Entrevista com o Txai Terri Aquino

Txai Terri na Oficina de Etnomapeamento na TI Mamoadate – Foto: Acerco CPI-Acre

Ana Luiza Melgaço, Estevão Ribeiro, Leilane Marinho, Vera Olinda

O antropólogo Terri Valle de Aquino é a essência do indigenismo no Acre.Fez história quando adentrou as cabeceiras do rio Jordão em meados da década de 70, para realizar sua pesquisa de mestrado, e se deparou com índios seringueiros em situação de escravidão. Sensibilizado com a realidade injusta que encontrou, logo se colocou ao lado dos índios e com eles continua até hoje.

Terri que há muito já virou Txai, título que lhe foi conferido pelos Huni Kuĩ, e quer dizer mais que amigo, continua viajando por longos períodos para as terras indígenas, celebrando, apoiando e divulgando a importância da existência dos povos indígenas, e nos últimos anos participando de longas dietas com o uso de plantas de poder, a exemplo o raremuka.

O Txai Terri é um dos fundadores da Comissão Pró Índio do Acre (CPI-Acre), entidade indigenista que completou 40 anos em fevereiro passado, em um momento cheio de incertezas e desafios. A luta, que parece não ter fim, continua sendo pela proteção e garantia dos direitos indígenas. Em um cenário como esse, as celebrações se tornam resistência, os desafios aumentam, mas também encorajam.

Com esse sentimento inaguramos as atividades do Abril no Acre Indígena – 2019, apresentando ao leitor uma entrevista com o Txai, que compartilha suas percepções sobre a chegada de um novo momento histórico. Terri lança luz sobre as crescentes manifestações da cultura e espiritualidade na construção da territorialidade dos povos indígenas no Acre e fala da relevância de se manter o reconhecimento e as condições que contribuam com a integridade destes povos.

Papo de Índio- Você tem discutido a importância do governo do Acre prosseguir com os investimentos nas terras indígenas, mostrando inclusive que uma ruptura na gestão não deve ser inconseqüente a ponto de trazer prejuízos para o estado de modo geral…

Txai Terri – São 28,9 milhões de reais para investir nas terras indígenas do Acre. Mais de 6 milhões oriundos do Programa REM-Acre; quase 19 milhões previstos pelo Banco Mundial para o Proser e 3.600 milhões do Fundo Amazônia.No caso do REM a única contrapartida é diminuir a taxa de desmatamento no estado. Resta saber se isso interessa politicamente ao governo, já que o modelo de desenvolvimento apontado é o de plantio de soja e outras commodities. Esse é o problema e acho que é interessante colocar.

Outro ponto é ver quais as ações previstas para serem apoiadas com esses recursos. São Planos de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas, a remuneração dos AAFIs [Agentes Agroflorestais Indígenas], apoio aos festivais culturais nas aldeias, formação dos AAFIs, apoio a governança do SISA. Isso é importante ressaltar, pois é um recurso de doação e não vai custar nada, além desse compromisso político de redução de desmatamento, para que o Banco KfW realmente efetive a continuidade do Programa REM. E os índios estão sinalizando a importância e a necessidade da continuidade desse apoio, que é a única fonte que tem para dar continuidade a esse trabalho dos Agentes Agroflorestais. Eles prestam serviço muito importante não só para as suas terras indígenas,mas para o estado, o Brasil e para o planeta Terra. E outra coisa, eu tenho escutado alguns comentários, inclusive de secretários [de Estado], dizendo que remunerar os Agentes Agroflorestais Indígenas é uma forma de paternalismo. Eu quero ressaltar que a bolsa dos AAFIs, além de ser uma remuneração justa pelo trabalho importante que eles realizam para a proteção das florestas, é um recurso que movimenta a economia dos municípios. Os agroflorestais não vão comer dinheiro não! Eles vão comprar alguma coisa para suas necessidades básicas e isso fortalece a região. Vai comprar de quem? Dos comerciantes locais e isso faz girar a enconomia do município, entende? Isso tem um efeito positivo na economia local, sobretudo para os municípios mais afastados como Jordão, como Santa Rosa, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter. Tem que ter essa visão mais ampla, pois são fontes de recursos que entram nos municípios e ajuda todo mundo.

Txai Terri no Seminário de Política Pública no CFPF – Foto: Acervo CPI-Acre

Não é só remunerar o AAFI pelo serviço justo que ele faz de enriquecer a floresta, implantando e diversificando SAFs e quintais agroflotrestais; fazendo a limpeza e o manejo das águas, construindo parques de ervas medicinais; preservando áreas de refúgio da natureza. Como é que isso pode ser visto como paternalismo? Acho que essa é uma visão muito estreita e preconceituosa contra os índios.

A gestão territorial e ambiental de terras indígenas vem desse trabalho também. Os índios tem isso na sua cabeça, no seu espírito, na sua alma, na sua cultura. Esses planos de gestão territorial e ambiental das terras indígenas serve para saúde pública dessas populações, serve para a educação. Aliás, o próprio trabalho do Agente Agroflorestal Indígena surgiu aqui na Comissão Pró-Índio do Acre a partir de uma interseção entre os projetos de educação indígena e o de saúde indígena.

Outro ponto muito importante é o apoio aos festivais de cultura. Hoje os índios estão realizando festivais nas terras indígenas com a participação de um considerável público não indígena,não só de acreanos, mas de outros estados e até mesmo de fora do País. Incentivando o turismo étnico. Esses festivais já viraram tradição local.

Os festivais são muito importante, porque a cultura indígena é o que os índios tem de diferencial. Um exemplo é a Aveda, uma empresa de cosméticos norte americana, que tem uma longa parceria com osYawanawa do Rio Gregório e quer com eles uma relação mais simbólica cultural, que é associar a imagem dos Yawanawa aos seus produtos. Nessa parceria o mais importate não é comprar o urucum dos Yawanawa, e sim poder usar a imagem bonita e alegre deles com suas belas pinturas faciais e corporais de urucum.

Algumas empresas como essa querem bens simbólicos, culturais, espirituais, não querem commodities.Tem muita gente doente nesse planeta que precisa do que os índios têm para oferecer, os remédios naturais,a sabedoria e as curas que vem da floresta. Hoje estão valorizando mais os festivais; hoje há vivências,há pessoas doentes que estão vindo aqui nas aldeias indígenas para se curar com uso de ervas medicinais perfumosas da floresta. Com banhos e tratamento que recupera a saúde espiritual, física e mental. Quer dizer,essa é uma nova economia e as velhas entidades indigenistas ainda não entenderam a importância desse trabalho que os índios estão fazendo.

Então, como não associar essa imagem de que os indígenas são,ou pobres ou ricos, e que não precisam desses recursos, que é direitos deles? Fale um pouco sobre essa dinâmica cultural.

Os bens culturais são coisas muito importantes e, hoje, não só como identidade, mas também para acessar recursos. Isso é real no Acre nos últimos anos. Antes a renda era da extração da borracha, eles sendo explorados; sem direito algum, sem assistência decente de saúde; explorado nos preços das mercadorias,no preço do quilo da borracha que produziam; pagando renda ou seja, pagando um aluguel para poder viver na floresta, com uma gestão que os patrões faziam que era super rigorosa. A seringueira tinha que ser cortada dentro de regulamentos ambientais para não matar aquela árvore, que por sua vez precisava de outras, precisava da floresta em pé,para poder produzir o látex.

Aqui no Acre há muito tempo se faz gestão ambiental. Agora, gestão social, de direitos, é da década de 80 para cá, quando os índios reconquistaram seus territórios e que começaram a conquistar a autonomia nas suas terras. Com os planos de gestão e os projetos,estão botando no papel escrito aquilo que eles fizeram e fazem por toda vida. Claro, na tradição da oralidade. Eles sabem manejar os ambientes melhor do que ninguém.

Foto: Divulgação

Nesse sentido o que está por vir acho que é a cultura e a espiritualidade. É uma coisa nova por causa da relação com recursos financeiros. Os índios já estão oferecendo isso nesse sistema capitalista que envolve a todos nós, cara pálidas e peles vermelha. Não adianta ficar pensando de que os índios estão fora desse sistema! Esse sistema já os alcançou há mais de 100 anos, só que a custa de vidas, à custa de exploração, escravidão. Hoje a autonomia é cultural. Aqui no Acre isso é forte. Hoje querem o apoio para manejar culturalmente sua biodiversidade, sua medicina da floresta, suas plantas de poder, que com dois banhos em um doente já ajuda no reestabelecimento da sua saúde. São bens simbólicos, é a imagem, a cerimônia, o canto, a pintura, a reza. É essa coisa intangível, que você não pega. Não é uma matéria prima.Os índios estão compreendendo isso. Estão à frente. Vejo isso como uma economia sofisticada, moderna, economia do Século XXI, entendeu?

O fortalecimento cultural que você cita como uma economia sofisticada, é muito diferente do que os governantes querem para os índios, que eles sejam produtores de soja por exemplo…

Os índios não querem produzir soja não! E eu acho ainda que é muito difícil eles convencerem os índios a produzir soja, ou qualquer outro tipo de commodities nas suas terras.

E outra coisa, esse papo de fazer revisão de terras indígenas demarcadas e regularizadas é outro absurdo! Os acordos internacionais do governo brasileiro com o governo alemão, a exemplo do PPTAL [Projeto de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal], destinou financiamentos foi para demarcar terras indígenas na Amazônia, inclusive no Acre. Como que de repente vai alterar esse processo de reconheciento de terras no País? Que falta de seriedade é essa? A cooperação internacional, as agências humanitárias, os bancos multilaterais, como o BID e o BIRD, apoiaram muito as demarcações das terras indígenas. E uns ventos da espiritualidade também, os espíritos da floresta ajudaram nesse processo. Eu acredito nisso.

Fala-se muito, fala-se o que quer, mas não vai ser assim não, fazer é bem diferente. Essa gente de governo é tudo “passarão” e os índios são “passarinhos” e estão aqui nessa floresta há muito tempo; já passaram por momentos difíceis, lutando para sobreviver, para garantir sua integridade física na floresta, foram escravos e se libertaram, entendeu? Essas terras foram conquistadas pelos próprios índios com ajuda dos espíritos fortes da floresta, os Yuxibu, como dizem os Huni Kuĩ. Então, anular ou rever os processos de regularização de terras já demarcadas é um papo furado, sem fundamentação legal.

Diante desse quadro de retrocesso na política indigenista governamental você acha que a cooperação deveria rever suas linhas de financiamento?

Eu acho que a cooperação internacional tem sim que rever esses critérios de financiar só os governos. Tem que começar a financiar diretamente as associações indígenas e entidades não governamentais que estão fazendo ações concretas nas terras indígenas. Se o governo do Acre não quer apoiar com esses recursos do REM – KfW, a formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas e a remuneração deles; se não quer aplicar esses recursos que já estão aprovados e que não vai onerar os cofres públicos do Estado, então, que sejam destinados para que a Comissão Pró-Índio do Acre continue promovendo a formação profissional e a AMAAIAC, que é a Associação de repretação política dessa categoria profissional, para que continue fazendo a remuneração. Hoje são 182 agroflorestais em formação e desse total 55 já concluíram o Ensino Médio como técnico agroflorestal indígena e os demais estão em diferentes etapas da formação. Espero o bom senso do novo gorvernador do Acre para que assuma a continuidade da aplicação destes recursos, já destinados aos povos indígenas.

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