A volta dos hippies

Fernando Sabino

São namorados. Companheiros, como preferem dizer. Ele tem 22 anos e veio do Ceará. Família tradicional no Nordeste, pai proprietário rural, cinco irmãos. Ela tem 21 anos, do Rio mesmo, pais desquitados, três irmãos, morando todos com a mãe. Dois anos atrás, cada um por si, resolveram largar tudo e se mandar. Ele trabalhava numa agência de publicidade, ordenado razoável, mas não tinha jeito para a coisa. Ela estudava Comunicação, achava o ensino péssimo, os professores incapazes: ficar quatro anos na escola por um diploma? Bem, não era propriamente isso o que ela queria da vida. Então o que você queria? Sei lá, diz ela: viver. E ele também: eu queria curtir a vida, saca? Resolveram trocar uma situação segura por um salto no escuro. E ganharam o mundo.

A fase de contestação política tinha sido rápida: manifestos, passeatas, comícios, tudo isso de súbito também já era. Preferiram ficar na deles. A princípio a gente só estava a fim de curtir um som, entende? Respondem sempre assim, um falando em nome de ambos, nunca na primeira do singular, mas numa forma vagamente coletiva que dá a impressão de estarem falando em nome de uma comunidade a que pertencem chamada gente. Pois a gente passava o dia inteiro tirando um som, era legal; sempre tinha um que curtia um violão, uma flauta doce… E os discos: Areta Franklin, Jane Joplin, Jimmy Hendrix, o pessoal todo da pesada, Pink Floyd. Como ouvir música sem puxar um fumo? Foi a fase em que todo aquele que não fumava maconha era careta. Ou, pior ainda, se, como eu, preferia um uísque: biriteiro.

Desprezo? Sem esta, bicho: a gente não despreza ninguém, pelo contrário: o barato é justamente estar ligado, saca? a gente se sentindo bem com todo mundo, sem grilo, cada um na sua. Tão legal que até fica sendo pouco e alguns vão mais longe, muito pirados: bolinha, ácido, cheiro, pico.

Viagem sem volta: dependência, tráfico, chantagem, prostituição, loucura, morte.

Eles dois não foram’ apanhados na escalada infernal. Tiravam um sarro de vez em quando, mas sem aquela da dimensão mística, de fundo religioso ou coisa parecida. Para eles, “toda experiência, mesmo negativa, é sempre positiva”. Então saíram por aí: Parati, Búzios, carnaval na Bahia. Ela já de vestido longo e cabeleira frisada à moda de Gal ou Bethânia; ele de túnica branca, calças boca-de-sino, cabelos pelos ombros. Não sabiam o que queriam: justamente para ficar sabendo é que saíram de casa.

Pois agora os hippies estão voltando. Estes dois, pelo menos, estão de tornaviagem: passaram pela fase da vida primitiva em meio a pescadores; pela defesa da natureza contra a poluição do mundo civilizado, a fase ecológica; pela macrobiótica, a meditação transcendental, Herman Hesse, filosofias orientais, zen-budismo. Estão de volta, e, coisa espantosa: pensando em se casar.

Acreditam que o casamento até que tem lá a sua graça, principalmente para alguém como eles: pretendem montar casa, morar juntos e, quem sabe? até mesmo ter filho. Casando direitinho a família ajuda. Estão dispostos a trabalhar, se for preciso: trabalho humilde, não precisarão de muito para viver felizes: artesanato, para vender na Praça General Osório. Já sabem o que querem: fazer alguma coisa de útil e viver em paz.

Sem perceber, eles correm o risco de acabar descobrindo que hoje em dia o legal é ser legal.

Escritor, jornalista e editor brasileiro

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