Reencantar a Juventude

Marcos Inácio Fernandes

“É penoso / a gente ser ainda jovem / e quase velho. / ainda vivo e quase morto. / quase livre e tão preso” José Roberto Gonçalves de Rezende (1942-2000)*

“Estamos sofrendo, há algum tempo, um processo de envelhecimento que não nos trouxe a maturidade suficiente. Apenas perdemos o frescor da juventude”. (Manifesto do Partido Que Muda o Brasil – PMB no 5º Congresso do PT, em Salvador – BA de 11 a 13 de junho de 2015)

Estou tendo essa sensação de envelhecimento partidário precoce, embora nem sejamos ainda “balzaqueanos”, próximos dos “ENTA” (Quarenta).

Quando o ser humano atinge a fase dos “enta” (40,50 ,60, 70, 80, 90 anos) o tempo começa a nos difamar e surgem distúrbios biológicos de toda ordem. Assim me parece também suceder com os partidos.

Nos 38 anos de existência partidária, o PT se consolidou como partido de massas e de quadros e, no governo, mas muito longe do poder, implementou políticas públicas que promoveram impactos positivos na sociedade brasileira e no Acre. Entretanto, o PT ainda está longe de estabelecer sua ‘hegemonia’ social e se consolidar como um partido socialista.

As conquistas foram muitas, tanto aqui no Acre, como em todo Brasil. Mas a cada eleição é esse sofrimento e esse desespero para convencer o povo que o nosso projeto é o mais consistente e o que tem apresentado resultados extraordinários. Apesar de tudo que fizemos e de termos beneficiados milhões, o povo não saiu em defesa do nosso projeto e das nossas lideranças. Dilma caiu e Lula está preso e não concorrerá nas próximas eleições.

Esses fatos indicam que a ‘cidadania’ é uma planta tenra na nossa frágil democracia. Ademais milhares abdicam dos seus direitos achando que não votar, ou votar num “Messias” que empolga o senso comum é um protesto e uma alternativa para um país em crise.

Nesse quadro de desilusão, quase geral, o que mais me espanta são jovens aderindo a uma candidatura – a do capitão – que expressa um enorme desapreço pela democracia e pelas conquistas civilizatórias. Como explicar esse fenômeno que reaviva todas as patologias sociais e faz aflorar o fascismo?

Dizem que o processo biológico / político natural é ser revolucionário quando jovem e se tornar reacionário na medida que se vai envelhecendo”. Um jovem reacionário seria uma contradição em termos. É um caso para estudo de especialistas na área do comportamento humano para explicar o fenômeno,

De minha parte e, quero crer, de muitos da geração pós-guerra, essa situação nos remete a lembrança do samba-canção antológico do Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços /Ah se soubessem o que eu sei / Não amavam não passavam / Por tudo que já passei…”

Esses moços da geração de 1980, que nasceram bafejados pela redemocratização, que o país atravessava na época e estão a usufruir dessa regalia político/econômicas conquistada pela nossa geração – uma geração vitoriosa, não fazem ideia do que foi a ditadura. Não alcançaram as maquininhas de remarcar preços nos supermercados, não conheceram o exílio e nem conhecem os verdadeiros heróis do nosso povo.

Porém temos de reconhecer que esses jovens são mais vítimas, tendo em vista, que não lhes possibilitaram uma educação como prática de liberdade conforme preconiza a pedagogia de Paulo Freire. Uma educação humanizadora que antes de formar profissionais para o mercado, formasse ‘cidadãos’.

Nas Resoluções sobre a conjuntura local que aprovamos no 6° Congresso Estadual do PT, realizado no ano passado dissemos no item 55 o seguinte:

“A geração que nasceu na década de 80 não conheceu o Acre de antes dos governos da Frente Popular, e cresceu dentro das profundas transformações aqui operadas, incorporando essas transformações como algo natural. É uma geração herdeira do virtuoso ciclo de prosperidade e ampliação de direitos. Trata-se de uma geração em disputa cuja narrativa política que melhor explicar o mundo atual e que mais profundamente dialogar com suas expectativas e necessidades, maior chance terá de ganhar seus corações e suas mentes.”

Espero e desejo que nessa reta final de campanha, nós da FPA e do PT especialmente, consigamos dialogar com a juventude e reencantá-la!!

Que após o processo eleitoral, que acredito que sejamos vitoriosos, nós possamos implementar, já no início de 2019, a nossa Escola de Formação Política e Cidadania para trabalhar preferencialmente com a juventude.

Fora disso é esse sofrimento de 4 em 4 anos. De sofrimento basta no futebol torcendo pelo Brasil na Copa!

É presidente do PT de Rio Branco.

**José Roberto Gonçalves de Rezende, foi um militante de esquerda. Atuou no Comando de Libertação Nacional (COLINA), Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-PALMAARES) e Vanguarda Popular Revolucionária. Foi preso e condenado a duas prisões perpétuas e mais 69 anos, Cumpriu 8 anos e 7 meses de pena. Faleceu em 8 de agosto de 2000, vítima de enfarto.