O trabalho como instrumento de inclusão social

 

A iniciativa, além de trazer dignidade a Francisco e Seleny , foi determinante no processo de inclusão social

Por meio de uma projeto inédito de autoria do deputado Ney Amorim, pessoas com down são inseridas no mercado de trabalho

Dell Pinheiro * – “Sem o seu trabalho, um homem não tem honra”, a célebre frase do cantor é compositor Gonzaguinha, escrita na canção “Guerreiro Menino”, traduz o significado da labuta diária e da responsabilidade que temos que ter para levar o sustento para os nossos lares.  E quando o trabalho passa a apresentar outros significados que não seja somente a reputação? Quando o exercício de uma profissão se torna algo imprescindível para o desenvolvimento pessoal e intelectual de algumas pessoas? Para Francisco das Chagas, 38 anos, e Seleny Viera, 32 anos, o sorriso no rosto e a disposição de enfrentar os desafios impostos pela vida, traduz de forma significativa a expressão do artista.

Francisco e Seleny tiveram a oportunidade de estarem inseridos no mercado de trabalho por meio de um projeto do deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), Ney Amorim (PT), até então inédito no Estado do Acre. Através da Resolução 208/2015, foi disponibilizado no legislativo acreano o percentual de vagas no quadro de funcionários às pessoas com Síndrome de Down. A iniciativa, além de trazer dignidade aos dois, foi determinante no processo de inclusão social. O que pode ser comprovado pelos familiares, que destacam pontos positivos nesse processo de transição. O exemplo de humanismo faz com que pessoas com deficiência, antes “segregadas” pela sociedade, deslumbrem novos horizontes.

Rachel Farias, diretora da Escola do Legislativo comentou sobre o processo seletivo para contratação da Seleny e do Francisco. “Fizemos inicialmente o contato com a direção da Apae e também do Dom Bosco. Procuramos conversar com aqueles que trabalham com esse público. Dos alunos atendidos naquela instituição, ele foi o que mais se adequou. Aliás, o Francisco é um dos servidores que mais colabora aqui na casa, um dos mais dedicados. Tudo o que ele faz é com responsabilidade. Também gostei muito do perfil da Seleny, que, ao lado de sua mãe, sempre visitou a Aleac em defesa dos direitos da pessoa com down. Os dois se dedicam de forma intensa tanto no trabalho, como no relacionamento com os outros servidores; eles são muito carinhosos. Os pais ligam para agradecer a oportunidade que deram aos seus filhos, o fato deles poderem ter uma profissão aqui na Aleac, principalmente pela socialização, o contato com outras pessoas que não são da família. Estamos muito felizes com a contratação. Eles têm limitações, mas em relação ao trabalho, não temos que reclamar, muito pelo contrário, só vieram somar. Acredito que está ação será ampliada”, destacou.

Parceiras

A assistente social da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) em Rio Branco, Fabiola Freitas, disse que a inclusão veio trazer uma realidade diferente para a família das pessoas com deficiência. “Eles almejam ter uma profissão, um trabalho com carteira assinada, ter horários, ter responsabilidade, se sentirem respeitados, vestir uma farda e olhar pra todos como cidadão de igual para igual; esse é o sonho de todos. O trabalho de inclusão que realizamos vem principalmente do desejo deles, segundo a família; e em terceiro dos nossos parceiros. Temos mais de 25 alunos da Apae incluídos no mercado de trabalho. Para a entidade está sendo muito gratificante essa iniciativa da Aleac. O sonho deles é ser respeitados. O trabalho transforma, traz sonhos, desejos e faz com que eles se realizem com o que executam diariamente”.

Fabiola destacou a importância das parcerias para o sucesso da ação.  “As parcerias vêm de forma muito rica. Temos a inclusão na Aleac, uma conquista que a presidente da Apae, Cecília Lima teve junto a Legislação para a realização desse projeto. A inclusão no mercado de trabalho de pessoas com Síndrome de Down foi uma conquista significativa para o Estado do Acre. Acho que toda sociedade passou a ter um olhar diferenciado em relação ao parlamento acreano. É gratificante ver logo na entrada da Aleac, um pessoa com down que lhe recebe com um sorriso no rosto. Foi lançada uma estrela no Legislativo que está brilhando intensamente. Pelo relato das famílias, tudo se renovou na vida dessas duas pessoas. Uma pessoa com deficiência é capaz sim, de transformar qualquer espaço, qualquer ambiente de trabalho como qualquer funcionário que se julga “normal”. Só temos que agradecer a sensibilidade do deputado Ney Amorim”.

Família

Pela super proteção, por conta do preconceito e por acreditar que a sociedade ainda não está totalmente preparada para lidar com pessoas com deficiência, muitos pais acabam isolando seus filhos, criando uma barreira social que atrapalha o seu desenvolvimento intelectual. A professora Suely Sampaio França, mãe da Seleny, disse que sua filha sempre foi sociável. “Um dos fatores para essa característica é o convívio com pessoas que não são da sua família. Quando ela terminou o ensino médio, ficou muito triste porque a escola era sua segunda casa, outro lugar para ela conviver socialmente. Percebemos que a Seleny adoecia quando ficava muito tempo em casa. Acredito que foi pelo fato do isolamento. E, quando surgiu essa oportunidade de trabalho na Aleac, foi uma “mão na roda”. Fiquei muito contente quando ela foi chamada. Minha filha tem uma necessidade grande de se socializar com outras pessoas, de se sentir útil e importante”, acrescentou França.

Seleny começou a trabalhar na Assembleia no dia do seu aniversário, 2 de fevereiro deste ano. “Esse foi um dos melhores presentes que ela ganhou. Depois desse período ela não adoeceu mais, pegou apenas uma gripe em decorrência do clima; credencio isso a nova forma de vida dela. Minha filha acorda às 5h, e vai logo se arrumando para ir trabalhar. A roupa que vai usar, ela mesma separa. Quando dá 6:30h já está maquiada e pronta para mais um dia na Aleac. Nos feriados e fins de semana, ela fica chateada porque não tem trabalho. A atitude do presidente do Legislativo foi muito bacana. Esse é um projeto exclusivo para as pessoas com down, pois já existem Leis que amparam outras pessoas com deficiência. O presente não foi somente para mim. Acredito que outras instituição também copiarão esse gesto. Agradeço imensamente essa atitude do presidente do Legislativo. Ele também tem um filho com down, porém, não acredito que a Lei foi criada só por essa razão. É algo maior, é a sensibilidade de uma pessoa, de um ser humano comprometido com as causas sociais”, salientou a professora.

A aposentada Lucila da Silva Correia, mãe do Francisco, disse que ficou receosa quando Francisco foi chamando para trabalhar na Aleac, mas logo acostumou com a ideia, principalmente pelo entusiasmo de seu filho.

“No começo, assim que ele foi chamado para trabalhar na Assembleia, fiquei nervosa porque ele estava com alguns problemas de saúde. Porém, me explicaram de que forma ele iria trabalhar e aceitei. O sonho da vida dele era trabalhar, era só o que o ele falava. Francisco está mais tranquilo depois que consegui essa profissão. Ele gosta do que faz, e faz com responsabilidade. Sempre comenta comigo que gosta de todas as pessoas que trabalham lá, e sinto que as pessoas também gostam dele, o tratam como uma pessoa normal. Por meio do trabalho, Francisco se tornou mais independente. Estou contente e satisfeita por ele está trabalhando, não pelo dinheiro, e sim pela felicidade dele. Sempre cuidei do meu filho com o maior carinho e muito amor. Agradeço primeiramente a Deus pelas oportunidades que são oferecidas ao meu filho; e em segundo lugar ao deputado Ney Amorim. Não o conheço pessoalmente, mas quero conhecê-lo, e dizer: muito obrigado por tudo. Sua iniciativa foi importante, pois resgatou a autoestima do Francisco”.

Mandato voltado para o social

Desde que assumiu a presidência da Aleac, o deputado Ney Amorim trata com muito esmero temas que trazem como protagonista principal a inclusão social, a defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Entre os projetos de Lei em defesa desse público, destacam-se a ementa que instituiu em maio de 2012, a Semana de Conscientização sobre a Síndrome de Down e o Programa Estadual de Orientação sobre a Síndrome de Down para profissionais das áreas da Educação e Saúde; a ementa que dispõe sobre a realização de exame de ecocardiograma nos recém-nascidos com down no Estado, e a instituição em 2013, de um selo que reconhece iniciativas empresariais que favorecem a integração das pessoas com deficiência.

O parlamentar falou com entusiasmos de mais uma ação assistencial desenvolvida pelo Legislativo. “Há dois anos atrás foi criada a Lei que determina a contratação de pessoas especiais para o quadro funcional da Aleac. Vejo isso tudo com muita alegria, eu mesmo tive a oportunidade de contratá-los. Essa foi uma das realizações mais significativas do meu mandato. Alguns acham que as pessoas com down são incapazes, que intelectualmente não podem desenvolver algo produtivo em determinada função. Eu, por ser pai de um jovem com down, que é o Ney Amorim Júnior, um presente de Deus, tive a oportunidade de conhecer, conviver e de saber que as pessoas com down têm uma capacidade extraordinária de aprender e exercitar alguma atividade. Então, nesse sentido, que decidir aprovar essa Lei. Francisco e Seleny, não estão somente aprendendo e vendo como funciona as ações no parlamento, mas sim somando. Hoje, eles cumprem um papel essencial na Assembleia. Tenho muito orgulho deles”, frisou Ney Amorim.

O deputado ressaltou que a Aleac saiu na frente, e que exemplos com o do Legislativo devem ser seguidos. “Quando se é tomado uma decisão como essa, vemos a necessidade de expandir o projeto de inclusão. Acho que setores públicos e privados deveriam aproveitar a capacidade de outras pessoas com down, ou que tenham outro comprometimento, físico ou mental. Muitos estão preparados para algum tipo de profissão, que podem ser contratados. Avalio o exemplo que estamos dando com muito entusiasmo. Enche-me de orgulho quando vemos que aquilo que idealizamos está servido de inspiração para que outras empresas possam está empregando essas pessoas”, conclui Amorim.

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