O pedreiro encanador e a filosofia

José Augusto Fontes

Um pedreiro que trabalha aqui em casa, além de ser excelente profissional, com habilidades variadas, mostrou ser filósofo. Um dia desses, ele me viu assistindo pela televisão a transmissão de um julgamento feito em uma corte de justiça brasileira. Foi passando ao lado do aparelho, olhou muito rapidamente e disse, como se falasse pra ele mesmo, mas representando uma conclusão já tomada por muitos: – falam, falam… e nada!

Ainda não ouvi melhor definição sobre o momento social, político e jurídico do nosso país. Sim, a situação jurídica vem tendo mais destaque e causando mais preocupações do que a situação econômica. A maioria vem percebendo que os políticos não estão resolvendo nada. E que quando a saída jurídica parece ser certa, nada acontece, apesar de muitos discursos. Nem bem a pessoa começou a criar defesa para uma acusação, surgem outras.

Os dias se vão passando. Em cada um deles novas constatações tornam mais vergonhoso o momento, que de tanto se repetir, virou um período grande e tortuoso. Aparentemente, não há fim próximo, pelas vias cansadas e envelhecidas. Os poderes estão apodrecendo, os sistemas estão falindo, mas ainda há extraordinário apego. Nem sei se ele viu um homem usar a espada do poder para desejar a degola de outro. Esse, igual a muitos, falou e falou, mas nada disse. O poder continuou envelopado e o povo restou cabisbaixo.

Nesse dia o pedreiro polivalente trabalhou lá em casa como encanador. Ele faz tudo com habilidade, mas não sabe ler. O acesso à escola em nosso país nunca foi para todos. Educação e cultura não estão no papo. Nosso filósofo aprendeu com o mestre mundo. Parece conformado em enxergar problemas políticos e sociais, sem nada poder fazer. Mas trocou direitinho o sifão da minha pia, sem gambiarra. Ele sabe que as gambiarras um dia se revelam. Ele saiu e eu fiquei pensando que mais filósofos assim fariam muito bem ao Brasil.

Cronista