O Ter, o Ser e o Caixão de Defunto

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José de Anchieta Batista

Nesta semana, dediquei algumas horas ao estudo da Umbanda Sagrada, e deparei, por acaso, com uma abordagem sobre a PROSPERIDADE. Serviu muito para que eu mergulhasse em reflexões sobre o que significa alguém ser tido como próspero entre nós. Concluí que realmente estamos bem equivocados quanto a isso, diante do sucesso e da abundância patrimonial.

A real prosperidade não pode estar dissociada da felicidade interior. Ser próspero é viver com satisfação. Ser próspero é ser feliz. No transcorrer da vida, ou sofremos porque não temos, ou nos amarguramos porque não somos. O ter, no sentido material, vincula-se ao que é tido como riquezas deste mundo. O ser é constituído de valores que estão em nossa própria alma. Seria o nosso espírito visto de forma autêntica. Ou somos bons, ou estamos lutando para melhorar, ou somos maus.

Na prática do ter, juntamos riquezas e formamos nosso patrimônio, o que faz com que nos vejam como prósperos. Já na prática do ser, a prosperidade está no engrandecimento de nós mesmos, na sedimentação das virtudes, num estado de consciência que nos faz felizes.

Ninguém, com o juízo em seu devido lugar, vai condenar a luta pelo ter. Viver bem, ter conforto, viajar sempre, usufruir do que o dinheiro nos proporciona, não pode ser tido como algo errado ou nocivo. O que estamos abordando aqui é combinação do ser com o ter, a fim de que a prosperidade realmente exista.

É difícil tocar em tal assunto quando a luta pelas riquezas terrestres ocupa todos os nossos dias. Chegamos a repetir que “tendo dinheiro o resto se resolve”. Dentro de cada um persiste a miséria de valores com a ausência de significado dignificante. Há um deserto interior, no que tange à satisfação de ser. E se o viver não tem vida, estamos fora da prosperidade, porque ninguém é próspero, sendo infeliz.

Em nosso viver, ocupamo-nos com os falsos tesouros, desprovidos do que verdadeiramente nos faz crescer. São desnudos de essências que nos proporcionam um sentimento maior de elevação do ser. Acordamos vazios, perambulamos à toa durante todo nosso dia e retornamos ao leito com a mesma insatisfação que sempre nos acompanha. Não somos felizes e não sendo felizes, não somos prósperos.

Muitos ocupantes de cargos públicos desfilam diante de nós, com empáfia, externando riquezas usurpadas da pobre gente que o elegeu, usufruindo de um patrimônio que juntou criminosamente, em detrimento do sofrimento dos miseráveis, da falência da saúde, da educação, da segurança pública e de outras necessidades prementes do povo. Estes efêmeros poderosos, para mim, conduzem em si uma miséria maior do que a dos miseráveis ignorantes que vivem a seus pés. Há neles uma falsa prosperidade.

Às vezes uma conta recheada de dólares tem como dono um sujeito cujo coração está repleto de sentimentos nocivos, com a vida toda entregue à prática do ódio, do crime, da corrupção, do desamor.

Muitos já conheci que não tinham tempo para ir a um cinema ou a um passeio com seus filhos, mergulhado permanentemente nas ocupações com seu ilusório patrimônio. Um dia adoecem ou envelhecem e morrem. E sua contas bancárias recheadas não podem impedi-lo de ser despejado lá no cemitério.

Relembro que não estou aqui condenando quem é detentor de vultoso patrimônio, adquirido de forma honesta, sem ferir os bons princípios da convivência humana. Ter fortuna só se torna condenável quando se origina do mal ou dele se torna instrumento. Neste caso, a prosperidade é uma mentira.

Ao final de tudo só sobra o SER, porque caixão de defunto não tem gaveta onde se possa esconder o TER.

Viva a prosperidade!