Tite pode fazer história e ser confirmado para dirigir a Seleção no Catar

A Seleção Brasileira não encantou como a de 1982. Longe disso. O resultado de 2018 é aquém da tradição de quem chegou entre os quatro em 11 das 21 edições. Mesmo assim, faz tempo que um técnico eliminado da Copa — ainda mais nas quartas de final — não ostentava tamanho apoio popular para continuar no cargo. Provavelmente, desde Telê Santana, após a Tragédia do Sarriá na derrota por 3 x 2 para a Itália.

Há 36 anos, Telê deixou a Espanha em alta. Ele optou por não seguir no cargo. Ele até reassumiu a prancheta para o Mundial de 1986, depois de Carlos Alberto Parreira, Edu Coimbra e Evaristo de Macedo não darem certo, mas preferiu dar um tempo. O último caso de técnico derrotado mantido na Seleção faz 40 anos. Terceiro colocado em 1978, Cláudio Coutinho ficou mais um ano na função até passar a prancheta justamente para Telê Santana.

Adenor Leonardo Bachi gosta tanto de Telê que pode ser o primeiro técnico depois do “mestre” a comandar a Seleção em duas Copas consecutivas. Depende dele. Pelo menos duas fontes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) disseram ao Correio, ontem, que o presidente eleito da entidade, Rogério Caboclo, pretende manter a comissão técnica. O novo ciclo começa no amistoso contra os Estados Unidos para a Copa América de 2019. A Seleção não ganha o torneio desde 2007. Após o torneio continental, começam as Eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar-2022.

Apesar da eliminação, Tite sabe que tem o reconhecimento popular. Um dos trunfos é a empatia. Com métodos diferentes, ele repetiu o resultado de Dunga em 2010. Porém, diferentemente do capitão do tetra, sabe se relacionar, além de ter recuperado a Seleção no pouco tempo em que esteve à frente do time. Na entrevista após a derrota por 2 x 1 para a Bélgica, Tite falou sobre o apoio dos torcedores. “A torcida sabe avaliar. Eles acompanham e têm discernimento. Talvez, a dor fique aflorada, mas o torcedor sabe avaliar o que aconteceu em campo, ele enxerga. Talvez, por isso, reconheça e passe esse carinho”, comentou.

Prudência nas declarações

Antes do voo de volta para o Brasil, o coordenador técnico Edu Gaspar desconversou. Ele foi prudente ao falar sobre a manutenção da comissão técnica. “É inegável a satisfação que temos de estar onde estamos hoje. Estamos juntando as nossas dores. Vamos esperar voltar ao Brasil para conversar e dar o próximo passo”. Na chegada ao Rio, Gaspar será o primeiro a se encontrar com a cúpula da CBF. “Não posso ser tendencioso. Preciso ser claro e objetivo. A gente quer esperar um pouco mais para tomar as melhores decisões”.

A continuidade do trabalho da atual comissão técnica depende muito do relacionamento desgastado com alguns dirigentes da CBF. Tite e o elenco sentiram-se abandonados nos bastidores, principalmente no episódio do empurrão de Zuber em Miranda, na estreia contra a Suíça. Publicamente, ele não questionou os cartolas, mas chegou a dizer, ao blindar Neymar após a vitória sobre México, que há uma hierarquia: jogador joga, técnico treina e dirigente tem que trabalhar como dirigente. Na passagem pela Rússia, o presidente interino da CBF, coronel Nunes, cometeu festival de trapalhadas. Afirmou até que a Fifa deveria entregar a taça ao Brasil.

Tite serviu de escudo para os cartolas. A excelente arrancada nas Eliminatórias afrouxou o nó da gravata dos dirigentes. A cada pergunta sobre as denúncias contra Marco Polo Del Nero, evitava divididas. Tentava mostrar que o trabalho da Seleção é uma ilha dentro de uma entidade em que os últimos três presidentes foram banidos do futebol pela Fifa.

Independentemente da decisão de Tite, o ciclo começará com renovação. Dos 23 jogadores trazidos para a Rússia, até 10 podem tentar disputar a Copa de 2022: os goleiros Alisson e Ederson; o zagueiro Marquinhos, o lateral Marcelo, o volante Fred, o meia Philippe Coutinho e os atacantes Neymar, Gabriel Jesus e Roberto Firmino (Leia mais sobre o assunto na página 4). Se Tite permanecer, esse deve ser o ponto de partida para encerrar com o jejum de 20 anos sem título. O último foi em 2002.

Sucesso imediato

Convidado para assumir o cargo após duas eliminações seguidas do Brasil na Copa América sob o comando de Dunga, Tite alçou a Seleção do sétimo ao primeiro lugar nas Eliminatórias da Copa de 2018. Em 26 jogos, só perdeu dois: o amistoso com a Argentina, em 2017, na Austrália, com um time reserva, e as quartas de final contra a Bélgica.

Correio Braziliense