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    Corrupção endêmica

    A corrupção na vida política do país demonstra fartamente tratar-se de fenômeno endêmico, cuja morbidade agrava-se por se revelar contagiosa. Os maus políticos, na sua intensa proliferação, têm sido bem sucedidos na missão sinistra de estender essa enfermidade moral aos mais variados setores da sociedade. Primeiro, passaram lições ao empresariado, depois ganharam solidariedade e conivência de poderosos empreiteiros; de tal forma, que não são raros os serviços e obras contratadas neste país que não carreguem consigo um lastro de comissões irregulares e propinas que facilitam ou dificultam as coisas. Não satisfeitos, para se enriquecerem sem o incômodo das leis, os maus infiltraram-se, sem maiores cerimônias, nos gabinetes da Justiça, o que leva gente ligada ao setor a garantir que é ali que se arquitetam muitos avanços sobre os cofres públicos, embora se possa ter a garantia de que esse ainda é um poder que não perdeu totalmente o pudor. Depreende-se que cada qual pretenda ter sua cota na onda de uma crise moral ramificada. Exemplos de baixo e de cima é que não faltam. Se “todos roubam meu dinheiro, por que não devo retomar o que era meu? ” - dizia um humorista do teatro popular.

    Políticos indecentes, para confirmar convênio que celebraram com o diabo, vêm ganhando seguidores de grupos e pessoas que atuam numa seara onde se imaginava que o crime não haveria de chegar; muito menos prosperar. Pois, deu-se o contrário, e a corrupção foi bater à porta de igrejas e salões evangélicos, um recesso em que o crime, de Bíblia na mão, talvez tenha concebido a esperança de uma bênção, um copo de água santificada; ou uma complacência dessas que os programas de televisão oferecem a granel e atacado em forma de milagre. Não se acreditava que neste mundo de cabeça pra baixo a fé e a religião fossem desvirtuadas a ponto de servirem de salvos-condutos para maldades.

    Um jovem padre, de voz suave e enternecida, é acusado de desviar milhões de reais ofertados pelos fiéis, em nome das obras de um santuário. Certos pastores, já denunciados à Justiça, apreciam o estupro; e, mais recentemente, viu-se acusado de corrupção o senhor Everaldo, misto de pastor e político, presidente nacional do PSC. Consta ter sido ele o responsável pelo batismo do presidente Bolsonaro e do governador Witzel nas águas do Jordão, um pobre rio de tão belas tradições históricas, certamente sem culpa. Se os dois foram mesmo batizados, explicam-se as coisas esquisitas que têm acontecido nestes nossos lados…

    Esses novos fatos, associados a outros do mesmo naipe, levam a uma indagação, que não deixa de ser excitante. Estaria nossa gente descuidando de identificar as pessoas certas e nelas votar? Cobra-se muito dos fluminenses por elegerem seis governadores sucessivamente corrompidos e corruptores. Mas da última vez, talvez com voto de expiação inconsciente, elegeram um juiz, um homem da lei! Nem assim os hábitos no palácio tomaram rumo diferente. Qualquer governador, mais ainda se chegar revestido da magistratura, há de ter, como primeiro dever, a probidade pessoal; não é possível que pratique crimes, locuplete-se e enriqueça-se – ele e os bandos que o cercam.

    De olhar voltado para os seis e para todos os que neste país trabalham diuturnamente contra a moralidade administrativa, é oportuno repetir que esse sinistro clube tem a seu favor, e a favor da corrupção, a estrutura de uma máquina administrativa promíscua na sua essência. Essa máquina, atrelada ao cartorialismo e ao despudor que se hospedam na burocracia, não raro emperra as concorrências, autoriza superfaturamentos, inverte interesses, premia falcatruas e ensina como ensaboar dinheiro sujo de origem criminosa. Essa é a estrutura que precisa ser desmanchada, mas que assuma o papel do felino vigilante que espanta os ratos.

    A malversação não é de hoje. A única diferença no correr do tempo talvez esteja no fato de que os bandidos perderam certo acanhamento e a moderação que antes cercavam deslizes praticados contra o interesse público. É verdade: situações descaradas como as que temos visto com frequência nunca acabarão totalmente. Mas, pelo menos, que a corrupção perca seu caráter endêmico e contagioso, coisa só alcançável quando for desmontada a máquina nefasta e corruptora de que se servem os governos. E contando para isso com a solidariedade de Deus; até porque também Ele, graças a alguns padres e pastores desviados, deve se assustar com os casos de corrupção em seus próprios domínios. Deus conosco.


    Wilson Cid, jornalista

    Fonte: https://www.jb.com.br

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