Cultura

    “Amazônia chama – Canto Manifesto”

    As músicas encantadoras de Edmilson Mapinguari de Xapuri

    Quem nasce na Amazônia, a maior, mais rica e mais bonita floresta tropical do planeta e hoje, infelizmente, também a mais perseguida e mais maltratada do mundo, ouve falar desde pequeno uma história que dizem que foi propalada há séculos pelos próprios índios da região. E que mete medo e deixa os cabelos das meninas e dos meninos amazônicos arrepiados. 

    A história diz mais ou menos assim: Tá lá na selva o bicho Mapinguari, com o olho na testa, a boca na barriga, a pele de casco de jabuti e uma força descomunal para comer caçadores ou qualquer um que trate mal seus rios, seus igarapés, suas árvores, seu céu, seu vento, seus animais, suas aves. Em forma de advertência, a lenda parece refletir um recado dos indígenas a quem queira quebrar a harmonia e o respeito mútuos que deve haver, desde sempre, entre o homem e a natureza.

    Das muitas histórias antigas contadas pelos velhos índios, seringueiros e ribeirinhos da floresta detentora de quase 20% da biodiversidade do planeta, essa sempre foi a preferida do cantor e compositor acreano José Edmilson Gomes Figueiredo, conhecido como Edmilson Mapinguari. O apelido ele ganhou depois de formar o Mapinguari, grupo musical que atuou até 1982.

    O tempo passou e, nos últimos meses, o artista xapuriense, mesmo durante a pandemia do coronavírus, vem surpreendendo e encantando as redes sociais do país e do exterior com uma grandiosa e bela obra musical, que canta, enaltece, engrandece, lamenta e chora boa parte da história contemporânea da Amazônia.

    foto 002Amazônia, a maior, mais rica e mais bonita floresta tropical do planeta - Foto portalescolar.net

    Tendo como pano de fundo Xapuri, no Acre, local onde nasceu e cresceu há 63 anos, a obra musical de Edmilson Mapinguari, conterrâneo do saudoso sindicalista e ambientalista Chico Mendes, é composta de mais de 160 músicas de sua autoria. São canções que compuseram repertórios de vários shows em defesa da Amazônia, sendo muitas ainda inéditas. Edmilson chegou a Brasília, cidade que o acolheu em 1976, para prosseguir os seus estudos iniciados em sua distante e amada Xapuri.

    “Amazônia Chama – Canto Manifesto”, é o álbum de Edmilson Mapinguari, que está sendo divulgado a apreciado em todas as plataformas de streming para música digital (Spotify, Deezer, Apple Music etc) no Brasil e em outros países. O videoclipe da sua música “Raoni” teve 34 mil acessos nos primeiros dias após ser publicado no Canal do Youtube.

     No total, o álbum é composto por doze canções em quatro blocos temáticos, cada um com três músicas, começando pelas belas “Raoni”, “Nambikwara” e “Cinza dos Índios”, canções inspiradas nos povos indígenas, considerados os mais antigos guardiões da floresta amazônica.

     Por sua vez, as músicas “Bagaço do Mato”, “Queimada” e “Patativa”, que o cantor e compositor identifica como as canções que mais lembram sua terra natal, denunciam a devastação ambiental que vem se dando de forma acelerada nas últimas décadas no Continente sul-americano, segundo Edmilson Mapinguari.  Já “Enchente”, “Barqueiro” e “Boto” inundam os sentidos com o som das águas das nascentes, igarapés e rios, paisagens das mais expressivas das memórias amazônicas. 

    O quarto bloco evoca os modos de ser e fazer dos povos da floresta amazônica nas músicas intituladas “Seringueiro”, “Terra” e “Amazônia...a Deus”, “que compõem os muitos mundos que habitamos e que nos habitam”. Ao falar, em entrevista (ver abaixo) de seu trabalho e de seus companheiros músicos, Edmilson Mapinguari destaca o que significam os seus cantos. “Meus cantos ressoam lamentos, queixas de vidas subjugadas, violentadas. Também são cantos de despedidas, de ausências e de perdas. Mas ressoam também rebeldias, protestos e lutas. Afinal, lutar justifica viver”, diz o cantor e compositor xapuriense, que também é poeta, cineasta e produtor gráfico. 

    Foto 3A trupe do trabalho de 2020, Josué Costa, Edmilson Mapinguari, Roberto Mendes e Nonato Veras

    Músicas ressoam vento, água, fogo, folhas e viventes da floresta

    Quem ouve atentamente as 12 composições lindamente musicadas no álbum “Amazônia Chama – Canto Manifesto” (ouvir clicando nos links), tendo ao fundo os sons enigmáticos e encantadores dos pássaros e animais da região amazônica, naturalmente transborda em emoção pela expressiva viagem que Edmilson Mapinguari faz em sua obra musical sobre a maior floresta tropical do mundo.

    É o que diz sentir o seu velho amigo e músico Fernando Rocha, diretor e ator de teatro, crítico de música e cinema, depois de ouvir todo o álbum musical de Mapinguari, que ele ressalta ser aquele menino que corria pelas ruas de chão de Xapuri, se banhando nos igarapés quase todo santo dia de sua infância liberta e feliz. 

    “O Menino ouvidor de histórias e causos, ao redor de qualquer pé de árvore, virou um exímio contador de causos e histórias. Sentar em roda e ouvir Edmilson é puro prazer. E, também, profunda emoção. Muitas vezes choramos as florestas destruídas, os rios contaminados, os companheiros perdidos nas lutas contra os poderosos”, assinala Rocha.

    Para o amigo do cantor e compositor xapuriense, “por meio de sua estética amazônica, raríssima vertente em musicalidade de sons tão belos, que ressoam o vento, a água, o horrendo fogo, o farfalhar das folhas e os barulhos de todos os viventes da floresta”, as palavras das músicas de Edmilson trazem todas as exuberantes imagens da floresta. 

    Foto 4Dio, Fernando, Tonho, Dinha, Edmilson e Têti formavam o Grupo Mapinguari na década de 80, com shows em várias cidades

    “Mas Edmilson não é poeta da contemplação, é poeta da práxis. Por ele e com ele, queremos nossas mãos na massa, em defesa da Amazônia. Em sua fase mais madura, as palavras ganham músculos, os rios ficam caudalosos em sua poesia. As melodias não nos impelem a apenas dançar. São antes suportes para a dramaticidade e o enfrentamento. Trilha sonora para imagens e paisagens ainda não filmadas”, acrescenta Fernando.

     O amigo lembra, ainda, que Edmilson Mapinguari também é cineasta dos bons. “De literatura, música e cinema na mochila, foi trilhando a vida, até aqui. Fez shows, fez cinema, fez política... mas, principalmente, continuou criando! E contando história. Histórias de Xapuri, das lutas em defesa de outros mundos possíveis. Histórias de Brasília. Histórias dos Brasis. E nossas histórias, de seus amigos, que fomos atraídos por seu talento, por sua empatia, por seu brilho, ao longo de décadas. E para além deste século”, conclui Fernando.

    Para o autor e compositor xapuriense, o trabalho musical “Amazônia Chama” é o eco de um clamor que reverbera em sua vida há mais de 40 anos, com um “canto manifesto” das transformações nas paisagens e relações político-sociais das Amazônias, dos Brasis e do mundo. 

    “Aprendi com Davi Kopenawa (líder indígena Yanomami) que os cantos têm força e poder para manter o equilíbrio do nosso planeta, para impedir “A Queda do Céu”, diz o músico ao ressaltar que as canções de seu álbum representam experiências que lhe tocaram, que fizeram vibrar nele a vontade de expressar dores, amores e pertencimento. 

    “Esses cantos ressoam lamentos, queixas de vidas subjugadas, violentadas. Também são cantos de despedidas, de ausências, de perdas. Mas fundamentalmente ressoam rebeldias, protestos, lutas. Cantemos, pois, para evitarmos o abismo, para desativarmos essa bomba relógio prestes a explodir, para que não viremos cinzas que sobram, depois que o fogo consome”, afirma Mapinguari.

    As mídias sociais, que divulgam a obra “Amazônia Chama - Canto Manifesto”, podem ser acessadas através do lendário nome Edmilson Mapinguari. Aproveitem, acessem, compartilhem, participem e divulguem para todos os seus contatos. Mapinguari avisa que, nesses canais, você encontrará sempre uma causa para amar e defender.

    Foto 5Show Amazônia... a Deus, realizado em 1988 com Keilah Diniz, na Sala Martins Pena, do Teatro Nacional de Brasília

    ENTREVISTA

    “Quero meu canto se somando a outros cantos identificados com a defesa da vida e da biodiversidade”

    O que é uma pessoa nascer e crescer numa pequena aldeia rodeada de floresta, como era Xapuri na sua época, ver hoje a Amazônia se acabando em derrubadas e queimadas?

    Sinto uma dose de alegria e tristeza. Alegria por valorizar ter nascido na floresta. Tristeza lamentando pelas opções de desenvolvimento menos sustentável e mais predatório. A floresta no chão é a solução pra quem? 

    Qual a importância que você dá ao seu trabalho que trata da segunda marca do mundo, que é a Amazônia?

    Canto a Amazônia, meu verdadeiro canto. Tudo o que busco é que meu canto se some a outros cantos identificados com a defesa da vida e que a necessidade do bem estar esteja compatível com a preservação da diversidade. 

    Você espera que o seu trabalho musical contribua para frear a destruição da floresta com quase 20% da água doce e da biodiversidade do mundo?

    Onde quer que estejamos, na Amazônia ou em qualquer outro lugar do mundo, precisamos reagir, adotar um comportamento mais responsável. Esse estilo imediatista é predatório e autofágico. Vivemos o antropoceno.

    Você nasceu na floresta natal de Chico Mendes, que foi ao mundo denunciar a destruição da Amazônia. O seu trabalho musical pode fazer a mesma coisa? 

    O Chico foi visionário, se hoje temos reservas ambientais, oceanográficas, talvez até estrelares, foi por sua expertise em optar pelas reservas. Que minha música se some a outras vozes por um mundo mais solidário, compreensivo e amoroso. 

    Foto 6Edmilson Mapinguari em show do SESC-DF de 1979 em defesa da Amazônia

    Qual Amazônia você desejaria deixar para as futuras gerações?

    Amazônia preservada. A minha geração de hoje são os jovens que sonhei como geração do futuro. Não podemos desacreditar nos sonhos se são verdadeiros. O sonho para tornar-se realidade se transforma em vontade de mudança com planejamento. É inadmissível ver a floresta transformada em pasto de gado e campo de soja. Por isso, não desisto de sonhar.

    Sobre qual mundo você gostaria de cantar hoje para a humanidade?

    Os meus cantos ressoam lamentos, queixas de vidas subjugadas, violentadas, também são cantos de despedidas, de ausências e de perdas. Mas ressoam também encantamento, natureza, beleza, rebeldias, protestos e lutas. Lutar justifica viver.

    O que você espera que o coronavírus ensine para a humanidade?

    Tudo que acontece no nosso dia a dia tem ensinamentos e aprendizados. Qual a relação de um inseto com uma aeronave? Quem a ensinou voar foi ele. O covid 19 é a prova que estamos longe de dominar a vida, precisamos admitir.

    Por que essa admiração pela figura do bicho mapinguari?

    - Sou de uma Xapuri onde a estrada era o rio. A vida passava devagar, observada por pessoas sentadas nos bancos, contando histórias dos universos paralelos, das matas, dos rios e dos entes sobrenaturais. A história do mapinguari com olho na testa, boca na barriga, pele de casco de jabuti e força descomunal, que comia caçadores nas regiões remotas da floresta, essa sempre foi das histórias a minha preferida. Pressupõe ação.

    cdO xapuriense Edmilson Mapinguari na Capa do CD - Foto: Divulgação

    Segue abaixo o link onde se encontram as 12 músicas para o leitor escutar

    https://edmilsonmapinguari.hearnow.com

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