Sebastião Salgado no Acre…

varal_1NOTA: Tenho a enorme alegria e honra de estender hoje no Varal de Ideias este belo, elegante e profundo texto, escrito por um dos intelectuais orgânicos da sustentabilidade no Acre: o Dr. Alberto Tavares (Dande). Particularmente, fico muito orgulhoso. Dande,

foi meu querido ex-aluno. Hoje ele, e tantos outros, me ensinam. Este é o melhor presente que um professor pode ter em sua vida.

Muito grato, Dande.

Marcos Afonso.

Por Alberto Tavares (Dande)

No último dia 23 desde setembro, juntei-me a uma emocionada plateia de centenas de pessoas com as quais pude desfrutar de uma das maiores emoções de minha vida, assistir uma palestra ao vivo, do grande mestre da Fotografia, e também Economista, Sebastião Salgado.

Em uma noite mais que especial com um belo e inusitado encontro da arte, com a natureza, a ciência, e o conhecimento tradicional, a Academia acreana, numa sábia decisão conferiu a ele o título de Doutor Honoris Causa, por sua singular contribuição para a evolução da humanidade através da fotografia.

Nas falas introdutórias ao homenageado, tivemos a oportunidade de escutar atentamente o Senador Jorge Viana, o Reitor Minoru Kinpara, e o Governador Tião Viana, que em sua fala fez um destaque especial sobre a gênese da visão, o elemento fundamental na construção do olhar do fotógrafo. Um pertinente alinhamento com a obra do autor de Gênesis.

Num misto de poesia e pragmatismo escutamos sobre sua inspiradora trajetória de vida desde a privilegiada condição de Brasileiro que passou sua infância na propriedade florestal da família, considerada por ele, um paraíso. Escutamos também relato sobre sua imprescindível formação acadêmica em ciências econômicas, certamente fator decisivo e orientador de sua trajetória de fotógrafo social, realizando o impactante registro dos dramas e contradições civilizatórias da humanidade até a gênese da criação, nos quatro cantos do mundo.

Como não podia faltar, Salgado também nos deu o privilégio de desfrutar, em primeira mão, da indescritível experiência sensorial de assistir a um “vídeo áudio fotográfico” revelando uma Amazônia superlativa em belezas cênicas e socioculturais de seus habitantes originários, os povos indígenas. Não bastassem as estonteantes e imagens fotográficas, acrescentou a genialidade musical de Heitor Villa-Lobos com suas Bachianas Brasileiras.

Nosso Acre também foi retratado pela apresentação do elegante coro musical de mulheres indígenas Yawanawa, bem como a presença e merecido reconhecimento da contribuição dos povos indígenas para a conservação de nossas Florestas nas pessoas dos líderes Biraci e Tashka Yawanawa, e dos pioneiros indigenistas Txai Terri Aquino e José Carlos Meirelles, atuantes guerreiros da causa indígena acreana, com especial destaque para as frentes de proteção dos índios isolados, que segundo Salgado, são nossos elos primordiais e fundamentais com tempos imemoriais.

Mais uma vez afirmo, foi noite inebriante e inesquecível.

No entanto, confesso que saí com a sensação de quem desfrutou de um banquete incompleto.

Como se faltasse algum ou talvez alguns temperos no relato de sua experiência e percepção sobre o Acre. E logo me dei conta, que tratava-se da ausência dos ingredientes fundamentais que compõem o mosaico de iniciativas pioneiras e transformadoras de um Acre contemporâneo.

Temos no Acre uma concreta mudança de paradigma civilizatório, apontando sólidos caminhos e soluções para a complexa equação de equilibrar desenvolvimento e conservação dos recursos florestais/naturais com justiça social na Amazônia. Aqui acontece uma gestão integrada da paisagem das áreas de florestas nativas e as já convertidas. Uma política implementada em alinhamento com o potente e efetivo instrumento de planejamento do uso da terra, que foi resultante de um amplo e inédito pacto social, o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), sua amparado por sofisticadas políticas públicas e privadas que se complementam de forma sinérgica em 5 ciclos de gestão pública estadual.

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Cantoras Yawanaua...
Cantoras Yawanaua…
Tião Viana, respeitosamente batizado cacique Nete Wanê, sendo pintado com um kenê de guerreiro pelo povo Katukina. (Todas as fotos de Sérgio Vale).
Tião Viana, respeitosamente batizado cacique Nete Wanê, sendo pintado com um kenê de guerreiro pelo povo Katukina. (Todas as fotos de Sérgio Vale).

 

Com convicção, podemos afirmar que nosso modelo de desenvolvimento tem forte alinhamento com as agendas dos principais acordos e tratados internacionais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o Acordo de Mudanças Climáticas  assinado em dezembro por 197 países em Paris, e já ratificado pelo Brasil. Aqui nossa pioneira política de mudanças climáticas materializada pelo Sistema de Incentivos aos Serviços Ambientais, catalisa e potencializa a consolidação de uma economia de baixas emissões de carbono e conservação de florestas com justiça social, temas centrais do conjunto da obra de Salgado. Ao passo que reduzimos expressivamente o desmatamento, 63% nos últimos 10 anos, incrementamos nossa economia, verificado no expressivo aumento do PIB, e tudo isso com inclusão social, com expressivas melhorias na educação, saúde e geração de emprego e renda. Como legado dessas políticas inovadoras, hoje acreanos podem se orgulhar de serem guardiões conscientes de um valoroso patrimônio natural traduzido em 87% de nosso território coberto por florestas nativas habitadas, produtivas e conservadas.

Isto não é pouco, e sem risco de ufanismo, podemos afirmar que somos um farol que ilumina e aponta caminhos, uma reconhecida referência que inspira e influencia outros estados brasileiros e até nações também detentoras de florestas tropicais que cada vez mais frequentemente nos procuram para troca de experiências e intercâmbios sobre políticas públicas inovadoras. Gozamos ainda de merecido reconhecimento de organizações nacionais e internacionais atentas a experiências exitosas de desenvolvimento sustentável, incluindo as agências internacionais de cooperação multilaterais, tão conhecidas por Salgado.

A ascendente e positiva trajetória de nossos indicadores socioculturais, econômicos e ambientais, são um termômetro validador desta evolução. As conquistas de primeiras posições nos ranking nacional e liderança regional na educação pública são provas cabais que aqui acontece uma inspiradora revolução, e esta vem se dando também pela Educação. Devemos e queremos avançar. No entanto, sabemos que sustentabilidade não é um lugar aonde se chega, mas um caminho a ser percorrido. Então, caminhemos…

Penso que a percepção de Salgado sobre o Acre é bela, mas infelizmente me pareceu parcial. Seria justo com os acreanos, e com este sábio Senhor de 72 anos, reconhecesse que contribuirmos com uma sensível ampliação. Como numa fotografia de uma lente grande angular, revelarmos a ele, uma imagem integral do mosaico de virtuosas e pioneiras iniciativas, que tem sido a base de muitos avanços e conquistas dos acreanos, e certamente da manutenção do elo ético primordial que permite até hoje a coexistência harmônica de povos indígenas isolados, com sociedades rurais e urbanas contemporâneas.

Se “fotografar é pintar com a luz”, sejamos todos nós como porongas iluminando e expandindo o honroso caminhar do genial Sebastião Salgado pelos varadouros do nosso pioneiro Acre.

Alberto Tavares (Dande), é economista e sustentabilista com experiência na liderança de organizações governamentais e não-governamentais com enfoque nos temas de meio ambiente, mudanças climáticas e desenvolvimento de baixas emissões de carbono. Nos últimos 15 anos trabalhou na gestão e implementação de projetos de conservação e desenvolvimento florestal de base comunitária e empresarial, mitigação e adaptação a mudanças climáticas, bem como incentivos aos serviços ecossistêmicos, e desenvolvimento de lideranças e governança multinstitucional na Amazônia. Trabalhou por 10 anos no WWF-Brasil, onde foi Coordenador do escritório no Acre. Desde 2013 dirige a Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais do Estado do Estado do Acre – CDSA.