Viver e produzir na floresta, o sonho de Chico Mendes e seus companheiros

*Arison Jardim

Passaram-se 30 anos da morte de um dos símbolos da cultura acreana. Em 1988, o seringueiro Chico Mendes foi assassinado por lutar junto de companheiros e familiares pelo sonho de viver bem na floresta acreana. Passados quase 20 anos da gestão da Frente Popular no governo do Estado, o Acre está mostrando que o caminho traçado pelo líder seringueiro é a porta de um futuro sustentável e digno para as sociedades amazônicas.

Sua história é a própria imagem da construção social do Acre, com a chegada traumática de brasileiros às florestas amazônicas, conflitos com os povos originários e luta de uma gente pela vida, pela terra e pela formação de um território com identidade própria. Uma das mensagens de Chico era a união dos povos, mostrando que nordestinos e índios eram vítimas da mesma força do capital, dos mesmos patrões e a inexistência de um governo que lhes desse atenção.

“Por mais de 100 anos, o seringueiro nunca teve o direito de ir a uma escola. O nosso ABC, com nove anos de idade, era pegar numa lâmina e aprender a cortar a seringueira para ajudar nossos pais e a produção de borracha do patrão”, afirmava o sindicalista. A partir de uma de suas últimas palestras, proferida em 1988 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), é possível ter um retrato de sua luta naquele momento, que já vinha sendo traçada há anos.

Ao ganhar o prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU), Papel de Honra Global 500, entre 1987 e 1988, Chico mostrou para o mundo o conflito que ocorria no Acre até aquele momento, com a expulsão de milhares de seringueiros de suas terras, de suas casas onde viviam há mais de 50 anos, por vezes. Até aquele momento, o sindicalista Wilson Pinheiro já havia sido assassinado em Brasileia, também por estar à frente da luta dos trabalhadores rurais.

Chico seria o próximo a ter o sangue derramado, mas em sua fala o medo não tinha vez, apenas a esperança de que seus ideais dessem uma vitória para os moradores da floresta. “Nós não tememos a morte, porque se matam um de nós, temos cem, duzentas, trezentas lideranças para tocar o trabalho para a frente. Hoje tem milhares de Chico Mendes e outros companheiros”, afirmou.

O viver na mata

O objetivo em suas falas, em sua mensagem ao mundo era que cada um que ouvisse sensibilizasse outras pessoas “nesta grande causa que nós defendemos. Pois a Amazônia é uma questão que interessa a todo segmento da sociedade brasileira”. Ao pontuar, de forma objetiva, a visão de sua gente para a vivência nas matas, Chico Mendes explicava o conceito de criação das Reservas Extrativistas, modelo de gestão territorial criado naquela época por diversos companheiros da sociedade que conheceram a luta dos seringueiros.

“Nós não queremos transformar a Amazônia em um santuário, o que não queremos é ela devastada. Por isso, além da luta pela defesa da floresta, começamos a apresentar uma proposta alternativa para conservação da Amazônia”, dizia. A antropóloga Mary Allegretti, que teve papel importante de apoio aos seringueiros, explica que este grupo específico de moradores das florestas “formularam uma política específica de reforma agrária e proteção ambiental, as Reservas Extrativistas, depois de mais de dez anos de confrontos em torno da terra e dos recursos naturais”.

Para ela, “Chico teve a percepção que a floresta tinha um valor que nem o estado, nem a academia prestava atenção. O seu legado é que essas ideias viraram políticas públicas”. O tamanho da batalha enfrentada pelos seringueiros entre as décadas de 1970 e 1980, pode ser mensurada pelos números que o líder citou em sua palestra: mais de 10 mil famílias que estavam vivendo em 60 mil hectares foram afetadas. Na região do Alto Acre, mais de 180 mil árvores de seringueiras e 80 mil castanheiras foram destruídas pelo fogo e desmatamento.

Isso foi um trauma econômico e social que reverbera no estado até os tempos atuais, atingiu uma tradição e identidade que vinha sendo construída há cerca de 100 anos. Seguir com políticas públicas voltadas para esta parte da sociedade acreana é essencial para que haja um desenvolvimento sustentável com bases fortes.

Hoje, cerca de 50 mil famílias vivem a tradição da agricultura familiar ou do extrativismo no Acre. Nos últimos 20 anos, o governo do Estado tem estabelecido uma rotina de políticas públicas para o fomento da produção sustentável e inclusão social na zona rural.

Nesta semana, uma destas iniciativas foi reconhecida ao receber o Prêmio ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável] Brasil, o Programa Estadual de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal com Benefícios Socioambientais (Redd+). O projeto fortalece produções sustentáveis no estado, dando oportunidade para agricultores familiares, indígenas e extrativistas ampliarem suas atividades com investimentos.

Mary Alegretti aponta a importância desta visão: “Há um desafio na sustentabilidade e desenvolvimento na Amazônia. Sem políticas que equacionem os valores de serviços ecossistêmicos e biodiversidade, não vai ser possível manter esse papel que a Amazônia desempenha na proteção climática do planeta.”

A partir de hoje, 15, até o dia 22 de dezembro é realizada a Semana Chico Mendes, em Xapuri, sua cidade natal. Será um momento de celebrar a história de todo um povo liderado por um trabalhador, que deu sua vida pelo sonho de que a sociedade entenda o desejo de quem quer viver na floresta.

Seu ideal continua atual e necessário. Existem forças, nacionais e internacionais, que ainda insistem na ocupação da terra por meio da violência e da destruição da rica biodiversidade florestal, desconsiderando séculos de conhecimento de comunidades tradicionais dentro da Amazônia.

“Sou seringueiro, tenho uma ligação direta com a floresta. É preciso que todos os brasileiros se deem as mãos para defender esta causa tão importante de defesa da Amazônia”, conclamava Francisco Alves Mendes Filho, nascido em 15 de dezembro de 1944, assassinado uma semana após seu aniversário em 1988.

Agência de Notícias do Acre