Líder da oposição abre o jogo: quero voltar ao tempo do salário atrasado

Declaração de N. Lima amedronta funcionários públicos – Foto: Reprodução

N. Lima admite na Câmara Municipal de Rio Branco que seguidores de Gladson querem voltar aos tempos de Flaviano, Romildo e Orleir, quando os salários dos servidores atrasavam

A pretexto de apartear o vereador Eduardo Farias (PC do B), líder da prefeita de Rio Branco na Câmara Municipal, numa das últimas sessões do semestre, o também vereador N. Lima (Democratas), ex-deputado estadual e apoiador da pré-candidatura do senador Gladson Cameli(PP) ao governo do Estado, acabou por revelar algo que tem sido a grande preocupação do funcionalismo público e das pessoas que conheceram a época de dificuldades em que os salários dos servidores eram pagos com atrasos de até cinco meses. “Nós estamos com saudades e de fato queremos voltar àqueles tempos”, disse o vereador, na cara dura.

Ao ressaltar que os governos da Frente Popular estão a quase 20 anos pagando salários rigorosamente em dia, tanto no Estado como nos municípios administrados pela sigla, incluindo a capital, uma época bem diferente do que ocorria nos governos de Flaviano Melo, Romildo Magalhães e Orleir Cameli, que governaram o Acre nas décadas de 80 e 90, Eduardo Farias atraiu a ira de N. Lima, que é um ex-policial militar conhecido pelas posições truculentas com a qual atua na política, atacando a honra e a dignidade de quem não compactua com suas ideias. Ao apartear o colega comunista, o vereador do DEM admitiu candidamente que as oposições querem voltar àqueles tempos que os funcionários públicos querem esquecer.

Suicídios por falta de crédito na mercearia da esquina

Era um tempo em que, com salários atrasados em até cinco meses seguidos, muitos servidores, sem crédito até nas mercearias de esquina, onde eram proibidos de comprarem sardinha ou outros enlatados para a mistura com o feijão e com o arroz, quando havia isso na mesa, começaram a entrar em desespero. A época, principalmente no governo de Flaviano Melo, de 1987 a 1990, foi marcada por muitos suicídios desses servidores desesperados. Depois dos anos 90 se descobriu a causa dos atrasos nos pagamentos dos servidores estaduais no governo Flaviano Melo: é que o dinheiro do Estado era depositado numa conta particular no Banco do Brasil, de nome “Flávio Nogueira”, um personagem fictício que investigações posteriores descobriram ser o próprio governador (cujo nome é Flaviano Flávio Batista de Melo) e seu então secretário de Fazenda, Deusdeth Nogueira.

Romildo Magalhães: assessores incompetentes teriam enganado ex-governador – Foto: Cedida/Arquivo

De acordo com a denúncia da época, quando a inflação batia a casa dos 80 por cento ao mês e os rendimentos bancários em operações conhecidas como “Over Nigt” rendiam na mesma proporção, os espertos depositavam o dinheiro público naquela conta fantasma e depois de alguns dias devolviam o valor principal aos cofres públicos e ficavam com o que restava de rendimento. No transcurso das investigações, um motorista da Secretaria de Fazenda que trabalhava no resgate do dinheiro do Banco do Brasil – dentro de caixas de papelão e num fusquinha do órgão -, revelou que era tanto dinheiro que ele tinha que dar várias voltas seguidas para poder transportar todos os valores, que eram levados para um apartamento da cidade o qual ele não sabia a quem de fato pertencia. Não por acaso, isso guarda semelhança com o que ocorria num certo apartamento de Salvador, no qual foram achados R$ 51 milhões em malas e caixas nas quais foram encontradas as digitais de ninguém menos que um homem de confiança do presidente Mcihel Temer: Gedel Viera Lima, que segue preso em Brasília mas sem dar um pio sobre a quem mais pertence a fortuna.

Mais atrasos e o mesmo descompromisso

No caso de Romildo Magalhães e Orleir Cameli, que também atrasaram salários dos servidores, as coisas se deram mais por incompetência do que propriamente por desvios. No atrapalhado governo de Romildo Magalhães, ele chegou a conceder um aumento de mais de 50 por cento aos servidores sem que o Estado tivesse lastro para o devido pagamento. De acordo com o ex-governador, a mudança da antiga moeda para a URV – Unidade real de valor – e depois para o Real, também fez com que seu governo perdesse o controle das contas e tivesse, portanto, que atrasar os salários em até quatro meses.

No governo do hoje deputado federal Flaviano Melo (MDB) foi gestada a maior roubalheira dos cofres públicos acreanos – Foto: Cedida/Arquivo

No final do Governo Orleir, novo dilema

No caso envolvendo o ex-governador Orleir Cameli, falecido em 2013, o governante teria atrasado pagamentos por ter sido traído por ex-assessores, , que, ao final do governo, deixaram o Acre rumo ao estado natal, em jato particular, carregado de sacos de dinheiro, como se denunciou à época. Enquanto isso, os salários dos servidores ficaram em atraso em até quatro meses, o que só foi corrigido quando o atual senador Jorge Viana (PT) chegou ao governo, em 1999. De janeiro daquele ano até agora, os servidores nunca mais souberam o que foi um só dia de atraso em seus pagamentos.

Sejam quais forem os motivos dos atrasos, é desses tempos sombrios que o vereador N. Lima e outros seguidores do senador Gladson Cameli têm saudades e admitem isso candidamente, como o fez o vereador na Câmara Municipal. Eles admitem isso porque são ricos e, em caso de atrasos de seus salários, têm bastante gordura para queimar. Enquanto os funcionários públicos normais, coitados, não querem voltar a um tempo que efetivamente não deixou saudade para nenhuma pessoa honesta deste Estado.

Da redação