O desgoverno, o marketing e a vírgula

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Ricardo Miranda

Michel Temer fez nesta terça, 15, em cerimônia fechada no Palácio do Planalto, balanço de 2 anos de seu governo. Falou o que se esperava do presidente mais impopular da história do Brasil. Vendeu o paraíso e só deixou na platéia quem não fosse cair na gargalhada. Destacou a redução da inflação, a queda da taxa de juros e o teto de gastos. Deve ser bom morar no Brasil vendido por Temer. Porque no país real a coisa está feia. Temer omitiu, por exemplo, a queda de empregos com carteira. Também não há referências mais enfáticas sobre o combate à corrupção, o que é sintomático, na publicação “Avançamos – 2 anos de vitórias na vida de cada brasileiro”, distribuída pela Presidência à imprensa. Até a fracassada intervenção no Rio foi colocada na lista de feitos. A cerimônia, no entanto, virou piada pronta antes mesmo de começar por causa de uma lambança inacreditável da turma do marketing.

O convite distribuído nos últimos dias a autoridades pelo cerimonial do Planalto fazia referência aos 50 anos em 5 prometidos por Juscelino Kubitschek. Para o Planalto, assim se resume o governo Temer: “O Brasil Voltou, 20 anos em 2”. Até as espinhas de um estagiário de propaganda percebem que tem algo de muito errado nessa frase, fora a deslavada mentira e a comparação histórica desleal. As redes sociais deram a resposta rápido e intensamente tirando a vírgula e criando um meme irresistível: “O Brasil Voltou 20 anos em 2”. Obviamente, explodiu a crise e o slogan considerado desastroso até por aliados teve de ser alterado de última hora.

Segundo apuraram os bons veículos do ramo, Temer chegou a convocar o marqueteiro Elsinho Mouco e o ministro Moreira Franco – atualmente escalado nas Minas e Energia -, para cobrar a comunicação do governo. Os novos convites para a cerimônia voltaram, então, a ter os dizeres dos primeiros exemplares: “Maio de 2016 – Maio de 2018 — O Brasil Voltou”. Voltou pra onde, cara-pálida?

Tão fake quanto a publicação “Avançamos – 2 anos de vitórias na vida de cada brasileiro”, que traz na capa um homem loiro fazendo o V da vitória, um típico cidadão brasileiro – é a data do evento. O governo completou dois anos no último dia 12, no rastro do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O governo, porém, decidiu marcar a comemoração para esta terça, 15, às 15 horas. Quinze também é o número do MDB na campanha eleitoral. Genial.

E para não dizerem que não falei de política, Temer teve que encaixar no evento dois pré-candidatos presidenciais, o pré-pré-candidato do MDB e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, e o presidente da Câmara, o demista Rodrigo Maia. Claro que nenhum dos dois tem a menor chance e Temer já sabe que deixará o Planalto sem fazer seu sucessor. Como parece que desistiu mesmo de concorrer – o que é aconselhável para quem é reprovado por 70% dos brasileiros e aprovado por 4% -, Temer fez um discurso morno, falando de “legado” e jurando que “tirou o Brasil do vermelho”. Não se sabe se quem escreveu o discurso, nesse caso, quis dar um duplo sentido.

Jornalista

Fonte: https://osdivergentes.com.br