O golpe enterrou a política tradicional brasileira

Emir Sader

A vida política brasileira depois da ditadura militar se organizou em moldes parecidos com aquela anterior a 1964. A única novidade foi o PT. Os outros partidos replicavam, pouco mais, pouco menos, os que existiam antes do golpe.

PMDB, PFL, PTB, PDT, PSB, PC do B, tinham tido sucedâneos. Expressavam as formas tradicionais de organização política no Brasil, baseados nas formas de representação política e parlamentar já conhecidas.

Mesmo as aparentes novidades de Fernando Collor e do PSDB, eram formas distintas de representação, com o mesmo conteúdo dos outros partidos. Os pequenos partidos de ultra-esquerda – PSTU, PSOL, PCB, entre outros – embora sempre pretendam representar algo novo, são parte do mesmo quadro político antigo, anterior ao golpe.

O processo político reorganizado com o fim da ditadura teve o esgotamento do PMDB na forma em que ele tinha protagonizado a oposição à ditadura, com o fracasso da transição democrática do governo José Sarney. O PFL, depois DEM, expressa a direita tradicional, o PDT buscou a continuidade do PTB de Getúlio Vargas. Os tucanos quiseram ocupar um espaço social democrata, mas rapidamente aderiram ao neoliberalismo – como seus parentes europeus –, e passaram a ser o novo eixo da direita brasileira.

Durante os governos do PT, este passou a representar o eixo da esquerda contemporânea, antineoberal, enquanto os outros partidos foram se reacomodando à polarização PT-PSDB. Alguns, como o PMDB, se aliando por um tempo ao PT, o DEM aliado aos tucanos, o PSB e o PDT oscilando, sem identidade própria. O PC do B, como aliado estratégico do PT. A Rede, como uma busca infrutífera de uma “terceira via”, que nunca foi tal, terminou aliada dos tucanos e, depois, apoiando o golpe.

As quatro eleições presidenciais pós-FHC foram protagonizadas por esse bloco de partidos, com poucas oscilações. Até que a aventura golpista, que era para terminar com o PT, acabou gerando o funeral de praticamente todos os partidos tradicionais e da sua própria forma de fazer politica. E, paradoxalmente, no seu fracasso, fortalecendo a um único partido – o PT.

O PMDB, que congregava grande parte das formas clientelistas de fazer politica, sem capacidade de disputar liderança nem com o PSDB nos anos 1990, nem com o PT nos anos 2000, finalmente foi projetado para o centro da cena política e exibiu todas suas mazelas, revelando o pior da política brasileira tradicional: além do clientelismo, corrupção desbragada, mediocridade, falta de ideias próprias, incompetência política, entre outras. Hoje, no governo, ao invés de se firmar como o novo eixo da direita brasileira, tornou-se uma mancha que ninguém quer que o atinja, sob o risco de herdar a falta absoluta de legitimidade e de apoio político do governo Temer. Um gigantesco movimento centrífugo ameaça desintegrar nacionalmente o PMDB, de forma similar ao que já aconteceu com a implosão do partido no Rio de Janeiro. Dos dados seguros da política futura no Brasil é a desaparição do PMDB como partido importante.

Os tucanos, derrotados quatro vezes sucessivas pelo PT, escolheram participar da aventura golpista e agora têm todas as possibilidades também de se desintegrar. A perda do lugar de partido eixo da direita brasileira para o PMDB o faz secundar, sem nenhuma identidade própria, o governo golpista, dilacerado entre arrependimentos tardios e imersão definitiva no governo do golpe, com as trágicas consequências desse destino. Perdeu completamente sua identidade, dividido entre correntes e personalidades desencontradas, sem qualquer nome para voltar a disputar a campanha presidencial com alguma possibilidade, como havia ocorrido desde 1994.

O que termina, com o golpe, é a disputa eleitoral com os partidos tradicionais como seus protagonistas. O próprio PT já não poderá mais desenvolver uma prática política que contava com alianças com alguns desses partidos ou com setores deles. Nem tampouco poderá fazer campanhas eleitorais contando com o financiamento privado e o protagonismo central de marqueteiros. Quanto aos pequenos partidos de ultra-esquerda, sem proposta concreta para o Brasil, seguirão cumprindo seu papel impotente de crítica restrita, sem apoio popular.

Porém, o elemento de fundo da possibilidade de sobrevivência do PT é que um dos polos da oposição neoliberalismo/antineoliberalismo se esgota com as políticas de ajuste do governo golpista, fracassando e arrastrando consigo os partidos que protagonizaram o golpe e sofrem duramente suas crises terminais, ao identificarem-se com ele.

O PT, por encarnar coerentemente até aqui, mesmo se de maneira moderada, políticas antineoliberais, pode seguir personificando a alternativa ao projeto do governo golpista, contanto que saiba renovar suas formas de ação, acondicionadas às transformações apontadas neste artigo e a outras mais, para uma superação definitiva o neoliberalismo. Entre estas transformações novas, a necessidade imperiosa de quebrar a hegemonia do capital especulativo na economia e dos meios monopolistas privados na formação da opinião publica.

Terá também que se reinventar como partido, abrindo-se para os setores até aqui quase que totalmente ausentes da política, como especialmente as mulheres, os jovens e os negros, entre outros. Terá também que seguir redefinindo sua relação concreta com os movimentos sociais e com o conjunto do movimento popular. Terá que formular alternativas estratégicas para o Brasil, mais além do programa de governo de reconstrução nacional, encarando a necessidade de uma nova estratégia democrática para o país, articulada com uma perspectiva anticapitalista.

Mas o Brasil, depois da mais prolongada e profunda crise da sua história e do governo mais anti-popular, anti-democrático e anti-nacional que o país já conheceu, nunca mais será o mesmo. O próprio sentido de fazer política, de ser representante parlamentar do povo, de ser líder da esquerda e de dirigir o país, serão outros.

É um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

Fonte: https://www.brasil247.com