A jiboia

Por Antônio Macedo (*)

O amanhecer de verão nas selvas era sempre precedido de uma bruma intensa. A vegetação viva e orvalhada recebia seus habitantes com um frescor característico dessas épocas amazônicas. Alguns já estavam na lida quando a barra do dia desfraldava o horizonte e corajosamente, recolhiam o leite para o frugal desjejum com a família.

A meninada pulava da cama bem cedo, imaginando mil e uma peripécias para o novo dia. Fariam arapucas? Dariam um novo trato na fazendinha primorosamente montada no dia anterior? Andariam de pé de bode, marcando as trilhas com pegadas esquisitas? As opções eram muitas. Mas, Domício, o primo mais velho, teve uma ideia:

– Hoje vamos brincar de marcha soldado! O campo está limpo e nós podemos sair na rodagem na altura do antigo portão. Tenzé achou a ideia muito boa. A rodagem estava seca, não chovia há dias.

– Êba! Êba! Repetiam Durviges, Edinho, Diógenes e Tião, maravilhados com a ideia.

– Domício será o capitão, disse Maria! O pelotão estava formado. Todos em fila indiana comandados pelo capitão Domício.

– Atenção! Pelotão! Marche!

Todos saíram cantando: “marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel”. O pequeno pelotão seguia animado sob o “comando” do Domício. Atravessaram o campo e com uma ordem do comandante, margearam para a esquerda em direção ao colchete de arame que dava acesso à “rodagem”…

– Pelotão, alto!

– Soldado Diógenes, abrir a cancela!

– Pelotão marche!

“Marcha soldado cabeça de papel”… Histórias bem vividas!

O pelotão continuou marchando pela estrada, agora seca e poeirenta, reclamando dias sem chuva. Tenzé ia à frente, marchando sob a cadência do “marcha soldado” quando, de repente… Uma jiboia enorme surgiu à sua frente. O “soldado” Tenzé parou imediatamente, congelado, petrificado pelo terror. Olhos esbugalhados, rosto pálido, branco como “murim”, jogou a vareta que fazia, às vezes de rifle ao longe, e:

– Mãeiêêê!! Olha a cobra! Mãeiêê! Olha a cobra!!

– É um monstro! Gigante! Mãiêê! Salve-se quem puder…

Enquanto Tenzé ferozmente, boca escancarada, desengatava do susto e aos berros pedia ajuda da mãe em desabalada carreira, o restante do “pelotão”, incluindo o capitão Domício, se espalharam para todos os lados e em segundos havia recruta cruzando o arame farpado e invadindo o campo de onde viera em direção à cabana de morada.

Do grupo, somente o Tião não correu. Era deficiente – tinha os dois pés embolados – e foi carregado pela prima Maria e aos berros pediam ajuda de tudo que era santo.

– Mãiêê!! Tiiiá!! Olha a cobra! Olha a cobra!

– Tiiiá! É um monstro! Chama o Tii Nilo! Socorro!

A temível jiboia – que nem era lá esse monstro todo – foi procurada por horas, mas já havia seguido seu destino, rumo à densa floresta do seringal Nova Empresa.

Assim, o pelotão de aguerridos soldados, se desfez diante de terrível e monstruosa jiboia. Melhor brincar de fazendinha ou marcar o terreiro da morada com o pé de bode.

(*) Antônio Macedo – Ex-morador do seringal Nova Empresa, descendente de nordestinos, atualmente completa o time dos servidores da Rádio Difusora Acreana, a Voz das Selvas, desde 2004.

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