Repente Repentino

José de Anchieta Batista – Dentre as coisas que mais me causam orgulho na vida, duas delas são verdadeiramente especiais. A primeira é saber que corre em minhas veias o heroico e sagrado sangue dos negros. Minhas tataravó e bisavó maternas passaram pelo convívio das senzalas. Que pena que não pude, quando adulto, para melhor conhecer minhas origens, conversar com minha Vovó Manuela, a quem conheci quando criança, e com quem muito pouco convivi. Só recordo, de forma muito vaga, que saíamos esporadicamente lá da Paraíba, em longa viagem de trem até Mossoró, para visitá-la em Tremembé, uma daquelas antigas praias desertas, quase na divisa entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, e que pertencia ao município cearense de Aracati.

A segunda coisa que mais me enaltece é ser nordestino, nascido lá na Serra do Teixeira, bem no espinhaço da Borborema, berço de muitos poetas e violeiros. Orgulho-me de ter o umbigo enterrado no sítio Fava de Cheiro, no que pese haver crescido em outras paragens daquele querido e maltratado Sertão. Naquele meio, onde os meninos já cresciam brincando de fazer rimas uns com os outros, sempre fui apaixonado por cantorias. Havia um verdadeiro fascínio diante daqueles artistas da poesia, cujos versos fluíam com indescritível facilidade e enorme presença de espírito. Dessa forma, a poesia, principalmente a nordestina, seguiu-me pela vida afora, em todos os recantos por onde andei.

Como disse, sou orgulhoso de ter minha origem negra e de trazer na alma esta pura essência dos sertanejos do Nordeste. É palpitante falar disso, mas hoje não escreverei sobre nem um desses dois motivos particulares de orgulho existencial, embora o fato abordado aqui se prenda a uma rica sextilha nascida do improviso de dois violeiros. Os nomes deles? Juro que não me lembro. Onde aconteceu? Também não sei. É que faz muitos anos que meu saudoso tio João Lacerda contou-me este fato.

O repente, bem repentino, nasceu numa festa de casamento, em um daqueles lugarejos de pé de serra, onde dois violeiros convidados prestariam homenagem aos recém-casados, antes que a sanfona e o zabumba dessem início ao rala-bucho.

Assim programado, quando a noiva entrou na grande sala, o primeiro violeiro, já com sua viola preparada, fez ecoar os dois primeiros versos:

Chegou Branca, a linda noiva,

De véu, de grinalda e luva…

Neste momento uma caranguejeira atravessa a sala apressadamente, e o segundo violeiro emenda com precisão:

Corre uma caranguejeira,
Com seu traje de viúva…

Dentre as mulheres em polvorosa, uma retira o calçado para eliminar a intrusa. Nesse instante o outro violeiro fecha a sextilha com grande maestria:

Dona, não mate a bichinha,
Que ela adivinha chuva!