Simplesmente Deus

José de Anchieta Batista

Hoje acordei pensando em Deus. Não sei por quê. Afinal, Deus é um ser que não me preocupa. Cada um o concebe da forma como pode alcançá-lo. Não me interessa o que pensem de mim por causa disso. Se me julgam herege, ateu, amigo dos capetas, ou condenado ao Inferno, nada me abala. Mesmo assim, saibam que, mesmo descrente nos deuses impostos pelas religiões, não sou ateu. Creio em um Poder Superior, do jeito que pude compreendê-lo, e tenho minha forma personalíssima de com Ele me relacionar.

Volto no tempo. Lembro-me da primeira recitação que fiz em um evento público, no seminário onde eu estudava. Foi uma semana inteirinha de preparação para o Dia das Mães. Os padres eram – como ainda hoje o são – muito caprichosos. Coral, monólogos, esquetes, poesias etc., tudo tinha que estar na ponta da língua e muito bem ensaiado em todos os detalhes. Afinal, teríamos presenças importantíssimas, como Dom Zacarias, os padres da diocese, as freiras e as alunas do Colégio N. S. de Lourdes, além das famílias dos seminaristas. Muitas mães lá estariam. Dona América, contudo, morava longe e, pelas poucas posses, claro que não poderia estar lá.

Coube-me recitar o poema “Deus”, de Casimiro de Abreu. Doze versos, em três estrofes, que me fizeram perder o sono naquelas noites que precederam o grande momento. Vamos aqui transcrevê-los, mesmo na certeza de que quase todos os conhecem e talvez já os tenham também recitado em criança:

DEUS
Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
“Que pode haver maior do que o oceano,
“Ou que seja mais forte do que o vento?!” –

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus
E respondeu: – “Um Ser que nós não vemos
“É maior do que o mar que nós tememos,
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é Deus! ”

Parece que me saí até bem. Pelo menos, bateram palmas e muitos dos presentes, inclusive o Senhor Bispo, deram-me os parabéns.

Lembro hoje aquele momento com certa saudade, mas minha intenção aqui, é mesmo outra. Quero afirmar que ninguém é obrigado a acreditar em Deus. Também é absurdo que queiramos que os outros o concebam da mesma forma como nós o concebemos. A grande maioria das religiões, cada uma a seu modo, se propõem fazer isso, mas utilizando-se do terror de um Inferno eterno após esta vida. Isso nada me vale, porque, hoje, creio convictamente na reencarnação, embora respeite aqueles que não a admitem.

Volto à mensagem do poema, para reforçar o óbvio. Seria sem sentido acreditar num Deus que não fosse Todo Poderoso. Dessa forma, o jovem poeta Casimiro de Abreu, falecido aos vinte e três anos, traduziu isso, mediante extraordinários fenômenos da Natureza.

Minha infância se foi. Vivi, pela vida afora, perguntando-me como seria realmente este Ser que chamamos de Deus. Nunca me veio uma resposta convincente, nem da Teologia, nem das religiões, nem dos livros, nem dos sacerdotes, nem das diversas filosofias, porque nesses espaços Ele é muito pequeno e imperfeito, na forma como é visto e traduzido.

Concluo afirmando que a melhor forma de concebermos esse Deus indefinível é nos sentirmos, cem por cento, parte integrante da Natureza, e mergulharmos no mais profundo de nosso ser, rebelando-nos contra as ilusões e mentiras que insistem em nos impor. Deus está vivíssimo na Natureza! Deus está vivíssimo em nós! Lembremo-nos de que nós também somos deuses!