A “ditadura da urgência” e a espera em Deus

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Padre Manoel Costa*

Os avanços tecnológicos aceleraram o ritmo de nossas vidas. Aceleração dos modos de vida, das mudanças sociais, das relações de trabalho e familiares. Cotidianamente, vivemos com o sentimento de uma jornada sobrecarregada onde se corre para efetuar aquilo que ao deitar restará a fazer. “É necessário alongar os dias”! Tornou-se frase comum. Temos “fome de tempo”! “Como o tempo passa rápido!” – alarmamo-nos. Nessa realidade, deparamo-nos com um aparente paradoxo: Como harmonizar a aceleração do ritmo de vida com a paciência necessária para o equilíbrio pessoal e humano? Apontaremos dois elementos de resposta a partir da fé cristã: a paciência como um ato de fé; e a espera como meio de construção de nosso caráter.

A paciência é um ato de fé. A Sagrada Escritura é atravessada pelo tempo da espera. Na Carta de São Tiago encontramos a seguinte passagem: “Irmãos, sejam pacientes até a vinda do Senhor. Reparem o agricultor, como espera com paciência até receber as primeiras chuvas e as tardias, com a esperança do valioso fruto da terra” (Tg 5, 7-8).

Somos convidados a paciência e a esperar “a vinda do Senhor”. Essa vinda é a escatológica – o Senhor virá no final dos tempos; mas é também a vinda do Senhor para nos auxiliar, fortalecer, sustentar e abençoar ao longo de nossa vida.

Justamente neste ponto é onde surge um dilema: Por um lado, estamos geralmente apressados quanto ao atendimento de nossas necessidades; por outro lado, temos a sensação de que Deus não é tão apressado como nós. “Meu pensamento não é o pensamento de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos (…) e meu pensamento está acima dos pensamentos de vocês” (Is 55, 8. 9).

Vemos que o tempo de Deus é diferente nosso do tempo que é cronológico. O tempo de Deus não é caracterizado pela sucessão de horas e de dias. O tempo de Deus é seu agir. Mas se Deus age sempre, por que temos que esperar?

Parece que passamos mais tempo da nossa vida a esperar que a receber. Mas não o passamos na ociosidade. Vejamos o exemplo de uma mãe: a mãe precisa esperar nove meses até ter seu bebê nos braços. Sua espera é ativa, com foco, é sobretudo, preparação. Antes desse tempo, a vida da criança requer cuidados especiais. Uma gravidez não poderia ser de dez meses ou de cinco meses? Poderia. Mas não é! “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom.” (Gn 1, 31).

A espera é pedagógica.

Esperar em Deus não é ato de passividade. É movimento. Requer foco, intensidade, concentração no objeto da esperança. A travessia do Mar Vermelho pelos filhos dos hebreus no caminho para a liberdade é um grande exemplo. Ao ver-se na situação limite de não poder avançar devido ao mar, os filhos de Israel tinha três alternativas: podiam sentar e esperar a destruição pelo exercito do Faraó; podiam retornar ao encontro dos egípcios pedindo a escravidão como punição ou lhes restava avançar, confiando na promessa de libertação feita por Deus, por intermédio de Moisés. O livro do Êxodo descreve a foto assim: “Os filhos de Israel viram os egípcios avançarem em perseguição (… ). Disseram a Moisés: Será que não havia sepultura no Egito? (…) O que é melhor para nós : ser escravos dos egípcios ou morrer no deserto? (…) Javé disse a Moisés: “Por que você está clamando por mim? Fale aos filhos de Israel que levantem acampamento” (Ex 14, 11-15). Em outras palavras, diga ao povo se ponha em movimento. Caminhe! … e não desista! “Espere em Deus, seja forte! Em seu coração tenha confiança, e espere em Deus”! (Sl 27, 14).

Este salmo é uma oração de confiança. Na primeira parte, transparece o lado luminoso da fé: o sentimento da proximidade de Deus que irradia a vida e fortalece para enfrentar as dificuldade na vida. Na segunda parte, aparece o lado escuro da fé: Pede-se a coragem para os momentos difíceis.

Existe um ditado bem difundido, atribuído a Inácio de Loyola, que diz: Aja como se tudo dependesse de você, sabendo bem que na realidade, tudo depende de Deus.

Esperar em Deus é um ato de fé. A fé tem duas dimensões: Reconhecimento e entrega confiante. Reconhecimento de que somos sustentados pelo amor de Deus, mesmo que suas promessas demorem a se cumprir. Entrega confiante como atitude paciente no objetivo de aprender a vontade do Senhor e o que Ele quer nos mostrar a fim de orientar nosso agir. Esperar constrói nosso caráter.

“Eu espero em Deus, minha vida espera, aguarda pela sua palavra” (Sl 130, 5)

*Padre Manoel J. M. Costa é Reitor da Catedral Nossa Senhora de Nazaré

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