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    Movimento feminista do Acre divulga nota de repúdio após contratação do goleiro Bruno pelo Rio Branco-AC

    Movimento pede suspensão da contratação de Bruno Fernandes, anunciada neste domingo pelo presidente do Estrelão, Valdemar Neto

    Após a presidência do time do Rio Branco anunciar, neste domingo (26), a contratação do goleiro Bruno Fernandes, o movimento feminista do Acre se posicionou contra a vinda do jogador para o estado e divulgou uma nota de repudio, nesta segunda-feira (27).

    Bruno Fernandes foi condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio e pelo sequestro e cárcere privado do filho Bruninho. Ele também havia sido condenado por ocultação de cadáver, mas esta pena foi extinta porque a Justiça entendeu que o crime prescreveu. As penas somadas chegaram a 20 anos e 9 meses de prisão.

    lidiane webLidiane Cabral é representante do movimento feminista do Acre e da Mulheres da Amazônia — Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

    Em nota, o movimento afirmou que a contratação de Bruno representa uma afronta e escárnio com todas as vítimas de violência doméstica. A publicação relembra também que o Acre tem a maior taxa de feminicídio do país e trazer Bruno para o time local é um desrespeito com a luta das mulheres.

    “Neste momento de indignação, nós, mulheres dos movimentos sociais organizados, nos juntamos à demais instituições da sociedade civil, dirigidas e apoiadas por homens e mulheres, torcedores e instituições democráticas legalmente constituídas, para exigir que a diretoria do Rio Branco Football Club reveja, imediatamente, a decisão da contratação do goleiro Bruno. Exigimos, ainda, que sua diretoria venha a público, diante da sociedade e de sua valorosa torcida, pedir desculpas pela afronta que fez”, diz.

    Movimento

    O movimento lançou a hashtag #nãoacontraçãodogoleirobruno nas redes sociais para que as mulheres compartilhem e peçam também a suspensão da contratação do goleiro. Ao G1, uma das coordenadoras do movimento feminista e do Instituto Mulheres da Amazônia, Lidiane Cabral, explicou que não vai ser possível fazer nenhum ato presencial para não desobedecer as regras de isolamento social, porém, o grupo está em contato com os patrocinadores e a direção do time para saber um posicionamento.

    “Vamos criar cards, entendemos que não é interessante fazer um movimento presencial devido ao momento, então, a gente está se mobilizando em nossos grupos e entrando em contato com os patrocinadores para pedir que nos informem se continuam ou não patrocinando. Queremos que o Rio Branco também se posicione, é importante para nós”, reforçou.

    Em entrevista ao ge nesta segunda, o presidente do Rio Branco, Valdemar Neto, usou versículos da Bíblia para rebater as críticas recebidas pela contratação de Bruno e afirmou que o goleiro merece uma segunda chance.

    “A palavra de Deus no livro de Mateus, 18 (capítulo) - 20 (na verdade versículo 21 e 22) fala sobre perdão. Quando Pedro perguntou para Jesus quantas vezes ele tinha que perdoar seu irmão que errou. ‘Até sete vezes?’ ele (Pedro) pergunta e Jesus disse: ‘Não. 70 vezes 7’. Ou seja, palavra de Deus fala isso. O livro sagrado, que é o livro mais sábio que tem no mundo. Então, não vai ser eu, mero mortal, que vou contra a palavra de Deus e à justiça aqui na terra. O que o pessoal tem que ver, é parar com essa hipocrisia, parar com isso, porque todo mundo merece segunda chance e quem não errou, que jogue a primeira pedra”, defendeu.

    Lidiane destacou que o movimento vê a contratação do jogador como uma simbologia da impunidade e dos machismo impostos para as mulheres do estado acreano.

    “Só no Acre, entre janeiro e até agora, foram seis feminicídios. É uma mensagem subliminar da impunidade, estão trazendo um homem que foi garoto propaganda também de um canil, então, tudo tem uma simbologia doente de um estado machista, misógino e de uma cultura patriarcal que está dando um recado para as mulheres, ou você silencia ou morre”, afirmou.

    Confira nota do movimento na íntegra:

    Nós, mulheres do Acre, estamos vindo a público para manifestar o nosso repúdio ao Rio Branco Futebol Clube que anunciou a contratação do feminicida goleiro Bruno.

    Não podemos supor que se trate de algo diferente de uma afronta, de um escárnio para com a sociedade acreana e para com a luta das mulheres e um desrespeito para com as vítimas do machismo, da misoginia e do feminicídio. Um desrespeito, também, para com as suas famílias, para com a família de Eliza Samúdio que, até hoje, não sabe o paradeiro de seu corpo.

    Para iniciar uma remissão de verdade, Bruno deveria, no mínimo, revelar onde está o corpo da mulher, dando, assim, uma oportunidade de seus parentes dar-lhe um enterro decente e prestar-lhes as homenagens que desejarem a uma mulher que foi morta porque reivindicava seus direitos e de seu filho com o seu algoz.

    Todos os dias a cada instante temos mulheres sofrendo violências inimagináveis assim como Eliza que reivindicava o direito basilar de pensão alimentícia.

    É uma afronta e um escárnio, sim, o Rio Branco tomar tal decisão em um Estado que tem um dos mais altos índices de crimes de violência contra a mulher, segundo os dados do Monitor da Violência.

    Se torna afrontoso e vergonhoso que um time acreano se mostre distanciado das causas e das lutas das minorias e se submeta à execração pública, à repulsa de seus próprios torcedores e à condenação da sociedade em que está inserido. Isso nos faz retornar aos tempos no qual o Acre era o local para onde eram enviados sujeitos rejeitados no Sul-Sudeste, os desterrados de 1904 e 1910. O Acre, assim, continua sendo apresentado como um lugar para aqueles que não são bem vindos lá.

    Sobre o futebol, lembramos que esse esporte forma ídolos de crianças, jovens e adultos, o que torna inconcebível que crianças admiradoras de seus atletas possam, em algum momento, ter como ídolo o goleiro Bruno como pretende o histórico time que, com essa contratação, venha projetar esse homem como líder para sua torcida.

    Não estamos aqui defendendo que Bruno não tenha direito à ressocialização, a um trabalho que garanta o sustento na sua retomada pelo caminho do bem, dentro dos preceitos legais que a sociedade exige. Não! Não é isso. Bruno pode e deve trabalhar, mas não em posição de destaque dentro do futebol. Não numa posição que possa destacá-lo como ídolo, como herói de uma torcida. Heróis se pautam pela justeza, pela ética, pelo respeito aos direitos humanos.

    Neste momento de indignação, nós, mulheres dos movimentos sociais organizados, nos juntamos à demais instituições da sociedade civil, dirigidas e apoiadas por homens e mulheres, torcedores e instituições democráticas legalmente constituídas, para exigir que a diretoria do Rio Branco Football Club reveja, imediadamente, a decisão da contratação do goleiro Bruno.

    Exigimos, ainda, que sua diretoria venha a público, diante da sociedade e de sua valorosa torcida, pedir desculpas pela afronta que fez. Exigimos ainda uma manifestação dos patrocinadores, pois como consumidoras, não aceitaremos que empresas locais das quais somos clientes, patrocine esse tipo de iniciativa.

    Finalizando, a título de pedido, queremos que o Rio Branco Football Club dê o exemplo ao Acre, ao Brasil e ao Mundo, acrescentando em seu estatuto a decisão de não mais contratar homens condenados por crimes contra mulheres.

    Rio Branco, 27 de julho de 2020

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