SENTIR E QUERER

José Augusto Fontes ​

O destino pegou no sono, mas não o sentiu, acabou despertando antes de viajar para fora de si, para fora do instante. Vinha de uma caminhada constante, noites depois de dias, encontrou e perdeu o rumo. A incansável vontade de adormecer era a fuga de uma perdida dor, de calar sobre sofrer. Um enorme vazio de para que viver o dia, aquele, que era bem melhor esquecer, passar ao longe, um longe de sol, que a gente vê e sente, mas não alcança. Jamais pode variar, jamais pode evitar, a caminhada é para seguir. Mas cresceu um sol, desperto e aquecido, o viajante saberia achar algum novo motivo para viver esse velho dia, que não era esperado para hoje, não tão cedo.

Renovado, queria soltar o sono e o sentimento, acordar todas as vontades e desejos, viver outro enredo. Passear pela vida, dar sentido ao caminho das ruas, plantar a rosa dos ventos, colher palavras para ir soltando. Precisava de outra viagem, sorrir sobre desvanecer, achar, enxergar o emocionar. Encontrar nos bares e jardins, tantas árvores plantadas, tantas palavras deixadas, uma e outra mulher amada, o prazer ainda precisa de uma definição. Isso mesmo, depois de tanto tempo, desde sempre, mulher e amor, não há melhor álibi, não existem melhores mãos para conduzir, outros olhos para seduzir e guardar o segredo, o medo, toda maneira de não sentir e calar, toda maneira de viver.

Acordar, estar entregue a novos passos, entregar-se ao abandono, sorrir sobre a dor, entregar palavras e emoções, poder dizer aqui estou, vou não vou. O prazer já se levanta e anda pelo corpo, percorre o medo de acordar o destino, sacode a vontade de deixar estar. Pegar nas mãos do que estava escrito, ter medo e coragem para dar-se ao segredo, longe do longe estar, sentir renovar, em cada mão encontrar e deixar sair, sem esquecer de ficar. Esse velho dia não era só de palavras e sonhos, fantasia nos olhos e nas mãos. Era viver o cotidiano e não perceber. Esse velho dia tinha jeito de criança, tinha a certeza de crescer, um caminho para seguir, traz para cá a tua mão.

O enredo precisa de mulher e amor. O olhar que as mãos seguram, em impossível não querer, é o que os destinos querem evitar. A força do desejo, a beleza da ilusão, as mãos mudam os velhos finais, dão algo mais ao cotidiano. O caminho desvia o rumo programado, combinado com um enredo que precisa emocionar, para que as palavras não se percam e fiquem ditas apenas para o esquecimento. Olhos de chuva com sol, interpretação definitiva, sucesso garantido, demorado, deve rimar amor e dor. Sentir e querer, não há como escapar. Tudo faz crer num dia diferente, os olhos da cor de jardim dizem palavras fatais, esse velho dia, estas mãos, quem sabe, virar criança, sonhar algo mais.

É preciso encontrar o caminho das palavras perdidas no esquecimento. Em cada viagem interessa encontrar o rumo da próxima partida, para deixar o registro desse grande passeio pela vida. E nessas voltas que nossa viagem dá, amanheceu a mulher, com olhos de floresta, mãos de condão e vontade de ficar. Anoiteceu amor, findou a dor de tanta caminhada, chegou o enredo definitivo, viaja o verbo para o infinitivo. Com esses olhos posso ver novos rumos, com essas mãos consigo alcançar outros destinos, nasceram rosa e crianças, cresceram o sentir e o querer, tantas palavras, outros sentidos, o final repete os sonhos, já há pouco o que dizer e ouvir, é quase hora de calar. E deixar acontecer.

Cronista