Meninos de Turvo no Acre

Sem vocação para padre, eles permaneceram bons cristãos – Fotos: Cedidas

ELSON MARTINS

Aos menos avisados: Turvo é um pequeno município brasileiro localizado no sul de Santa Catarina (tem 244 quilômetros quadrados de área e menos de 12 mil habitantes, segundo o censo do IBGE de 2010). Mas exibe fama de “capital da agricultura” com aplicação de boa tecnologia. E uma curiosidade: distante cerca de 4 mil quilômetros do Acre, mantém desde meados do século passado uma forte ligação com o estado pelo lado da religiosidade.

É que, lá, prosperou um seminário da congregação Servos de Maria que formou algumas centenas de bons cristãos, hoje espalhados por diferentes regiões do país. Para o Acre, encaminhou pessoas que fizeram e continuam fazendo história. Algumas das mais conhecidas são o bispo D. Moacyr Grechi, o também bispo D. Giocondo, morto num trágico acidente aéreo, o padre Paolino Baldassari, pároco de Sena Madureira falecido recentemente, e o frei Heitor Turrini…

Recrutados por D. Moacyr, hoje arcebispo de Porto Velho (RO), vieram já nos anos 1970 os educadores Itamar Zanin e Evaristo de Lucca, que montaram o Colégio Meta (antigo Colégio N.S das Dores e hoje em transformação para Museu dos Povos Acreanos) com nova e ousada proposta educacional, inspirada, de certo modo, na Pedagogia dos Oprimidos do Paulo Freire; vieram também os jornalistas Silvio Martinelo e Antônio Marmo, que ajudaram a fazer o jornal alternativo Varadouro, valoroso porta voz dos seringueiros, ribeirinhos e indígenas; além do professor de Filosofia (UFAC) Silvio Birolo, entre outros.

Esses camaradas que aos 12, 13 anos de idade começaram a viver como internos no seminário de Turvo, com a ideia de se tornarem padres, acabaram procurando outro rumo por falta de vocação religiosa. O próprio D. Moacyr se encarregou de manda-los para outra atividade, sem, naturalmente, se desligarem dos ensinamentos que os orientava, primeiro no ensino fundamental em Turvo, depois no secundário em São José dos Campos (SP) e, por fim, no noviciado superior em São Paulo ou na Italia.

Foi o que aconteceu. Em Janeiro de 2015, cerca de 150 não vocacionados promoveram o primeiro encontro nacional Os Meninos de Turvo, na matriz, juntando todos como “bons cristãos, como declarou D. Moacyr nesse evento histórico:

“Eu me sinto feliz ao rever cada um e até mesmo reconhece-los, e embora muitos não tenham seguido o caminho de padre, estão conseguindo seguir um caminho de verdadeiros cristãos. Eu queria que nós, Servos de Maria, aprendêssemos com Nossa Senhora, como um velho pai ou velho avô ao ver os filhos, ao ver cada um deles como continuam parecidos”.

No Acre, todos parecidos

Nesta segunda semana de Junho, 14 dos “meninos, hoje na faixa dos 60 de idade, começaram a chegar para o terceiro encontro nacional em Rio Branco. São professores universitários, empresários, advogados, administradores com a vida bem resolvida. Vieram acompanhados de suas “meninas”, todos e todas curiosas em conhecer o Acre. Somados com os que já vivem aqui, somaram duas dezenas de turvenses com boas histórias a contar.

Itamar Zanin e Silvio Birolo foram os principais anfitriões. Na quinta-feira, a turma se concentrou no sitio do Itamar, na estrada do Quixadá, na verdade um pomar com muitas espécies frutíferas da Amazônia e de outras regiões. E também muitas flores em volta de uma casa aprazível, com açudes em volta, um deles com tambaquis prontos para o abate. Claro, o almoço foi costela assada de tambaqui.

Após um passeio pelo pomar, enquanto os peixes assavam num fogão a lenha, a turma sentou em duas mesas grandes e juntadas, para que cada um relatasse em 5 minutos sua trajetória de vida em Turvo e fora de Turvo. Os relatos eram parecidos, com elogios a D.Moacyr Grechi, que parece ter sido a figura mais presente e expressiva do Seminário, e o que ficou em cada um da ética, da disciplina, da orientação religiosa dada.

Na condição de repórter por um dia, convidado para o almoço, me atrapalhei com a grafia dos sobrenomes do pessoal. Mateus Remarchi, José Philippi, Paulo Scarabelot, Luiz Cirimbelli, Alirio Favarin, Venâncio Menegaro… Os demais eram menos complicados, mas dDu pra intuir que todos tem parentesco com migrantes italianos.

O que intuir dos relatos?

Primeiro, que tiveram ampla liberdade de escolha: podiam sair do Seminário esquecendo a ideia de ser padre, sem levar mágoas. E sem jamais esquecer dos outros “meninos”, até hoje bons amigos. Segundo, a direção do Seminário nunca passou a mão na cabeça dos sem vocação (Não tem, sai!), mas não os abandonou. D. Moacyr decidia sobre a exclusão com naturalidade, entretanto, apoiava os deserdados para que continuassem sendo bons cristãos.

Mateus disse ter aprendido muito “sobre independência e responsabilidade”. Se formou em Administração na USP. Paulo ficou oito anos no Seminário, saiu e fez Letras na PUC, depois se tornou veterinário. Airton passou pouco tempo em Turvo, na época em que D. Moacyr era reitor da instituição (1963). Voltou para Bragança Paulista e se tornou comerciante. Joaquim esteve três anos sob a direção de D. Moacyr. Sempre teve bom relacionamento com a Igreja. “Temos a mesma formação e a mesma espiritualidade. Isso que nos cura’- disse.

José Onildo Philippi declarou: “O Seminário deu pra nós embasamento. Estou aqui no meio de vocês com muita alegria. Gostei muito do Acre”. Luiz é professor universitário em Santa Catarina, mas se dedica inteiramente aos Lions Club. Osnir Alves foi para o seminário em 1962, mas em 1965 D. Moacyr disse que ele não tinha vocação para sacerdote. Tornou-se técnico agrícola, cresceu na profissão e hoje afirma: “A amizade de Turvo é o esteio de minha vida”. Ele considera D. Moacyr “um santo”. Alírio entrou no Seminário em 1968, mas também não tinha vocação. Fez Ciências Contábeis em São Paulo e acabou como produtor rural.

Venâncio Menegaro, filho de Turvo, disse que o seminário lhe deu “formação ética”. Entrou em 1959 e saiu em 1970. É torneiro mecânico. Em 1977 comprou uma empresa que produz bonés.

Os acreanos-turvenses

Os educadores Itamar Zanin e Evaristo de Lucca, o jornalista Silvio Martinelo, o médico José Furtado e o professor de Filosofia Silvio Birolo estão entre os turvenses convocados por D. Moacir nos anos 1970, que ficaram de vez no Acre. Martinelo, dono do diário A Gazeta, com problemas de saúde não compareceu ao sítio do Itamar. Os demais se empenharam muito (e conseguiram) que os Meninos de Turvo e suas meninas retornassem com boa impressão da terra “onde o vento faz a curva”.

Itamar Zanin, Silvio Birolo, Evaristo de Lucca, José Furtado

Itamar disse que sua ligação com a Igreja vem de 1973 e que tem orgulho de sua história. Evaristo, sócio de Itamar desde a criação do Colégio Meta e agora da Faculdade Meta, se assumiu como acreano e disse que quer morrer aqui. O médico José Furtado entrou com 12 anos no Seminário de Turvo e veio ao Acre pela primeira vez em 1959. Ficou impressionado com a precariedade do Estado na época. Estudou medicina em São Paulo e voltou como voluntário para ajudar os hansenianos da Souza Araujo. Ficou feliz de rever amigos depois de 50 anos. Silvio Birolo está há 41 anos no Acre, chegou a ser coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mas se aposentou como professor de Filosofia da UFAC.