Quem é Cabo Daciolo? De onde ele vem? O que ele come? Como vive?

Ricardo Miranda

“Eu quero aqui, diante de todos, profetizar a cura da deputada Mara. Eu creio que aquela mulher vai levantar da cadeira e vai começar a andar“. Deputado federal e candidato a presidente Cabo Daciolo, em sessão no plenário da Câmara dos Deputados, para quem a deputada tetraplégica Mara Gabrilli (PSDB) voltaria a andar. Não deu certo.

Cabo Daciolo foi o nome do primeiro debate presidencial na Band (quase perdeu para Álvaro Dias, vestido de preto Moro e com um Botox que o deixou inexpressivo). Não porque tenha se destacado, feito propostas ousadas ou surpreendido positivamente – aliás, parecia o mais nervoso -, apenas porque muita gente não entendeu o que esse deputado federal com cara e discurso de vereador de Varre-Sai fazia lá. Daciolo é um camaleão político, que já posou de comunista até migrar para o recém-fundado Patriota e, seguindo o rumo natural das coisas, deve terminar a carreira na ala golpista do Democratas. Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos tem uma trajetória política meteórica – ou cadente, dependendo do ponto de vista -, entrando para a vida política apenas em 2014, quando se candidatou a deputado federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol) e foi eleito com cerca de 50 mil votos. Sim, Psol. Antes, flertou om o PSTU – você leu direito.

Circula pelas redes foto do cabo patriota segurando “Karl Marx”, a biografia de Franz Mehring, revolucionário alemão e companheiro em armas de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. O imprevidente ao lado dele é o honrado militante do PSTU, Cyro Garcia. Todos cometem erros de avaliação.

Cabo Daciolo tem 42 anos, nasceu em Florianópolis e começou a ganhar notoriedade em 2012, quando atuava como bombeiro no Rio e foi expulso da corporação por comandar uma midiática invasão ao Quartel-General no ano anterior. Na época, governo Sérgio Cabral – não ria -, 439 bombeiros do estado do Rio foram presos por participar da invasão ao QG. O movimento foi visto, na época, como uma rebelião grave, que só terminou após um confronto que pôs em lados opostos bombeiros e policiais. Os bombeiros acabaram soltos, foram anistiados, viraram heróis e nasceu Daciolo, o mitinho. Visto como líder grevista – o que parecia rimar com esquerda -, e com a fama instantânea, acabou no Psol, quando foi eleito deputado federal. Não deu outra. Sua passagem pelo partido foi conturbada e marcada por uma série de propostas e posições que contrariavam o programa do partido – e qualquer lógica. Com recorrentes declarações que enfatizavam suas crenças religiosas – Daciolo é evangélico – e com propostas que reforçavam sua posição cristã, não demorou muito para deixar o partido. A gota d’água foi quando, corporativamente, defendeu a libertação dos 12 militares acusados de envolvimento na morte de Amarildo Dias de Souza e tentou incluir “Deus” na Constituição Federal. Aliás, foi o responsável por apresentar a proposta que queria modificar o parágrafo primeiro, “todo o poder emana do povo”, para “todo o poder emana de Deus”. Doido de pedra.

Expulso do Psol em 2015, se filiou ao PT do B, que virou Avante, e acabou no Patriota. Se você está começando a enxergar um filhote de Bolsonaro, tem razão. O candidato já declarou que defende a intervenção militar e o fechamento do Congresso, pediu para que Temer “abandone a maçonaria, abandone o satanismo e venha correndo para Deus” – ah, essa parte foi engraçada! -, e ainda “previu” que o deputado federal Jean Willys (Psol) iria se casar com uma mulher e ter filhos. Como o fundo do poço tem alçapão, o deputado federal também “profetizou em uma sessão da Câmara dos Deputados – com uma bíblia nas mãos – que a deputada tetraplégica Mara Gabrilli (PSDB) voltaria a andar. Em tempo: a deputada segue tendo que recorrer à cadeira de rodas para seu deslocamento. Daciolo virou candidato a presidente depois que Bolsonaro deixou o Patriota. No debate na Band, Daciolo persistiu nas declarações religiosas, presentes em boa parte de suas falas. E – meme dos memes – fez referências a teorias da conspiração, como – segure o queixo – o Dossiê Ursal, suposto plano de “dominação comunista na América Latina”. Não consta que ele tenha feito milagres, como fazer Geraldo Alckmin se tornar carismático ou Henrique Meirelles sair do traço nas pesquisas. Lula segue preso e ninguém interna Daciolo num manicômio.

Jornalista

Fonte: https://osdivergentes.com.br