Você: um sonho da sua mãe

Foto: Cedida

Naqueles dias acordei estranho. Isso é tudo verdade. Consigo lembrar de que antes daquele episódio eu era normal. Normal assim, dentro dos padrões aceitáveis de normalidade que a gente conhecia. Achava-me anormal no sentido, por exemplo, de ter acordado verdadeiro, de não ficar calado, de dizer o que pensava sobre as coisas e especialmente sobre as pessoas, assim na frente delas, sem arrodeios e sem mentiras. Isso foi ruim porque no mundo, no qual eu vivia naquela época, esse mal de viver de aparências não afetava apenas as pessoas simples, como eu era, mas as pessoas de grande porte, como as autoridades e pessoas influentes que eu conhecia.

Nesse tempo vi como as pessoas são falsas e algumas até preferem que tenha alguém sempre enchendo a bola delas ou como se diz: “puxando o saco” delas. Era tanta hipocrisia e eu não conseguia ficar calado, fingindo que tudo aquilo era normal. Quando eu era “normal” não me lembro de agir assim dessa forma. Eu tinha um filtro na cabeça, programado para ignorar esses absurdos, mas parece que após aquele episódio eu me tornei mais intolerante em relação a isso. Devo ter perdido o filtro, quando bati forte a cabeça, no impacto do acidente.

Aquele meu filtro era muito valioso, aliás, como é bom não reagir diante dos absurdos que as pessoas falavam e até faziam aberrações, em nome do que se chama o social, o que dizem ser o melhor para todos, mesmo que alguns passem a viver humilhados pelos cantos, revirando olhos e sujando as calças de medo daqueles que se acham insubstituíveis. Eu fui “curado”. Felizmente encontrei o Dr. Enzo que me ajudou a consertar aquele meu filtro despedaçado e que tinha ficado lá no fundo da ribanceira. Hoje sou “normal” de novamente, ou, como posso dizer: voltei a ser igual aos outros. Como hoje você é uma autoridade, talvez seja interessante saber dessas coisas, essas experiências que atravessei na minha vida pós-trauma, isso naquele ano, quando você era apenas um sonho da sua mãe. Isso. Apenas um sonho da sua mãe.

Perdoe-me princesa, mas já que você é adulta, é uma autoridade e é minha filha, fico tranquilo em revelar que essa é a verdade. Quando conheci sua mãe, eu já tinha seus dois irmãos mais velhos: Júlio e Eduardo. Eles foram frutos de uma série de equívocos que tinha cometido na vida, mas claro que depois que os assumi tudo pareceu mais interessante. Nesse tempo, a sua mãe, menina nova, sonhadora, como vocês mulheres são na infância e adolescência, desejava ser mãe, preferencialmente de menina. Daí eu dizer que tudo foi coisa de Deus. Sinceramente, eu naquele estágio da vida não tinha mais esperança. Estava no fundo do poço e não conseguia ver luz no fim do túnel.

Eu era um solteirão de 29 anos com dois filhos de 7 e de 8 anos, com o agravante de ser de mulheres diferentes e não ter emprego fixo, pois tinha pedido demissão do Conselho e estava no emprego temporário no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, unidade local. Quem iria me querer como esposo numa situação daquelas? Sempre tive o maior medo de você se apaixonar, amar e querer um homem assim. Graças a Deus você casou-se com o gringo Arnold e à época vocês eram livres e desimpedidos e não tinham rabinhos para arrastar pelos cantos, como eu tive naquele tempo. Tinha muito medo dessa história se repetir com você e com seus irmãos.

O Deus do impossível, no qual eu e sua mãe cremos, é mais poderoso e eu sempre contava para Ele sobre essa minha aflição, mas antes agradecia por esta graça, este favor que eu não merecia e que mesmo assim recebi. Como disse: você era um sonho da sua mãe. Não era um sonho meu porque eu não queria mais ser pai de ninguém. Eu já vivia exausto e satisfeito com meus dois pré-adolescentes.

Mas como eu aprendi a amar a sua mãe e — passei a amar mais depois do casamento — decidi realizar o maior número de sonhos dela e um dos principais era ser mãe e como disse, de menina.

Ela sempre foi uma lady, uma dama da mais alta classe. Sempre me fez muito bem e naqueles primeiros dias de casado não conseguia pensar em outra coisa que não fosse fazê-la feliz. Decidi então que iria honrá-la como Cristo honrou até hoje a sua igreja. Claro que até hoje não consegui ser perfeito nesse ofício como Cristo tem sido no seu, mas tenho certeza que fiz tudo o que estava ao meu alcance e o resultado você vê aí, sua mãe linda e feliz com 77 anos de vida e cheia de graça.

Logo nos primeiros anos de casados ela engravidou do Dr. Janjão e nove meses antes daquele meu acidente mortal, que eu sobrevivi por um milagre do Deus do impossível, ele nasceu e foi uma alegria a mais para as nossas vidas. Já com ele eu aprendi a ser um pai melhor para um filho. Eu não fui bom pai para os seus dois primeiros irmãos. Eu não queria que as coisas tivessem acontecido comigo como se passou, especialmente em relação a eles e só aprendi a amá-los com a convivência mesmo.

Depois que o Dr. Janjão já estava com dois anos ela engravidou novamente. Lembro-me da expectativa dela. Meu Deus! Você não imagina como ela desejava ter uma menina, mas para a nossa surpresa, quando fizemos a primeira ultrassonografia o médico olhou-nos e disse com um largo sorriso: – Parabéns! Vocês serão pais de um lindo garotinho.

Sua mãe ficou tão sem palavras e sem chão com essa notícia que o médico ali mesmo receitou um calmante natural para ela. Eu também não fiquei nada satisfeito. Mas depois que o Carlos nasceu foi só alegria e o sonho de Amanda permaneceu inabalável. Essa história se repetiu dois anos mais tarde com o Jessé que veio, como os demais, cheio de saúde. Nós aprendemos a amar e a ter cinco filhos em casa e nenhuma filha. Foi um longo e diferente aprendizado. Foi depois desses episódios, em que sofri com ela, que passei a amá-la mais e a sonhar o sonho dela de ter uma filha. Claro que isso levou um tempo.

Quando ela engravidou pela quarta vez, eu já vivia observando a sua elegância dos seus 38 anos. Cada ano que passava sua mãe ficava mais admirável e a beleza dela fluía do seu jeito simples e elegante de ser. Eu observava a felicidade dela cuidando dos meninos, desde o Janjão, passando pelo Carlos até o Jessé. O meu amor por ela somente crescia. Eu me apaixonava mais e mais quando ela demonstrava o seu amor pelos meus dois outros filhos já rapazes: Júlio e Eduardo.

Antes do exame de ultrassonografia, confesso que eu estava mais tenso que ela, eu já estava me culpando, afinal eu só tinha filhos homens e não podia ser culpa dela, porque quando nos casamos eu já tinha dois garotos. Naquela noite, sinceramente não dormi. Vi o escurecer e o clarear. Como as horas demoram a passar! Precisei de um banho gelado e um café quentinho pela manhã. Sempre fui com ela nesses exames, mas esse parecia ser o primeiro, era o quarto, mas parecia ser o primeiro.

Naquela hora de saber o sexo do nosso bebê, o médico já tinha falado que tudo estava bem e eu esperando, esperando… até que ele disse:

— Mãe seu bebê não está em uma posição que seja possível ver claramente o sexo.

Foi visível a minha frustração porque a posição que você estava naquela hora do exame, ficou difícil visualizar justo aquela parte essencial que o médico precisava para nos entregar a boa notícia. Naqueles dias, usando esse tipo de exame, somente a partir do segundo trimestre, era possível ver com mais segurança as diferenças dos órgãos sexuais dos bebês. Imagine a agonia do papai?

Quando saímos do consultório médico, tomei a iniciativa de arrumar um dinheiro para fazer o exame de sexagem fetal. Uma pequena fortuna. Amanda sempre quis fazer esse exame em todos os seus quatro períodos de gravidez, mas eu, nos três primeiros, convenci-a de que seria melhor esperar. Dessa vez eu fiz questão para que ela fizesse, tamanha era a minha ansiedade. Ela fez e naquela euforia esperamos mais um pouquinho e o resultado simplesmente apontou que no sangue de Amanda naquele período não havia a presença de células com cromossomo Y (masculino). Logo, era você!