Um tropeço, para entender depois do outro

José Augusto Fontes* – Certo dia um menino resolveu se aventurar e tropeçou. Não havia uma pedra no meio do caminho, havia uma ponte improvisada, uma espécie de passarela, com uma árvore de uma extremidade a outra de um buraco, em uma mata de arbustos e capoeiras, no centro de uma aldeia. Do buraco brotava água fria, mas a aventura foi quente. Era uma pequena cidade, com poucas ruas, umas três ou quatro avenidas, alguns bairros, gente simples e um belo rio no meio. Esse rio era grande e frondoso. Quando enchia, nos alagava de alegrias e de sonhos, grandes embarcações ainda o navegavam, pequenas canoas o atravessavam, ainda atravessam, de um lado para o outro, na correnteza das ilusões do garoto que olhava, e ainda olha, com o mesmo olhar de menino, o remanso, os balseiros, o ir e vir, para só depois entender que a vida passa mais do que o rio. Por todo lado vertentes, igarapés, veios d’água, em que floresciam matas, flores e frutos, num manancial antos e das crenças, das imagens e das velas, numa vida de resignação e de devoção, na valentia da gente sem vaidades, de uma aldeia alegre e modesta, que lutou para ser brasileira.

Nesse contexto, o menino era aventureiro, só podia ser. Queria saber dos caminhos e varadouros, até de tudo o mais que diziam existir pra lá e acolá, ou mais longe, pra lá da curva do vento, adiante de um muro que parecia existir no horizonte. Se fosse para ver coisas novas, pouco importava a ponte improvisada para atravessar, afinal, era como atravessar o rio, olhar o lado de lá, e depois voltar, cheio de coisas para contar.

No tempo dos quintais, um cesto de mangas era passado pela janela e depois voltava com cupuaçu, quem sabe, trazendo dentro um prato com tapiocas, com sorte, umas pamonhas. Se no rio tivesse passado piracema, uns mandis fritos eram sempre bem-vindos. A floresta misteriosa espreitava. Nessa bubuia, seguia o menino, já meio peralta, com uns oito ou nove anos, querendo virar pinto calçudo. As prendas passavam pelas janelas, e pelas janelas do tempo, o menino olhava a vida, querendo ver mais. Saiu da escola, no meio da tarde, antes do fim das aulas, e foi com um colega dar umas voltas no bairro Capoeira. O colega morava por lá, depois de uma vertente, onde havia um buraco para transpor. Não havia pedras no caminho, sequer tijolos. Perto da entrada existia um campinho de futebol, no barro batido. A entrada era mais um caminho que uma rua, quase um varadouro, que ia estreitan do, ladeado de árvores, uns pés de jaca, com cuidado nas raízes de castanhola, para não tombar em meio de viagem. E então, não mais que de repente, no meio do caminho, surgiu uma árvore. Uma grande árvore, talvez duas toras, em forma de ponte.

Na Amazônia, essas pontes são chamadas de pinguela. Essa era a passagem para o além, pois a pinguela estava no meio do caminho, perto do fim da tarde e no desabrochar da vida do menino. Era necessário transpor o medo de cair no buraco, para descobrir o que havia mais pra lá do que era conhecido, à frente da imaginação. Foi assim que na margem do sonho o menino tropeçou em uma raiz e caiu na borda da felicidade. Olhou o buraco e pensou no avô. Aquilo ia render uns puxões de orelha, umas lambadas de cinturão, putiteba! Levantou-se, assustado, mediu a coragem, disse alguma bobagem e deu uns passos na direção da glória. A dificuldade devia ter uns quatro ou cinco metros e não tinha corrimão, corda nem cipó. Sequer uma alça imaginária. Sem choro nem vela, se corresse, o bi cho pegava, se ficasse, o bicho comia. Talvez o bicho fosse o medo de transpor a segurança do que é conhecido. E pensava: será que acertaria voltar pra casa no escuro? O manto negro da noite estava pra cair. Só muito depois descobriria que o tempo não tem volta, senão nas lembranças, como essas, com matizes de saudade e de alegria.

Não iria tropeçar de novo na mesma dificuldade. Tinha, depois da queda, a certeza da prudência, dentro da ilusão de que há um vaso mágico no final do arco-íris. Arriscou, aventurou, e com algum auxílio, o lado de lá do desconhecido foi conquistado. Tropeçou apenas na ansiedade, para depois cair na realidade. Descobriu que a imaginação era maior do que o território conquistado. Já era noite quando se sentiu perdido, numa ocasião em que não havia telefone celular nem internet. Mesmo assim, até hoje, imagina o que deve haver lá adiante e sonha com o algo mais.
Na aldeia chamada Rio Branco, no final da década de 1960, os automóveis eram poucos. Alguns Jeep, muitas Rural, uns AeroWillys, um ou outro Itamaraty, uns fusquinhas e kombis, alguns outros. Deu seis horas, deu mais, a mãe lua anunciou as estrelas. Na noite estática da floresta, outra mãe, a do menino, chorou em desespero e o velho avô acionou a polícia. Usou o 2579, telefone da época sem prefixo. Viaturas, até manduquinhas, acionaram suas atenções e suas sirenes. Automóveis particulares ajudaram. O neto do coronel de barrancos, seu Lauro Fontes, estava sumido. Saiu pra aula, ali pertinho, no grupo escolar do quarteirão vizinho, mas não voltou. Na escola, ninguém deu notícia. O velho resmungou: esse cabrinha é bom de peia, deixa estar. A notícia vazou pela boca da noite.

Do que dita a memória, o colega não sabia onde morava o menino e o Sacana Branco não sabia voltar. A vontade de transpor o conhecido foi maior do que o conhecimento do percurso. E era apenas uma aldeia… O acaso protegeu, a família do colega abrigou o menino, alguém ouviu a rádio Difusora Acreana, uma mulher conhecia a mãe do menino e o desaparecido foi encontrado. Voltou, nos braços do velho, uns braços conhecidos, até pousar no coração da mãe aflita, um lugar seguro e sem tropeços. Ali, naquele paradeiro de matas em que o menino perdeu o rumo, está hoje o Parque da Maternidade, onde há um canal que leva as águas para o velho Rio Acre, com bela urbanização no entorno.

Acho que as navalhas dos barbeiros mudaram a face do tempo. Alguns barbeiros ainda estão no mesmo lugar, pertinho de onde havia a lanchonete Cinelândia, o local em que foi descoberta a Coca-cola. Outros já foram conhecer outro desconhecido. Vários deles, como o velho Jucá e o Chico Cruz, presenciaram, tempos depois, quando o menino foi atravessar, correndo, a avenida principal, pisou com um pé, na sandália do outro pé, tropeçou e caiu. Foi um novo tropeço, na mesma estrada da vida. Corria para nada, apenas corria, como correm as águas do rio que cruza a sua vida. O desconhecido ainda era o passo seguinte.
Não havia ponte, pedra nem raiz de árvore, bastava atravessar a rua, mas a prudência era só um conceito, algo distante. O tropeço foi com o mesmo pé direito, parado pelo esquerdo, do lado sinistro em que surgiu o caro veloz e furioso. Interessava mais a velocidade da euforia. Outra vez, o acaso protegeu. O carro devia ser um Corcel I, da Ford. Os bons freios foram acionados e o menino reencontrou a vida. Virou a cabeça, com o nariz quase encostando nos pneus daquela visão inesperada e saiu debaixo do para-choques. Sem dúvida, era algo novo. Quando os barbeiros gritaram ‘Sacana Branco’, o menino já tinha passado sebo nas canelas e corrido para o conhecido aconchego, a casa do avô. Tropeçou, de novo, na pressa de viver, na própria busca para se encontrar.

O seu Lauro já seguiu para o desconhecido maior. De lá não mandou notícias. O menino não tem como acionar as manduquinhas para procura-lo. Apenas envia essas lembranças, com muito carinho. É certo que o velho seguiu sem tropeços, pois ele não era de conversa mole. Tinha fé cega, passo firme e coragem amolada. E o menino assim vai tentando. A lição dos tropeços se reflete no rio, também já andado em anos. O mais importante é a travessia, é o percurso. Não é necessário ter pressa, pois o tempo é trapaceiro. Mas isso só foi visto agora, depois de décadas percorridas à procura desse tal desconhecido, desse tal encontrar-se, que é apenas outra maneira de ver o que já estava por ali, como as águas do rio, passando e passand o, sem sair do lugar.

Pontes, pedras e quedas existem para melhor desenhar o caminho, o encontro. Os tropeços revigoram a caminhada, para alinhar o passo e dar graça aos movimentos. É como o balanço das águas. O menino parece ter entendido que a magia está na sabedoria do rio, em fingir que passa, em ir seguindo, até entrar no mar e navegar o desconhecido, mas seguir navegando, ainda que em outras águas, para novos remansos, para entender as correntezas do além, até um porto mais adiante, onde tropeços serão apenas histórias pra contar.

*Cronista