Que país é esse? Os brasileiros não conhecem o Brasil

Ricardo Kotscho

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da Nação
(Trecho da música “Que País é esse”, de Renato Russo, gravada pelo Legião Urbana).

O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil (…)
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil

(Trecho da letra da música “Querelas do Brasil” na gravação imortalizada por Elis Regina).

Em pesquisa do Instituto Ipsus Mori feita em 38 países e divulgada nesta quarta-feira, o Brasil ficou em segundo lugar entre as nações que menos têm noção da própria realidade, à frente apenas da África do Sul no ranking do Índice de Percepção Equivocada.

O estudo foi feito na comparação entre o que os entrevistados responderam sobre a vida em seus países em comparação com os dados oficiais.

Dois exemplos:

os brasileiros acham que 85% da população já tem smartphone (na realidade, o índice é de 38%)

os brasileiros acham que 83% já dispõe de conta no Facebook (dados oficiais mostram que o índice é de 47%)

Estes números mostram a realidade de dois Brasis bem diferentes, que não se conhecem.

O das grandes cidades, onde a maioria já utiliza estes apetrechos tecnológicos cruzando a toda hora com pessoas digitando ou falando em celulares. Ou seja, se até eu tenho, todo mundo deve ter.

Não é bem assim no resto do Brasil, este desconhecido, dos grotões e das periferias onde a maioria apenas sobrevive, o progresso ainda não chegou e ainda confundem banda larga com bunda grande.

O abismo é tão grande dentro do mesmo país que 9 entre 10 brasileiros pensam estar entre os mais pobres, como mostra outra pesquisa, divulgada nesta quarta-feira pelo Datafolha em parceria com a ONG Oxfam Brasil, que entrevistou 2.025 pessoas para medir a percepção sobre a desigualdade no décimo país mais desigual do mundo, onde 1% da população fica com 50% da renda da metade mais pobre.

Mesmo entre aqueles considerados mais abonados que ganham pelo menos R$ 4.700 por mês, 68% se acham pobres.

“As pessoas não têm ideia de quanta gente vive com tão pouco. Quem ganha R$ 3 mil por mês, claro, não se acha rico. Existe aquela visão de que rico é o milionário. Na novela, eles têm vários empregados”, explica o economista Naércio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, em reportagem de Júlia Barbon, na Folha.

Quem menos conhece, ou finge que não vê a realidade brasileira, certamente, são os nossos representantes no Congresso e a casta de marajás dos três poderes encastelados em Brasília, preocupados apenas em defender seus próprios interesses, bem longe do Brasil real.

Prova disso é que a reprovação de deputados e senadores chegou ao índice recorde de 60%, segundo a pesquisa Datafolha feita no final de novembro. Só 5% dos entrevistados consideraram a atuação dos parlamentares boa ou ótima, o pior da série histórica.

O que estas três pesquisas demonstram é que há um descolamento cada vez maior entre o andar de cima e o de baixo da nossa sociedade, entre governantes e governados, representantes e representados, entre Brasília e o Brasil.

Como diz Marta Arretche, professora da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole:

“É uma ilusão achar que, se combatermos a corrupção, a desigualdade vai diminuir. As causas são mais profundas: um atraso educacional imenso, desigualdade de oportunidades, discriminação racial e de gênero”.

Aquele Brasil das músicas de protesto de Aldir Blanc e Renato Russo podem parecer até cantigas de criança diante da brutalidade do atual cenário, em que se criou o “novo normal” da violência fora de controle e da compra de votos no Congresso, da desigualdade crescente e da perda de direitos, do aumento de privilégios e da impunidade seletiva para grandes sonegadores e corruptos em geral.

Vale repetir o apelo patético de Aldir Blanc no final da canção “Querelas do Brasil”.

Do Brasil, S.O.S ao Brazil

Do Brasil, S.O.S ao Brasil

Vida que segue.

É repórter desde 1964

Fonte: http://www.balaiodokotscho.com.br