Realizando sonhos em tempos difíceis

Há alguns anos, quando um barrigudinho entrou na escola com 10 anos de idade, passou a sonhar ter uma mochila. Achava algo das galáxias o pessoal andar com uma bolsa a reboque e passou um tempão com essa ideia na cabeça até que na volta das férias lá estava ele com uma novinha em folha. Foi uma ideia que deu certo e não teria mais que carregar seu caderno, lápis e borracha em saco de arroz de cinco quilos, já que sacola de supermercado é algo moderno.

A mãe dele era analfabeta, sem marido e veio rebocando 4 filhos do seringal. Ela, recém-chegada do mato e na capital não conseguiu emprego. O grupinho passou a viver na miséria absoluta. A mãe conseguia pequenos serviços. Eram uns bicos aqui, outros ali. Ela lavava roupa para uma casa aqui, para outra ali, para outra acolá. O que conseguia dava apenas para a alimentação mirrada da turma.

Hoje quando comenta isso, alguém logo pergunta como tinha conseguido a mochila, então? Mochila para alguém do seringal era e sempre foi artigo de luxo. Pois é! Não foi fruto de roubo. Aliás, a família toda nunca roubou. Na verdade, já roubou sim: manga, goiaba e mamão verde (que no feijão fica parecendo bata doce). Eram pequenos furtos dos vizinhos, em épocas de safra extensa. Mas isso lá dava para comprar uma mochila!

Eles passaram a morar na invasão do Tancredo Neves, bem antes dele virar conjunto, uma obra feita nas coxas. Umas casinhas todas de madeira com umas frestas gigantes, pois as casas foram feitas com madeira verde e quando foi secando os buracos foram aparecendo. Eles até colocaram umas ripas entre as tábuas, mas com o secar das peças, iam entortando ou afastando uma das outras e as frestas aparecendo. Nessa época não existia órgão de controle que talvez pudesse impedir esses elefantes brancos, esses ralos por onde escorrem a dinheirama do povo.

Antes e depois da construção do conjunto, eles viveram uma desgraça e a pior delas era a escassez de água. Onde atualmente é o posto policial do conjunto, ao lado da Creche Jairo Júnior, era uma caixa d’água. Do tamanho que é o posto de polícia hoje, era o reservatório de água provisório da época.

Sem hora nem dia certo, o caminhão pipa cheio de água, que não se sabia se era potável, parava lá e abastecia a caixa. Nisso todos os moradores eram avisados com um buzinaço que a água tinha chegado e lá se iam todos. Era a mesma novela de sempre. Todos tinham que se deslocar até lá com suas latas e seus baldes na cabeça para suprir seus reservatórios de água para consumo. Pensem?! Pareciam os integrantes de um bando de refugiados em busca de água.

Numa distância de mais ou menos 200 metros morava um casal que era rico, se comparados com aquela família oriunda do seringal. Eles tinham até caixa d´água e melhor ainda, tinham um pai, era uma cabeça forte da família que tinha um emprego e por isso viviam bem. Lá nada se faltava.

Um dia o barrigudinho observou que a dona, que depois passaram a chamá-la de Maria Doida, por não ser muito certa do juízo, estava carregando água com uma lata na cabeça. Já era bem a segunda ida que fazia da casa dela até o reservatório comunitário recém-abastecido. Foi aí, na desgraça daquela mulher “rica” que o barrigudinho viu uma mochila novinha em folha. Conquistou a irmã mais velha para que o ajudasse a encher a caixa d’água daquela senhora na esperança de alguns trocados. Deu certo. Incialmente deu certo.

Após convencer a irmã de que aquela era um excelente oportunidade de ganharem alguns mil cruzeiros, ela o escalou para falar com a dona Doida para que ela os deixasse carregar água por ela em troca da grana, que da parte dele seria empregada para a realização do seu sonho, a mochila.

Mas isso aconteceu depois que a Dona Doida passou mal e posteriormente descobriu que estava grávida e por isso não podia mais carregar baldes e latas na cabeça. Foi a primeira renda que surgiu na vida daquela criança matuta. Uma renda solo para o garotinho, já que a irmã mais velha o abandonaria na primeira missão. Ele acabou enchendo a caixa de 500 litros muitas vezes e sozinho, pois sua irmã pulou fora mesmo, logo nas primeiras idas.

No início a irmã até ajudou, mas depois foi se escapulindo. Por fim, estava só nessa missão de ganhar dinheiro e realizar seu sonho. Era uma aventura carregar água. Cada viagem levava em média de 7 a 10 litros de água no baldinho. Isso dava de 50 a 70 viagens de pura diversão já que era algo prazeroso, movido pela esperança de conquistar algo viável: uma mochila para carregar seu material escolar.

A irmã mais velha parou de colaborar nessa missão, mas não o proibiu de fazer. Ela abastecia os reservatórios de casa em poucas viagens, pois eram pequenos e ficava a assistir aquela alegria dele de dá idas e mais idas ao reservatório até encher a caixa de água da vizinha. Isso não era algo ruim para aquele projeto de gente. Cedo passaria valorizar as pequenas conquistas. Ele sabia que ia receber uma recompensa e tinha destino certo: a realização do seu sonho.

Alguns anos depois o conjunto Tancredo Neves se tornou um lugar perigoso para viver. Houve a formação de várias gangues e quase todas elas ofereceram facilidades para o barrigudinho. Felizmente ele já tinha aprendido que coisas fáceis podem levar a perdição. Sua mãe tinha ensinado que não valia a pena conseguir as coisas com facilidades, pois as coisas que vêm fáceis se vão fáceis também e que melhor era estudar com afinco e trabalhar nas horas vagas para no futuro sentir prazer com as coisas conquistadas com esforço e dedicação.

Por aquele serviço prestado, recebia uma ninharia, seria algo equivalente à R$ 10 reais hoje, mas foi o que proporcionou a oportunidade de realização do seu primeiro sonho de consumo. Hoje, algumas décadas depois, aquele que outrora era apenas um menino velho, preto, feio, barrigudo, tem uma profissão e sabe valorizar as suas conquistas, por menor que sejam. Quem quiser acreditar beleza, mas quem não quiser, tenha a santa paciência! Afinal quando um miserável realiza um sonho não tem a obrigação de provar nada para ninguém sobre sua realização.

Ele lembra que pior que carregar água na cabeça foi vencer a vergonha quando descobriu que ser padeiro era mais negócio.

*Realizador de sonhos em tempos difíceis