Os Mashco nas cabeceiras do rio Madre de Dios, no Peru

José Carlos dos Reis Meirelles

Os Mashco são um povo indígena caçador e coletor (não fazem roçados) que se desloca por um grande faixa de terra composta pelas cabeceiras dos rios Madre de Dios, formador do rio Madeira, Las Piedras, Los Amigos, Tahuamanu, Purus, Juruá, Iaco, Chandlles e Envira em território peruano e também ocupam, sazonalmente, as cabeceiras dos rios Acre, Iaco, Chandlles e Envira em território brasileiro, no estado do Acre. Compreender a movimentação desse povo indígena e suas relações com outros povos contatados faz parte do ofício de quem se propõe a proteger estas populações.

Os Mashco falam uma língua do tronco Aruak, muito semelhante aos Manchineri do Brasil e aos Yine do Peru, fato já constatado pelos intérpretes Yine que mantêm uma conversa fluída com os Mashco, quando existe um contato. Dividem-se em vários grupos por diferentes rios, quase sempre se movimentando com mais de 150 pessoas. Nunca passam mais de dez dias em um local. São considerados isolados, em sua maioria. Um grupo em especial tem procurado o contato há bastante tempo. É deles que vamos tratar. E pode ser que através do entendimento de sua cultura de povo nômade possamos compreender melhor como e quando este povo se movimenta nas cabeceiras dos rios Acre, Iaco, Chandlles e Envira, no estado do Acre, e suas relações com os povos indígenas Ashaninka, Manchineri, Jaminawa e Madijá (Kulina), que habitam as cabeceiras desses mesmos rios. Os povos de etnia Pano sabem, desde sempre, que os Mashco são seus inimigos tradicionais.

Desde 1970 aproximadamente, um grupo de índios Mashco tem aparecido nas praias da margem esquerda do alto rio Madre de Dios, na altura do rio Pinquén, em território peruano. Tiveram contatos esporádicos com todos os tipos de pessoas ou agentes de instituições religiosas, organizações não governamentais e mais recentemente com agentes do Vice-Ministério da Interculturalidade do Peru.

Segundo informações passadas por meu amigo Luis Felipe Torres Espinoza, antropólogo peruano que trabalha no Vice Ministério da Interculturalidade e diretamente com os Mashco, apresento um histórico resumido destes encontros:

– As três Marias: Em 1970, três mulheres Mashco se aproximaram do posto de controle Pakitsa no rio Manu, no interior do Parque do Manu. Possivelmente fugidas de seu grupo ou sobreviventes dele. Não podiam fazer fogo nem caçar. Por volta da década de 1980 foram transferidas para a comunidade Diamante do povo Yine, localizada na margem direita do Madre de Dios, e logo depois para Shipetiari do povo Matsiguenga. A mais nova faleceu e as duas outras vivem com um Matsiguenga a 10 horas de Shipetiari, nas beiras do rio Pinquén.

-Captura de Alberto Flores: Em uma caçada nas beiras do rio Pinquén, os índios Yine de Diamante encontram um grupo Mashco que corre para mata. Um menino é alcançado e levado à comunidade Diamante. Foi criado por Nicolás Flores de quem herdou o sobrenome. Hoje tem família e reside em Diamante. Sua filha trabalha no posto de controle Mashco como cozinheira e intérprete.

-Captura de dois Mashco Piro: Em 1982, dois Mashco foram capturados por índios de Diamante e levados à comunidade. Negaram-se a falar, comer, beber ou receber presentes. Foram deixados aonde foram capturados e desapareceram deixando os presentes que receberam. Nunca mais foram vistos.

Índios isolados Mascho com as bananas que ganharam da Comunidade Nativa Monte Salvado, no rio Las Piedras
Índios isolados Mascho com as bananas que ganharam da Comunidade Nativa Monte Salvado, no rio Las Piedras

-Abandono do Posto Pusanga e ataque a um guarda-parque: No ano de 2011, o Posto de Controle e Vigilância Pusanga do Parque Nacional de Manu teve que ser abandonado devido à presença quase constante dos Mashco ao redor e que saqueavam facões, machados, panelas e banana. Em 14 de outubro do mesmo ano, em uma patrulha de rotina, o guarda-parque Jesus Keme Rojas foi flechado no ombro. Foi levado a Cusco e se recuperou. O posto foi abandonado.

-Os contatos realizados por Nicolás Flores, apelidado Shaco: Shaco foi um índio Matsiguenga casado com uma índia Yine que fixou residência na comunidade de Diamante. Teve sempre a intenção de contatar os Mashco. Em 1980, foi guia dos antropólogos Kin Hill e Hilliard Kaplan, em um estudo sobre vestígios e uso de recursos dos Mashco no Parque Nacional de Manu. Em 1982, participou da captura dos dois Mashco e adotou Alberto Flores. Shaco manteve contato com um grupo Mashco, na margem esquerda do rio Madre de Dios, em seus roçados do outro lado do rio, onde é o posto Mashco. Dava presentes aos índios na perspectiva de contatá-los, financiado por organizações religiosas. Seus filhos relatam que ele passava dias nos acampamentos junto aos Mashco. No dia 22 de novembro de 2011, Shaco foi flechado e morto pelos Mashco em seu roçado enquanto cozinhava macaxeira. O motivo de sua morte nunca foi devidamente esclarecido. Seus familiares foram atrás dos Mashco para se vingar, mas não os encontraram.

-Contatos realizados pelos filhos de Shaco: Logo depois da morte de Shaco foi construído o Posto de Controle Mashco pela FENAMAD (Federación Nativa de Madre de Dios), uma organização indígena com sede em Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre Dios. Os dois filhos de Shaco (Nicolás e Zacarias) foram contratados como agentes de vigilância. Segundo eles, fizeram vários contatos com os Mashco, à revelia da FENAMAD, o que é confirmado pelos índios de Diamante. Mas nada foi registrado. O Posto Mashco foi fechado em 2013, por divergências entre a FENAMAD e a comunidade Yine de Diamante.

-O caso de Mateo Italiano: Mateo é um índio Matsiguenga que trabalha com a medicina tradicional de seu povo. Dirigia o centro medicinal EORI, perto do igarapé Yanayacu, nos limites de Shipetiari e o Parque Nacional de Manu. Nos anos de 2010, 2011 e 2012, os Mashco várias vezes foram saquear instrumentos de ferro e alimentos no centro medicinal. Em 2013, o centro foi abandonado e Mateo se mudou para a beira do rio Madre de Dios, próximo à boca do Yanayacu. Mesmo assim, os Mashco continuaram a frequentar os roçados de Mateo. No dia 29 de outubro de 2014, oito Mashco visitaram sua casa e levaram roupas, machados, facões, mosquiteiros, entre outros bens. Mateo abandonou o local. Hoje, vive em Salvación, uma vila nas cabeceiras do rio Madre de Dios, onde se chega pela estrada de terra que vem de Cuzco, atravessando a cordilheira e descendo o Parque Nacional de Manu, na transição do altiplano para a Amazônia.

-Contatos diversos entre 2013 e 2014: Entre índios contatados, turistas e religiosos, como Mario Alvarez (pastor da comunidade de Diamante), vários contatos com os Mashco se deram, inclusive, com oferta de brindes. O problema é que o rio Madre de Dios é uma rota de turistas e pessoas que transitam entre Salvación, Atalaia, Boca Manu, Colorado e Puerto Maldonado. Não se pode fechar a única via de acesso desses municípios. Por conta disso, o tráfego fluvial é intenso. Existem firmas que têm barcos para turistas e que transportam todo tipo de mercadoria de comerciantes, além do transporte de madeira (na maioria ilegal) e do garimpo de ouro no rio Madre de Dios. Isso sem falar na produção de cocaína e suas implicações. Este é o entorno dos Mashco nessa região.

Avistamentos de Mashco de 2011 a 2015

Um grupo de aproximadamente 30 indivíduos Mashco, provavelmente parte de um grupo maior do interior do Parque Nacional de Manu, tem aparecido nas praias do rio Madre de Dios, na época seca, de maio a setembro, e mais recentemente durante o ano todo. Os registros dos guarda-parques do Parque, entre 2011 e 2014, reportam 40 avistamentos no setor do Pussanga e no igarapé Yanayacu.

Segundo os cadernos dos agentes de proteção da FENAMAD, entre janeiro e setembro de 2014, foram registrados 50 avistamentos. De junho de 2015 até o final do ano, 60 avistamentos foram registrados e fotografados pelo pessoal permanente do Vice-Ministério da Interculturalidade no Posto Mashco. Estamos falando de mais de 150 avistamentos entre 2011 e 2015.

Um grupo de índios Matsinguenga, provenientes do alto rio Ucayali e de outras localidades se fixa na margem esquerda do rio Madre de Dios, acima da comunidade de Diamante, do povo Yine,, localizada na margem direita do rio. Os Mashco passam a frequentar os roçados dos Yine em busca de banana, macaxeira e milho.

Índios isolados Mascho na Comunidade Nativa Monte Salvado, no rio Las Piedras
Índios isolados Mascho na Comunidade Nativa Monte Salvado, no rio Las Piedras

A FENAMAD aluga uma antiga pousada na margem direita do Madre de Dios, do outro lado da antiga “chacra” de Shaco, para criar um posto de vigilância, na intenção de proteger os Mashco. O posto é batizado de Nomole. Este trecho do rio é passagem de barcos que vêm de Atalaia e Salvación, cidades nas cabeceiras do rio Madre de Dios. Além disso, barcos de turistas, na maioria americanos e europeus, sobem e descem o rio para visitar o Parque Nacional de Manu. Houve até um tempo que as companhias de turismo colocavam em seus pacotes turísticos a possível visualização de índios isolados nas praias do alto Madre de Dios.

Agentes Yine de vigilância iniciaram um diálogo com os Mashco. O problema é que foram deixados sós, sem acompanhamento, o que gerou várias distorções no relacionamento com os Mashco.

Nesse ínterim, o governo peruano resolveu assumir definitivamente a proteção dos Mashco e, numa parceria com a FENAMAD, iniciou os trabalhos de proteção e o diálogo com eles, através de novos intérpretes e agentes de proteção Yine. Logo depois, acontece o incidente da morte de um índio Matsiguenga com o nome de Leo, que ficou conhecido mundo afora pela cobertura da imprensa sobre o caso. O que houve realmente ainda estamos por saber. Mas alguns fatos já foram esclarecidos:

Os Mashco estavam tirando macaxeira e banana de um roçado Matsiguenga em Shipetiari. Os Matsiguenga foram ver os Mashco e, dizem eles, atiraram para cima (fato desmentido pelos Mashco). Leo foi “ver os isolados” com um celular ligado e fones de ouvido. Recebeu uma flechada e morreu no local. Seu companheiro “atirou para cima”. Depois encontraram o arco do Mashco, melado de sangue, no local de onde partiu a flechada. Dois dias depois, os Matsiguenga se reuniram e saíram no rastro dos Mashco. Encontraram seu acampamento “atirando para cima” e os Mashco, sem tempo de pegar seus pertences, correram. Os Matsiguenga levaram tudo dos Mashco: arcos, flechas, ferramentas, e etc. Segundo os Mashco, os tiros não foram para cima, mas neles.

A partir daí os Mashco se deslocaram até as proximidades do Posto Nomole. Nos diálogos com os intérpretes Yine, pediram banana, pendão de flecheira ou tacana para fazer flechas e ferramentas para fazer arcos. Ficaram desarmados pelos Matsiguenga.

Dá para imaginar a fome que passa um povo caçador e coletor, que não pesca e nem consome pescado, sem arco e flecha para alimentarem suas famílias! Estive lá nesta época e sou testemunha da situação de penúria passada pelos Mashco. Para quem não sabe, o tempo de tirar pendão de flecheira é no mês de fevereiro. As que secam na flecheira não servem mais. Era agosto naquele tempo. Mas forneceram pendões dos Yine e alguma ferramenta e os Mashco voltaram a caçar. Nesse tempo, eles diziam que estavam matando macaco de cheiro e prego com pedras nas flecheiras, que são baixas e onde as pedras alcançam. Felizmente, o que não falta na região são pedras.

O pessoal do governo peruano se fixa mais abaixo, na margem direita do rio Madre de Dios, em um antigo posto de vigilância, chamado Mashco. Os índios, avistados pelos intérpretes Yine, agora renovados e trabalhando sempre acompanhados de antropólogos do Vice-Ministério, baixam o rio e se fixam mais próximos ao posto, no Parque Nacional de Manu. Dizem que estão a duas horas para dentro do Parque, provavelmente na beira de um igarapé chamado Pinquén, afluente da margem esquerda do rio Madre de Dios.

Ano passado, saíram para conversar com os intérpretes e receber bananas 60 vezes. Já existe um relacionamento de confiança estabelecido. O médico da cidade de Salvación, Dr. Fernando, que cuida dos índios da região, já fez um atendimento a uma mulher Mashco que foi ferida na mão por um tamanduá bandeira.

A saúde dos Mashco

Os Mashco agora estão bem alimentados. Eles acompanham as estações. Agora é inverno, tem muita fruta na mata, é fácil de caçar e rastejar e tem muita caça gorda nas florestas do Manu. Por consequência, eles também estão gordos. Quando falamos gordos, leia-se: fortes. Índios e índias isolados não engordam, ficam fortes.

Com todos esses contatos, os Mashco ainda não adoeceram de gripe. Isto é um caso único que vem intrigando o Dr. Fernando e o Dr. Douglas Rodrigues, médico brasileiro que tratou os Tsapanawa no alto rio Envira, e a mim também. Ou esse grupo Mashco é remanescente de uma epidemia e adquiriu resistência, ou conhecem alguma planta que cura vírus e vão ganhar o prêmio Nobel de medicina, ou têm a maior sorte do mundo. Já era para terem adoecido! Já tiveram contato com missionários, turistas de todas as nacionalidades, com os Yine e o pessoal do Vice-Ministério do Peru. E também têm aparecido sempre pessoas novas nos contatos. Agora são mais de trinta pessoas fotografadas e conhecidas por seus nomes.

papo_4

Teria que ser feita uma sorologia, como Dr. Douglas fez com todos Tsapanawa, que indicaria as doenças que já tiveram ao longo da vida e, por conseguinte, as que não tiveram. A sorologia indica, por exemplo, que tipos de vacina são mais urgentes de se aplicar. Se o grupo já teve sarampo não há necessidade da vacina. Pode se planejar os medicamentos mais necessários a partir dos dados da sorologia. Seria, fazendo uma comparação, um mapa da saúde dos Mashco.

Com todas as dificuldades inerentes ao processo do contato, os trabalhos do pessoal do Vice-Ministério, que ficam diuturnamente no posto, como Waldo Maldonado, Fritz Vilasante, Luis Felipe Torres, Lepe, além de Lorena Prieto e todo o seu staff em Lima, e dos trabalhadores e intérpretes, como Romel Ponciano (Yototle – nome que os Mashco lhe deram e que significa lontra), estão num bom caminho. Esperamos que a mudança de governo – as eleições para presidente no Peru serão neste ano – não acarrete descontinuidade neste louvável trabalho.