O Golpe de 2016 fracassou. Mas isso pode não ser uma boa notícia

Antonio Escosteguy Castro

O Brasil sofreu um golpe de estado em 2016, mas não um golpe militar das antigas, como na década de 60. Foi um golpe de novo tipo, testado antes no Paraguai e Honduras, desfechado por um condomínio de grupos parlamentares, setores do Judiciário e da elite empresarial, capitaneada pelos grandes conglomerados da mídia.

O roteiro do golpe, em resumo, começava por afastar Dilma Rousseff da Presidência e colocar o PT sob perseguição judicial. Temer, o vice decorativo, assumiria um governo transitório, que resolveria a “crise fiscal” criada por Dilma e realizaria as reformas necessárias à retomada do crescimento econômico. Coroando o processo, nestas eleições de 2018 um grande nome do PSDB seria eleito presidente da República, com o apoio do Mercado, e teria a legitimidade política para implementar na íntegra o programa neoliberal que fora derrotado nos 4 pleitos anteriores.

Mas o Governo Temer foi um desastre completo. No lugar de crescimento, a maior depressão econômica de todos os tempos. Treze milhões de desempregados. A questão fiscal, mesmo com a PEC do Fim do Mundo, só se agrava, em função da enorme queda de arrecadação. As reformas travaram, e aquela aprovada, a Trabalhista, não gerou efeito prático, deixando o desemprego no mesmo altíssimo patamar. E, por fim, com a sucessão de escândalos, como a Mala de Dinheiro, o Cel. Lima, o Rodoanel , a gravação do Aécio, a JBS , fracassou o intento de concentrar as acusações de corrupção apenas no PT , espraiando a sensação de que havia uma roubalheira generalizada em todos os partidos.

As eleições de 7 de outubro passado dizimaram o Condomínio do Golpe. PSDB e REDE, que nas eleições de 2014 haviam feito, juntos, mais de 55% dos votos, não chegaram a 6%.

PSDB/MDB/PTB/DEM/PP/PSD perderam 72 deputados, ou cerca de 30% de suas bancadas. De 15 governos estaduais que tinham, no primeiro turno só venceram em 5. Boa parte da cúpula parlamentar do golpe foi varrida do Congresso: Jucá, Imbassahi, Mendonça Filho, Eunício, Lobão, Roberto Freire, Cristóvão Buarque, Cristiane Brasil, Paulinho da Força e muitos outros não conseguiram se reeleger. O baixo clero em parte sobreviveu, mas foi uma das maiores renovações da história da Câmara, com 52%.

A Esquerda, principal alvo do Golpe (em particular o PT) mesmo debaixo de mau tempo sobreviveu. PT/PDT/PSB/PC doB/PSOL juntos inclusive ampliaram suas bancadas em 14 vagas. Tinham 11 governos estaduais e elegeram 7 neste primeiro turno. Fernando Haddad, do PT, vai ao segundo turno presidencial, e a votação conjunta com o PDT de Ciro Gomes soma 42%, apenas 4% inferior a Bolsonaro. Ainda que a esquerda não possa cantar vitória, fez muito mais em 7 de outubro do que lhe reservava o roteiro do Golpe.

O problema é o outro contendor do segundo turno presidencial, Jair Bolsonaro. O militar reformado fez mais de 46% dos votos como um candidato anti-sistema, anti-establishment. Capitalizou um sentimento de grande parte da população de rejeição à política, colocando-se como um “ outsider”, embora tenha quase 30 anos de vida exclusivamente parlamentar. Mas sua plataforma e sua trajetória política denotam um perfil mais do que meramente autoritário, levando a acusações de fascismo. Para afastar-se de Temer e dos golpistas (com os quais sempre se entendeu bem e votou conjuntamente) cercou-se de uma equipe que mescla iniciantes na política (como o trapalhão general vice-presidente) com personalidades polêmicas, como seu guru econômico, Paulo Guedes, que não é bem visto nem por seus colegas de profissão e geração. Bolsonaro aposta até numa mudança do eixo midiático, afastando-se do condomínio Globo/Folha/Abril/Estadão que regeu o Golpe, c trazendo para o centro do placo Record/SBT/Band.

A vitória de Bolsonaro sepultaria de vez o Golpe de 2016, mas o que traria em seu lugar é ainda mais ameaçador para o Brasil. Viria uma era de enorme instabilidade, com um presidente sem base parlamentar, sem ligações orgânicas com os agentes econômicos e que inspira uma violência social nunca antes sequer sonhada no Brasil, mesmo nos tempos da Ditadura Militar. Seria o golpe dentro golpe, na pior tradição latino-americana.

A derrota dos golpistas de 2016, portanto, não necessariamente leva à normalização democrática do Brasil e muito menos ainda à retomada de um crescimento econômico inclusivo, não apenas direcionado ao rentismo e ao capital financeiro e especulativo, como no Governo Temer.

Pode ser um velho chavão, mas o conflito em 28 de outubro é entre a Civilização e a Barbárie.

É advogado

Fonte: https://www.sul21.com.br