O preconceito divide a humanidade em subespécies

O amor não tem gênero – Foto: Reprodução

No último domingo aconteceu a XI Parada do Orgulho LGBT, em Rio Branco, fechando a XI Semana Acreana da Diversidade. A edição deste ano teve como tema “Não é festa é revolução”, fazendo alusão ao dia 6 de agosto, comemoração da Revolução Acreana. O foco dos eventos promovidos, ao longo da semana, estava no enfretamento à violência contra essa população, que vem aumentando a cada ano. Em 2016, segundo a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais, 340 LGBTs foram mortos no Brasil. Em 2015, foram registradas 318 mortes, segundo informações do grupo.

Nas redes sociais, as postagens de divulgação da agenda de palestras, lançamento da cartilha de proteção dos direitos LGBT, rodas de conversas, audiência pública na Câmara Municipal, foram bem mais discretas, informativas e menos panfletárias que as postagens daqueles que compartilhavam vídeos e trechos de falas de condenação ao evento e à discussão aberta do tema. Panfletárias no sentido de fazer apologia a uma determinada causa ou ideologia, quase sempre fazendo uso de uma conotação negativa a tudo que se opõe a essa maneira de pensar.

Circularam vídeos de líderes religiosos, em sua maioria cristãos e evangélicos, de ex-candidatos à presidência do Brasil, políticos, celebridades e filhos de celebridades reafirmando a legitimidade universal da orientação heterossexual e dos tipos de gênero existentes, sem nenhum compromisso com alguma linha de pensamento científica ou teológica coerente. Apenas para expressar opiniões subjetivas em nome de Deus ou da ciência, defendendo o próprio ponto vista, com desconhecimento total do que pensa e pelo que realmente busca quem está do outro lado.

Defender que “ o comportamento homossexual fere as leis da natureza uma vez que a natureza fez os homens e as mulheres para procriarem e que se o homossexualismo fosse estimulado ao ponto de que a maioria da população se tornasse homossexual a espécie humana se extinguiria”; ou, ainda, a natureza criou apenas dois tipos de sexo “quando a gente nasce, por mais que se faça modificações (…) cada cromossomo é uma unidade que está dentro do núcleo (…) mudar a base genética XX e XY, eu não conheço” (Enéas Carneiro, em entrevista ao Roda Viva e ao programa da jornalista Marília Gabriela). E concluir que, por esses motivos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é possível e nem legítimo, soa como uma apologia. Já que estabelece um lugar para o que é certo e legítimo, através de recortes grosseiros extraídos da biologia básica, e de suposições advindas da imaginação sobre a consequente extinção da raça humana que não se fundamenta em nenhum dado empírico, deixando quem não se enquadra nessa fala de fora da sua condição de ser humano. Não só LGBTs, mas também homens e mulheres que não procriam porque não querem ter filhos, ou não podem, ou são celibatários.

Um dos direitos reclamados pela ABGLT é o da adoção, o que sinaliza o desejo de viver a paternidade e a maternidade, entre essas pessoas. Já foram publicadas reportagens de casais LGBT que para ter filhos recorreram tanto à fecundação natural, com a participação de alguém do outro sexo para fins de reprodução e com a concordância do parceiro, quanto à inseminação artificial, recurso também utilizado por muitos casais heterossexuais. Há tempos a sexualidade não anda mais a serviço da procriação, exceto em momentos bem específicos. Na Grécia antiga, relacionamento homossexual era uma prática comum e a população daquele país não foi extinta e tão pouco ameaçou a existência dos relacionamentos heterossexuais.

O que as associações que representam LGBTs querem é reivindicar igualdade de condições e direitos civis já assegurados a uma parcela da população, como: casamento, adoção, criminalização da homofobia.

Elaborar projetos que proíbem homossexuais de doar sangue porque, segundos dados divulgados de um único estudo levaram a crer que quem recebesse o sangue de pessoas com essa orientação sexual, em qualquer lugar do Brasil, teria 17% a mais de chances de ser infectado com o HIV é uma apologia, pelo mesmo motivo mencionado acima. Trata-se de atribuir significado às informações que fora do limite do seu contexto podem não ter nenhuma relevância científica, mas reforça a imagem negativa de um grupo com uma determinada orientação sexual em detrimento de outro. Esse projeto de lei nunca chegou a ser apresentado para votação pelas críticas negativas que gerou e que fizeram seu autor, deputado Jair Bolsonaro, voltar a trás.

A maior utilidade da circulação desse tipo de apologia talvez seja o de fazer pensar que o preconceito divide a humanidade em subespécies, não importa se a partir de características atribuídas à herança genética ou ao comportamento, cujas diferenças nos aproximam ou distanciam de um modelo ideal, pretensamente eleito e dominante, de acordo com leis divinas ou da natureza. Como um dia se pensou na humanidade dividida em raças, e, inevitavelmente umas foram chamadas de primitivas por serem consideradas menos evoluídas e desenvolvidas que outras. Nesse caso, lésbicas, gays, transgêneros e transexuais são menos evoluídas que os heterossexuais.

A esse respeito o sociólogo Antônio Sérgio Alfredo Guimarães escreveu uma reflexão, Como Trabalhar com ‘raça’ em Sociologia, onde propõe: “Vamos voltar, por um momento, ao final do século XIX para lembrar que quando a sociologia se forma — lemos isso em Marx (1974), em Durkheim (1970), em Boas (1940) — ocorre um deslocamento em termos de explananda: abandonamos as explicações sobre o mundo social baseadas em raça ou clima, em favor de explicações baseadas no social e na cultura. Que ideia é essa? É a ideia de que a vida humana, a sociedade política, etc., não são determinadas, de uma maneira forte, por nada além da própria vida social. (…) Aquilo que chamamos de natureza física pode ser considerado, de agora em diante, como simples condicionante da vida social. (…) A biologia e a antropologia física criaram a ideia de raças humanas, ou seja, a ideia que a espécie humana poderia ser dividida em subespécies, tal como o mundo animal, e de que tal divisão estaria associada ao desenvolvimento diferencial de valores morais, de dotes psíquicos e intelectuais entre os seres humanos. Para ser sincero, isso foi ciência por certo tempo e só depois virou pseudociência..(…) As sociedades humanas constroem discursos sobre suas origens e sobre a transmissão de essências entre gerações. Esse é o terreno próprio às identidades sociais e o seu estudo trata desses discursos sobre origem. Usando essa ideia, podemos dizer o seguinte: certos discursos falam de essências que são basicamente traços fisionômicos e qualidades morais e intelectuais; só nesse campo a ideia de raça faz sentido.”

Quando se fala do conceito de gênero e sexo, e até do comportamento humano, será que não se está cometendo o mesmo erro de falar a partir de velhos discursos, construídos sobre as origens e transmissão de essências entre gerações, que não são mais do que qualidades morais e intelectuais valorizadas por um grupo? Um grupo que insiste em não admitir que muitas questões ainda permanecem em aberto?

É Psicóloga Clínica, especialista em Neuropsicologia pela Faculdade de Medicina da USP