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    Uma oposição sonolenta

    Nem a indignação e certa euforia provocadas pelas revelações dos crimes de Sérgio Moro, Dallagnol e outros setores da Lava Jato

    Omissão de Raquel Dodge é vergonhosa

    É estarrecedor o silêncio da Procuradora-Geral da República Raquel Dodge acerca do escândalo que atinge em cheio o coordenador da autodenominada força-tarefa da Lava Jato e vários procuradores e procuradoras.

    É inquestionável que estamos diante de um abrangente e corrosivo escândalo de corrupção no Ministério Público brasileiro, com respingos escabrosos sobre desembargadores, juízes e ministros das instâncias superiores do judiciário.

    No mínimo, trata-se de improbidade administrativa, desvio funcional, organização criminosa e aparelhamento do Estado para satisfazer interesses privados, políticos e de um projeto de poder coordenado desde os EUA.

    Tudo documentalmente provado e trazido ao público pelo Intercept com o apoio de outros órgãos de imprensa.

    Os/as procuradores/as responsáveis pelos graves desvios, ao invés de já estarem afastados e submetidos aos procedimentos da Lei e aos códigos legais e de ética da corporação, seguem, entretanto, nos respectivos cargos públicos, recebendo os mais altos salários do país, destruindo provas e obstruindo as investigações.

    Além do inacreditável silêncio diante deste escândalo que ultrapassa as fronteiras nacionais e espanta o mundo inteiro, a omissão da Raquel Dodge envergonha.

    A omissão da chefe da PGR só fortalece o corporativismo que protege os implicados – como no âmbito do Conselho Nacional do Ministério Público, que decidiu arquivar pedido de investigação do Deltan Dallagnol; e da Associação Nacional dos Procuradores da República, com seus comunicados que flertam com o delírio, tamanho nonsense.

    Com seu silêncio e sua omissão, Raquel Dodge descumpre seu dever funcional e, implicitamente, pode ser acusada de cumplicidade e conivência.

    Não há lugar para ilusões. Como o Estado de Direito foi estuprado e o Brasil está sob a vigência do regime de exceção, não surpreenderá se a própria Chefe do MP continuar prevaricando e descumprindo sua obrigação legal e funcional.

    Assim como já não surpreende a complacência dos órgãos judiciais de controle [CNJ, CNMP] e das instâncias superiores do judiciário.

    Essa inação, se não for revertida, não só manchará a gestão e a carreira da Raquel Dodge, mas afetará de modo indelével, e para pior, a imagem e a confiança no Ministério Público e da justiça.

    Integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial

    Fonte: https://www.brasil247.com

    A tragicomédia brasileira

    Não falta material para ridicularizar este governo: qualquer um pode diariamente encontrar a piada pronta do sr. Jair Bolsonaro.

    De Washington às bananeiras

    Nós, jornalistas que há décadas acompanhamos presidentes da República em incursões internacionais, somos testemunhas:

    Seu país voltou!

    “Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma série de reportagens que viria a ser premiada. Marcelo Canellas e Lucio Alves apresentavam a “Fome no Brasil”. O dado revelado era que uma criança morria de fome no Brasil a cada cinco minutos. Em pleno “milagre neoliberal”, como gostam de citar alguns intelectuais e políticos de direita no Brasil, uma criança morria a cada cinco minutos no Brasil. Vou repetir, porque penso que o número deveria ser usado em qualquer discussão sobre política e economia de agora em diante. Ao começar a ouvir qualquer argumento dos defensores desta hipocrisia de direita, pare e escreva “em 2001, aos sete anos do governo FHC, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil”. Repita ou escreva, não importa, mas sempre comece por esta informação. Em seguida, olhe a ginástica retórica que o interlocutor fará e avalie se ela se encontra no campo da ignorância ou da mácula moral insanável. Qualquer das duas opções, é uma conversa que não vale à pena.

    Não sei se já mencionei, mas em 2001, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil. O fato, chocante, inaceitável, inumano, é irrisório perto da pergunta de um pai, quando confrontado pelo jornalista se não havia como o seu filho “ganhar um pouco mais de peso”. Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, com a sabedoria de quem luta para sobreviver, respondem ao repórter “o que você acha que eu devia fazer?” Este diálogo reflete o Brasil do neoliberalismo. O repórter, obviamente não sabia sobre o que perguntava e não conseguia compreender o que via e ouvia. Provavelmente foi dilacerado a cada entrevista, eis que humano. O pai entrevistado, sequer com tempo de tirar a enxada das costas para falar, desfere a pergunta fatídica que separava os brasis de forma tão evidente. “O que você acha que eu deveria fazer?” para salvar a vida da minha filha que não tem o que comer ...

    Eu me recordo de assistir esta reportagem e chorar, copiosamente. Eu não choro com hino, bandeira ou camiseta verde amarela. Não choro por cântico religioso fervoroso. Não choro por ver alguém “atingir a meta” de malhar todo dia e perder peso. Não sou de reconhecer heróis em ações ordinárias e totalmente comuns. Eu chorei como criança vendo aquela série. O olhar de Evangelista para o repórter era a demonstração de que nada, absolutamente nada naquele país, poderia estar dando certo.

    O que não consigo entender é como Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, se tornaram “vagabundos que se aproveitam do Estado para não trabalhar”. Ou ainda como a fome de sua filha poderia ser um reflexo “da meritocracia” que levaria – em um livre mercado – a sociedade brasileira a ser produtiva e rica. Não entendo como Ana Cláudia e Evangelista se tornaram o “problema das contas públicas do Brasil”, tendo contra si os dedos da classe média (saciada) e da maioria dos que apertam botões no parlamento, e que hoje defendem o fim dos programas sociais, dos direitos do trabalho e a redução de vencimentos para os mais pobres.

    Apenas uma sociedade doente, ignorante e hipócrita pode acreditar que Ana Cláudia e Evangelista estão sofrendo assim por que não se esforçaram o suficiente. Apenas uma sociedade lunática, cínica e monstruosa pode se convencer de que eles sofrem desta forma por não terem fé suficiente ou por não terem depositado algum valor numa conta em nome de algum deus.

    E eu não falei ainda da sua bebê, que padece da fome.

    Certamente quando ela crescer, depois de ter lutado para sobreviver, vai saber evitar as mazelas da sociedade. Vai se esforçar numa escola pública de algum sertão poeirento e seco e vai concorrer “de igual para igual” com alguém que comeu na infância toda e que “não aceita privilégio” de quem quer que seja.

    Também não falei de você, que se “revoltou” com o conto das “pedaladas” e saiu a bater panelas vazias – de barriga cheia – querendo o “seu país de volta”. Pois a ONU informa que a fome voltou ao Brasil. O seu país, finalmente, voltou. E se você a ele reivindicar as cores verde e amarela, fique com elas. Não me farão falta as cores de um país em que uma criança morria a cada cinco minutos de fome. Um país hipócrita que não aceita vidraça quebrada, mas nunca se importou com as muitas Anas Cláudias e Evangelistas a enterrarem seus filhos em caixas de sapato, como “querubins sem pecado”, no único consolo possível.

    Que bom que as cores nos diferem. Você fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que dê guarida a um país sem fome. Quem nos olhar saberá de pronto que não me misturo com quem prefere o cassetete à cabeça do estudante, quem prefere o privilégio da gravata à comida da criança, quem tem força física para bater em panela, mas padece de inanição moral.

    Não sei se já falei, mas em 2001, aos sete anos do governo de FHC, uma criança morria a cada cinco minutos de fome, no Brasil.

    Este país voltou ...

    De fome ...”

    Jornalista e historiador

    Fonte: http://www.feserpmg.com.br

    Cinismo e ódio substituíram a fraternidade e alegria do brasileiro

    O cinismo, a hipocrisia e o ódio parecem que substituíram a alegria e a fraternidade que sempre foram a marca do Brasil, reconhecido mundialmente como o país do samba e do futebol e respeitado, até o golpe de 2016 que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, como uma grande nação. Deputados da base do governo afirmaram cinicamente na televisão que a liberação de mais de R$ 1 bilhão para emendas de parlamentares, às vésperas da votação da reforma da Previdência, foi apenas “uma coincidência”. No governo Temer o mesmo procedimento, para aprovação da reforma trabalhista, foi classificado como “compra de votos”. Na verdade, foi, de fato, uma escandalosa compra de votos, inclusive admitida pelo próprio ministro da Saúde, para garantir a aprovação da reforma pela Câmara dos Deputados, com o presidente Bolsonaro repetindo o mesmo toma-lá-dá-cá que, demagogicamente, condenou durante a campanha eleitoral. E esse deverá ser o mesmo procedimento para aprovação de outras matérias de interesse do governo que, infelizmente, não atendem aos interesses do povo.

    Lamentavelmente não se consegue perceber, na linha do horizonte, nenhum sinal de mudança nem a médio prazo, a não ser que um fato inesperado e extraordinário provoque um terremoto na situação política do país e faça o povo voltar a sorrir. As perspectivas não são nada animadoras, porque os três poderes parecem afinados na tarefa de acabar com a nossa soberania e transformar o Brasil numa republiqueta submissa aos Estados Unidos. O Supremo Tribunal Federal que, até há alguns anos, era o guardião da Constituição e a esperança de salvar o país da destruição pelos seus predadores encarapitados nos outros poderes, se tornou uma instituição política, influenciada por paixões partidárias e ideológicas. Seus integrantes, com raríssimas exceções, que antes mantinham um posicionamento discreto, hoje se transformaram em protagonistas do cenário político, com posições bem definidas. É o caso, por exemplo, do ministro Luiz Fux, que em recente evento defendeu publicamente a reforma da Previdência, a privatização das estatais e a abertura do mercado de gás. E mais. Arrancando aplausos entusiásticos da plateia, ele afirmou, em tom solene: “Quero garantir aos senhores que a Lava-Jato vai continuar”. E acrescentou: “Essas palavras não são apenas de um brasileiro que ama o Brasil, mas de alguém que ano que vem vai assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal”.

    Mais do que uma promessa, a afirmação do ministro soou como uma ameaça, pois deixou claro que como presidente da Suprema Corte vai dar prosseguimento ao processo destrutivo da nossa soberania e do nosso país, com a evidente negativa para toda e qualquer ação que pretenda estancar o processo deletério. E ainda disse que tinha “vocação de amor ao país”. Só se for amor bandido, pois quem de fato ama o Brasil jamais aprovaria as privatizações, que destroem a nossa soberania, e muito menos a reforma da Previdência. Ele também, durante o discurso no evento, defendeu a reforma trabalhista e a reforma tributária, parecendo mais um político no palanque do que um magistrado. Esqueceu, porém, de defender uma reforma do Judiciário que produza alterações no processo de escolha dos ministros dos tribunais superiores e extinga a vitaliciedade, estabelecendo mandato. Se os integrantes do Executivo e do Legislativo, eleitos pelo povo – de onde emana todo o poder – tem mandato, por que os que são nomeados não podem ter? Um mandato para os ministros do Supremo não apenas permitiria um rodizio na sua composição como, também, impediria que alguns se considerassem semi-deuses, donos da vida e da morte, interpretando as leis ao sabor dos seus interesses político-partidários.

    O ministro Fux, aliás, que o The Intercept revelou ser um homem de confiança do pessoal da Lava-Jato, conforme o então juiz Sergio Moro (in Fux we trust), ficou numa situação muito delicada depois que aquele site divulgou o áudio de Deltan Dallagnol, no qual o procurador informa a seus colegas da força-tarefa que o ministro da Suprema Corte revelou para ele, antes de divulgar oficialmente, ter cassado a liminar do seu colega Ricardo Lewandowski que autorizava Lula a dar entrevista ao jornalista Florestan Fernandes, o que foi comemorado como uma vitória da operação. A revelação deixou evidente que Fux mantem estreita ligação com a Lava-Jato, a quem se colocou à disposição para o que fosse necessário, conforme o próprio Dallagnol, o que significa que ele teria participado ativamente da trama da força-tarefa. Diante disso, com que isenção ele poderá participar de qualquer julgamento relacionado a decisões da Lava-Jato, especialmente nas questões ligadas ao ex-presidente Lula? Depois de tudo o que foi divulgado até agora pelo The Intercept é óbvio que o ministro Fux não terá condições de julgar nada, pois seu voto sempre será encarado com desconfiança.

    No evento em que foi bastante aplaudido, por conta da fala afinada com o governo Bolsonaro, Fux também abordou o combate à corrupção, na mesma linha dos discursos de Moro, como se eles fossem os únicos brasileiros favoráveis a essa luta. Ora, todo mundo sabe que foi no governo de Lula que se intensificou o combate à corrupção neste país, mas sem a mesma cobertura da mídia, até porque foi o presidente petista que criou mecanismos para esse combate, inclusive investindo na modernização e ampliação da Policia Federal. Não deixa de ser curioso o ministro se apresentar como um dos baluartes da luta contra a corrupção, já que foi precisamente ele quem autorizou, mediante liminar, o pagamento do auxílio-moradia para magistrados que possuem casa própria. Como classificar essa decisão? Generosidade com o dinheiro público? A verdade é que o ministro Fux ficou sem condições de participar de qualquer julgamento em que o ex-presidente seja réu, pois é evidente que não terá isenção para julgá-lo. Ele está na mesma situação do desembargador Thompson Flores, do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, que deixou a presidência daquela corte e irá ocupar uma cadeira na turma que julgará o processo em que Lula é acusado de ser o proprietário do sitio de Atibaia. Flores, que já negou a sua suspeição levantada pela defesa do ex-presidente, não apenas já havia se manifestado encantado com a sentença de Moro que condenou o líder petista no caso do triplex, considerando-a “irretocável” como, também, manobrou para impedir a libertação de Lula determinada pelo desembargador Favreto.

    O fato é que com Fux na presidência do Supremo não deverá haver diferença da sua gestão para a atual, de Dias Toffoli, que até já propôs um pacto político aos outros poderes, uma atitude condenada por juristas e ex-presidentes da Corte. E o Brasil seguirá caminhando para o abismo, já que parece não haver esperanças também no Congresso, cuja maioria continua votando contra o povo que legalmente representa, como, por exemplo, o fim da estabilidade dos servidores públicos, que criará um clima de insegurança para os funcionários. Depois da aprovação da reforma trabalhista, que aumentou o desemprego no país, e da reforma da Previdência, que vai deixar o povo morrer de trabalhar sem conseguir aposentar-se, o eleitor vai ter de repensar seu voto do último pleito, que levou para o Legislativo parlamentares mais comprometidos com suas corporações do que com a população. Na verdade, após o desastroso comportamento do eleitorado no último pleito, elegendo figuras bizarras aparentemente descomprometidas com os interesses da Nação, hoje os partidos praticamente inexistem no Congresso, onde as bancadas estão definidas como evangélica, constituída por pastores e outros membros das igrejas evangélicas; da bala, formada por policiais; ruralista, integrada por fazendeiros; etc. Talvez por isso deputados do PDT e do PSB votaram a favor da reforma, contrariando decisão do comando dos partidos. No futuro poderão chorar, como o deputado Rodrigo Maia, que derramou lágrimas não de júbilo, mas de remorso, após proclamar o resultado da votação.

    Jornalista e escritor

    Fonte: https://www.brasil247.com

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