O COMISSÁRIO

José Augusto Fontes

No cenário da minha infância e adolescência se desenhou um mundo de personagens maravilhosos, que hoje eu tento bem relembrar, pois cada um foi assim como uma peça rara num tabuleiro de sonhos, onde o conjunto dessas peças agiu ordenadamente para que eu entrasse no mundo e me tornasse um ser real, que caminha pela estrada que veio dali, a qual, volta e meia, circunda aquele cenário, ainda atual, como se piscando os olhos e as lembranças eu possa viver tudo novamente.

O comissário era um senhor que ficava à frente da entrada do Cine Acre, olhando tudo, conferindo, inibindo e exercendo autoridade. Meninos como eu o temiam e evitavam, quando isso era possível, porque para entrar na sala dos filmes tinham que passar por ele, que sempre estava ali, com sua camisa branca e um pedaço de tecido preto no bolso esquerdo, sinalizando luto.

Ele era moreno claro, não muito alto, meio gordinho, cabelo curtíssimo, olhos frios e calados, apesar de atentos e inalcançáveis. Jeito sério, sem sorrisos, um homem estático como uma grande barreira antes da felicidade. Para os meninos, era a divisa entre o mundo e a ficção, que estava ali porque a felicidade deve ser conquistada, ainda que por curtos momentos, já que estar sempre nela não era algo fácil. Parece que ainda hoje não há caminho certo.

Naquele tempo não existiam carteiras de identidade para “menores” e o comissário fazia a triagem com aqueles olhos de serpente. Os meninos queriam entrar no cinema e ver os filmes proibidos, nas sessões das noites. Exemplos? Laranja Mecânica ou O Último Tango em Paris, exibidos no Cine Acre do meio para o fim da década de 1970. Menino não podia ver aquilo, mas menino queria ver, porque queria. Os que tinham mais altura, como eu, tentavam se passar por “maiores”. Raras vezes dava certo, pois na maioria, o comissário barrava. Por isso, ele ficou gravado na lembrança, assim como deve ser São Pedro, na entrada para o céu.

Nas sessões de matinê a situação era outra, pois os menores estavam liberados para ver filmes de faroeste, do Tarzan, comédias e românticos. Filmes italianos românticos, ou americanos de faroeste, por exemplo. Nessas ocasiões a meninada levava os gibis para trocar, havia muita diversão, o papo corria solto, outros encontros eram marcados, inclusive, com as meninas que compareciam às sessões de domingo, lindas como atrizes, do lado de fora das telas.

De tarde e de noite, o Comissário estava sempre por ali. Eu nunca soube a razão daquele luto constante, mas suponho que era em memória da esposa dele, pois aparentemente o Comissário não tinha família e sua vida era fiscalizar. Nunca o vi sorrindo frouxo, talvez ele não se permitisse. Mas tenho certeza de que, muitas vezes, ele me deixou entrar em alguns filmes que ele mesmo considerou menos proibidos, fazendo de contas que não estava me vendo, apenas para liberar acesso à felicidade. Aos poucos, ele foi me deixando passar da meninice pura…

Menino também não podia transitar pela rua no bem andado da noite. De nove horas pra frente era tarde pra menores. Passar pela frente do fiscal era impensável e a gente atravessava a rua e caminhava pelo outro lado, olhando para a parede ao lado do Hotel Chuí, na nossa imaginação, deixando só a cabeça, a nuca e as orelhas a vista. Como os cabelos eram sempre curtos, era o que dava para fazer. A gente vinha da pracinha, geralmente, onde era possível ver as moças mais crescidas e sonhar com suas atenções. Também era meu caminha de volta lá do Cine Rio Branco, da Praça do Palácio e das regiões mais abaixo da minha casa, na direção do Rio Acre, sempre pela Getúlio Vargas.

Algumas vezes, quando meu avô me mandava comprar esfihas, quibes e refrigerantes na lanchonete Cinelândia, lá na esquina, eu passava credenciado, pois se ele me parasse, eu diria que estava sob as ordens de Lauro Fontes. Acho que o Comissário sabia disso e fazia vistas grossas. Ele conhecia e respeitava o velho, via nele uma hierarquia natural, como um coronel de barrancos e comerciante sério, algo assim. Por isso, eu passava sem medo e voltava com as compras à mostra, como um troféu. Pra mim, nunca existiu nem existirá autoridade maior do que o velho Lauro. E ponto final.

Cronista