autor da frase de que “basta um cabo e um soldado para fechar o STF”,

Assim, nesse processo de banalização do absurdo, a ameaça à democracia cresce de maneira assustadora. Mas a boa notícia é de que já se percebe sintomas de reação na sociedade. Ainda acanhados, mas alentadores e promissores. E nessa seleção natural entre democratas e tiranos a boa nova é que os enrustidos, aqueles que prosperaram na posição de vítimas do sistema, começam a mostrar as suas verdadeiras faces. Desse modo, a cada arroubo autoritário do presidente e dos filhos, vê-se mais e mais máscaras caindo. Alguns confirmando antigas suspeitas, outros surpresa, mas todos, indiscutivelmente, claramente embevecidos pela ode absolutista emanada pelo Palácio do Planalto.

Em meio a esse turbilhão de dúvidas e incertezas não há lugar para ingenuidade. As manifestações de Carlos Bolsonaro, por mais ridículas e estapafúrdias que pareçam, expressam uma realidade cada dia mais inquestionável. A de que o processo golpista continua em franco desenvolvimento.

Se Carlos Bolsonaro não sabe se expressar adequadamente, por outro lado, sabe como ninguém o que está dizendo. Por isso tem entrada franca na sala da presidência onde, na ausência do pai, despacha com os ministros. Por isso tem lugar assegurado no carro aberto usado em desfiles solenes, junto ao presidente, honraria que não é dada ao vice-presidente. E por isso foi indicado para coordenar as redes sociais do pai, usada como principal canal de comunicação entre a presidência da República e a população.

Cada filho do presidente tem uma missão. Foram criados para isso. Preparados para isso. E como disse Jair Bolsonaro, “se eu puder dar filé mignon para os meus filhos, eu dou”. E nesse menu patriarcal, nessa repartição do poder, ao que tudo indica, coube à Carlos Bolsonaro o papel de ser o “Kim Jong-un da direita radical brasileira. E como se diz nas forças armadas, “missão dada é missão cumprida”. Mesmo que isto signifique tratar a cidadania como “carne de pescoço” e a democracia como algo descartável. É isso que as mensagens do filho “fiel escudeiro”, destemida e afrontosamente, estão dizendo.

Jornalista

Fonte: https://www.sul21.com.br

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