O NOSSO MANICÔMIO

Para começar, ressalto que não possuo qualquer formação acadêmica em qualquer uma das ciências que cuidam das psicopatologias, ou de algo parecido. Meu jeito de ser não se enquadraria. E isso é verdade. Imagino-me nesta condição, como discípulo de Freud, tratando de pacientes malucos como eu. O consultório se tornaria um ambiente de desvarios mútuos, em que o meu lugar, n´algumas vezes, deveria ser o divã, e o cliente, tido como doido varrido, passaria a dirigir a sessão de cura. Não estou com gozação. Em se tratando deste assunto, embora eu nunca tenha buscado os diagnósticos das minhas patologias da alma, decerto devo estar enquadrado num rosário de diversificadas esquizofrenias. E elas só não são mais vistas, inclusive por mim mesmo, porque todo o mundo padece de males congêneres, com afetação individual ou coletiva. Não é falsa aquela frase da música de Sílvio Brito: “Tá todo mundo louco!”. E não tem jeito. Ou você é louco ou a sociedade o obriga a sê-lo.

Amigos, não tenho qualquer dúvida de que o mundo nada mais é do que um enorme manicômio. O Planeta Terra é um grande celeiro de desequilibrados comportamentais. É só observar. Uns mais, outros menos, mas todos temos algum parafuso frouxo ou fora do lugar. O interessante é que, pelas convivências mantidas nestes meus setenta e dois anos de vida, nunca vi um doido que admitisse ser doido. Quanto mais maluco, mais se julga plenamente são.

Nesta permanente confusão esquizofrênica, tenho exercido cotidianamente as minhas maluquices, mas estou sempre de olho nas doideiras dos companheiros de jornada. Por isso, contarei aqui uma historinha que me ficou bem gravada:

– Há alguns anos, tive que me submeter a exames complementares de um concurso público. No consultório do médico que emitiu meu laudo neuropsiquiátrico, vivi um momento muito peculiar. O homem de branco, depois de responder por entre os dentes, ao meu ‘boa-tarde!”, apontou-me uma cadeira e me mandou sentar. No mesmo instante, levantou-se, bateu três vezes na mesa com as palmas das mãos, rodeou-a apressadamente, voltou a bater mais três vezes, sentou-se de novo, ajeitou os óculos na cara, assobiou algumas notas musicais e iniciou um rápido interrogatório sem pé nem cabeça. Nunca me esqueci daquela cena. Até hoje acho que, entre nós dois, o mais maluco naquela sala, era exatamente o doutor. Nosso diálogo não demorou mais de dez minutos. Saí dali apto para ocupar meu cargo público. Tudo plenamente normal. Nada fora da bitola. O mundo é assim mesmo. Doido cuidando de doido.

A vida, para mim, nada mais é do que um vai e vem de desatinados, que se cruzam incessantemente, numa ciranda sem fim. É uma eterna tragicomédia, num cenário de vida e morte, em que os atores se sucedem, ao som de uma sinfonia em que predomina o pranto.

Como creio num Deus perfeito, só posso admitir que, por trás de tudo isso, exista um sentido que não conseguimos compreender.

E haja malucos!