Isolados e historicamente belos

Elson Martins

Tem gente que dá pouca importância às obras de saneamento e urbanismo que o governo está realizando nos municípios de Porto Valter, Marechal Thaumaturgo, Jordão e Santa Rosa do Purus, chamados de “isolados”. A argumentação é que são pouco habitados e distantes da capital, logo, rendem nada eleitoralmente.

Só cego não vê o que eles representam! Ou aqueles que nos anos 1970, da ditadura, aprenderam a repetir o chavão nem sempre justo: “Hay governo, soy contra”!

De 2011 para cá, estão sendo investidos R$ 100 milhões nessas localidades, com recursos do Proser (Programa de Saneamento Ambiental e Inclusão Socioeconômica do Acre) conseguidos junto ao Banco Mundial e no planejamento do Governo do Estado. A previsão é a de que as obras sejam concluídas em 2018. Ou seja: essas pequenas cidades vão ter agua tratada 24 horas, rede de esgoto, ruas pavimentadas, logradouros urbanizados e atrativos.

Para alcançar esse resultado o Depasa (Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento) tem provado do pão que o diabo amassou, para poder levar todo o material e equipamento de construção necessários, de balsa rio acima, durante o inverno. Porque no verão, com rio seco, nem piaba sobe até aqueles confins.

Quem quiser saber dessa epopeia leia os artigos produzidos pelo repórter Arison Jardim, neto do jornalista Foch Jardim que fez história no passado, e estão publicados na Agência Noticias do Acre com belas fotos do Sérgio Vale, dois bons profissionais da SECOM.

As quatro pequenas cidades citadas somam 42 mil moradores, alguns com maioria indígena, e mais extrativistas, ribeirinhos, pequenos agricultores, funcionários públicos e comerciantes. A região forma um corredor ecológico ao longo da fronteira com o Peru, constituído de floresta densa, igarapés, lagos e rios que compõem um cenário de cinema. Sem falar no ar puro que se respira por lá.

Com tais atributos, dá para imaginar que as sedes municipais referidas se transformarão em atrações turísticas para quem sonha em penetrar fundo no chamado “inferno verde” dos primeiros aventureiros. Em Marechal Thaumaturgo, por exemplo, agrada-nos pensar que se trata de uma região pre-andina com raízes ancestrais muito valorizadas em termos de ocupação. Ou não foi por aquelas bandas que transitaram sábios incas da história amazônica?

Uma prova disso são os garbosos Ashaninkas, tão sábios e orgulhosos de sua etnia! Mas se quisermos destaques pelo lado produtivo e mercadológico, basta lembrar que Thaumaturgo produz hoje mais de uma tonelada e meia de mel de abelha silvestre por ano. E que oferece uma variedade de feijões que não se vê hoje em nenhuma parte do mundo, faltando apenas avançar com a cadeia produtiva sustentável que está em curso no Acre.

No Jordão, a terra dos Huni Kuin, temos muito a aprender com essa etnia de primorosos artesãos de palhas e cocos, capazes de expressar uma rica cosmologia indígena que explica a vida através de lendas improváveis. Não é à toa que um membro desse grupo indígena, o Joaquim Maná, já possui diploma em Linguistica, obtido na Universidade de Brasilia, porque ele confia nos poderes da língua Hatcha Kuin, que considera “a língua verdadeira”, para retomar a liberdade que seu povo perdeu em passado remoto.

Se formos vasculhar as entranhas dos municípios de Porto Valter e Santa Rosa do Purus, que completam o corredor ecológico da fronteira, vamos nos deparar com novas magias amazônicas que justificam o investimento feito pelo governo acreano. No mínimo, para manter viva uma história que precisa ser conhecida como contribuição de vida inteligente no nosso mundo.

Jornalista