Amedrontados e acuados, generais agredidos preferem virar as páginas

Foto: Reprodução

Ribamar Fonseca

O governo Bolsonaro está escrevendo um livro que deixará muito mal as Forças Armadas na História do Brasil. Todas as vezes em que os generais que integram o governo, inclusive o próprio vice-presidente da República, são agredidos pelo astrólogo Olavo de Carvalho e pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro, a ordem é: “Vamos virar essa página”. E de página em página vão escrevendo uma história de humilhações dos generais que, valentes quando se referem a Lula encarcerado em Curitiba, ficam amedrontados diante do capitão-presidente. O general Villas-Boas, que chegou a esboçar uma tímida reação, não parece o mesmo homem que, não faz muito tempo, colocou tanques diante da sede do STF para impedir a libertação do ex-presidente. Os mesmos militares que falavam grosso quando o assunto era Lula e o PT, hoje falam fino até para se defender das agressões gratuitas endossadas pelo capitão que, ao invés de segurar a língua do seu guru e dos seus filhos, preferiu fazer elogios ao astrólogo apelidado de sociólogo.

Afinal – essa é a pergunta que muitos se fazem – por que o capitão decidiu, usando os filhos e o guru, atacar os generais do seu próprio governo? Para deixar bem claro que é ele quem manda? Ou para enfraquecê-los, como preparação para a execução de um velho projeto americano, de transformar as nossas Forças Armadas em milícias? Até um corte no orçamento militar ele já anunciou. Aparentemente, considerando que os militares nacionalistas desapareceram, Bolsonaro pretenderia liquidar de vez a nossa soberania sem correr riscos, facilitando o processo entreguista que já transferiu para o império do Norte, entre outras coisas, a Embraer e parte do pré-sal, ao mesmo tempo em que se empenha para entregar a base espacial de Alcântara e parte da Amazônia. Acuados e intimidados, dificilmente algum general se rebelará contra esse entreguismo explícito. Não deixa de ser surpreendente o comportamento dos generais, inclusive do vice-presidente, que se mostram temerosos, escolhendo as palavras com cuidado, quando instados por algum repórter, para evitarem atingir o capitão. E sempre encerram a entrevista insistindo em virar a página.

Os militares, na verdade, parecem parados no tempo, mais preocupados com o fantasma do velho comunismo, que não mete mais medo a ninguém, quando a ameaça hoje é outra: além do próprio capitão, que parece deslumbrado com o poder e, obcecado por armas, transforma o país num campo de guerra, o perigo estaria hoje representado também pelo “olavismo”. Lá dos Estados Unidos, onde mora, Olavo de Carvalho exerce o poder no Brasil, faz a cabeça de Bolsonaro e dos filhos, nomeia ministros e dita os passos do governo, além de disparar sua metralhadora verbal contra todos os que ousam contrariá-lo. Com uma linguagem chula, que desmente sua pretensa condição de intelectual, ele agride todo mundo, especialmente generais, o que o capitão-presidente considera “liberdade de expressão”. Ninguém sabe, no entanto, até quando os generais vão continuar levando pancada e agarrados aos cargos, como mulher de malandro, que apanha mas não larga o marido. Nesse ritmo vão se desmoralizar e pagar a conta dos erros do capitão, que parece estar brincando de presidente.

Outro que vai muito mal no governo, sem muita perspectiva de futuro, é o ex-juiz Sergio Moro. Além de perder a queda de braço sobre o COAF, que sairá da sua órbita e voltará para a Economia, em quatro meses à frente do Ministério da Justiça Moro não fez absolutamente nada, a não ser um projeto anti-crime que está com seus dias contados no Congresso porque acaba com a presunção de inocência e legaliza a licença para matar. Sem autonomia para nomear auxiliares e sendo esvaziado no governo o até pouco tempo todo poderoso juiz Sergio Moro virou alma penada no Planalto, mas apesar das ameaças, não pedirá demissão, porque não tem para onde ir, a não ser que seus amigos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos o convidem para trabalhar lá. E com isso também se esfumou o sonho de ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. Sua melancólica gestão no Ministério da Justiça também frustrou o sonho do seu velho amigo e parceiro na condenação de Lula, o desembargador Gebran Neto, do TRF-4, que igualmente já fazia planos para chegar à Suprema Corte. O STJ, ao reduzir a pena de Lula, esfregou na cara de Gebran o aumento passional da condenação do ex-presidente, o que certamente abalou o seu sonho de ser ministro do STF.

O fato é que o capitão, que tirou a escada e deixou Moro segurando o pincel, não acabou apenas o sonho do ex-juiz. Ele vem fazendo tanta bobagem no governo, destruindo os sonhos até dos brasileiros que votaram nele, que nem os parlamentares do seu partido estão conseguindo suportá-lo. Daí as freqüentes derrotas no Congresso, prenunciando o fracasso da sua tentativa de empurrar goela abaixo do povo a sua draconiana reforma da Previdência. E, a julgar pelo andar da carruagem, tudo indica que o seu governo terá vida curta, pois a insatisfação cresce nos meios militares, que lhe dão sustentação, e no Parlamento seu impeachment está sendo segurado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que engavetou os pedidos. A população já começa a sair às ruas, inclusive os seus envergonhados eleitores, agora conscientes das suas responsabilidades na situação em que o “mito” lançou o país. Todos os que votaram nele já sabem que são co-responsáveis pelo desastre chamado Jair Bolsonaro.

Jornalista e escritor

Fonte: https://www.brasil247.com

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