Insônia e despertar

José Augusto Fontes

Se a última palavra não pode ser dada por quem deveria dar, deve haver alguma mudez disfarçada ou alguma letra morta. Se o que para uns é crime, para outros depende de referendo, que pode até “resguardar” o imputado, eu devo ter viajado no tempo, quando harmonia se confundia com confraria. Isso foi o que vi num filme medieval, quando o senado romano agraciava a nobreza. Medieval? Sim, no filme e na história há exemplos passados dessa situação. No mundo atual, professores e mestres ensinam que o direito está sempre em evolução. O Direito vai se renovando conforme a realidade social e os anseios do povo. O Direito é realmente uma dádiva, sob o prisma ideal. É o que dizem. Mas o Direito calado, omisso, quase medroso, o que dizer dele? Um site muito conhecido relata dezenas ligações entre membros de poderes da República, talvez, para debater sobre o Direito medieval aplicado ao Brasil de hoje… Como eu disse, estou viajando no tempo, em algum velho filme.

No mundo real, eu estive com insônia e acordei num país em que todo o sistema jurídico foi alterado e mudado, porque se fosse mantido, não haveria harmonia. Esfreguei os olhos e me pareceu estar muito longe do país que me deu à luz e que eu abraço. O poder pode tudo, foi assim que vi dizer nas redes sociais. Uma gravação fala em matar eventual delator. Telefonemas em dias de decisões importantes foram revelados, mas viraram pó e o investigado viajou aliviado. Muito dinheiro foi e está sendo repassado para aliviar denúncias, conforme li no script de um filme repetido, cujo relator ou diretor é muito chegado ao vilão.

Quem leu e estudou que crimes são violações às regras de convivência social e que dessas violações devem advir sanções, pode esquecer tudo isso. Pode botar pra baixo do tapete felpudo. Pode comer uma grande pizza de calabresa achando que é natural e vegana. Esfrego novamente os olhos. Umas vozes cantando já perguntaram, através de uma legião: “que país é esse”? Nenhuma aprovação social que reflete imensa repulsa, nada traduz para os velhos do poder e muito menos para os aliados que também estão com a corda no pescoço. Lembrei-me do poeta carioca, ao afirmar que o poder é o sexo dos velhos.

Quem era para dar a última palavra e deu apenas uma encenação dela, acabou dizendo que não pode dar a última palavra… Você compreendeu? A última palavra foi transferida dos diretores do filme para os vilões da história, interessados em salvar a própria pele e se tornar protagonistas. Acho que nem o crioulo doido entendeu esse samba, feito de uma nota só e desafinada, muito alheia aos acordes populares. Uma pressão na panela e tudo vira fumaça, chegando perto de virar pó e ser aspirado por alguém que mete o nariz onde não deve.

Um poeta alagoano já cantou o desdém do poder. Longe do filme repetido, aqui em baixo, nas filas de quem paga os ingressos, no plano das pessoas simples e comuns como eu, o povo escuta os áudios, vê as gravações, se revolta com as maletas cheias de dinheiro, com a compra de apoio mais do que político, sem entender o tão proclamado “sentir” das autoridades, que nos seus “entendimentos”, traduzem uma mudez alarmante, um nada desconcertante, um apadrinhamento escuso, que todas as pesquisas apontam como inaceitáveis. O povo não se sente representado e ainda atônito procura por novos rumos.

A música do Sul grita em meus ouvidos: “eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada…”. E nesse nada, parece ter ficado estabelecido que certas pessoas ou classes de pessoas podem cometer crimes. E que até o mais alto intérprete da lei maior deverá assistir sentado, como no cinema, as eventuais atitudes ilícitas, recheadas de improbidade e tipicamente criminosas (filmadas e gravadas, ou não), na justificativa assentada de que os poderes devem ser harmônicos.

Ou na imposição de que o povo deve se curvar aos clãs, porque nem todos são iguais perante a lei (com minúscula). Aqui em baixo, muitos e muitos começam a achar que toda a história está errada. Isso faz parte do filme medieval e de lá para cá o que se busca é justiça, dignidade, ética, igualdade perante a lei, exercício do poder em nome do povo, de quem os poderes emanam. Manter-se no poder a custa de autoritarismo, negociatas ou de grupos que se autoprotegem, parece mesmo coisa de filme medieval. Como disse o sambista, dinheiro na mão parece ser vendaval… Você compreende?

Alguma coisa está fora da ordem. Nas ruas, mercados, esquinas, shoppings, sertões, seringais, centros urbanos e nos locais afastados, em todos os cantos, sempre se comenta que, como na música do cantor carioca, enquanto uns nascem pra sofrer, outros nascem pra rir. Ou como já se disse na forma hispânica: “La ley es como la serpiente, sólo pica a los descalzos”. Será que tem que ser assim? Da minha parte, não é essa a Justiça que me orientou em minha vida. Da minha parte, isso não me representa e eu não aceito estar nem perto.

Em outro viés, parece que nem todo poder emana do povo. Será que há alguns podres poderes, conforme cantou o poeta baiano? Será que é apenas retórica? Bem acordado, vejo injustiças que realmente me dão insônia. Não, não é esse o país que abracei. Tomara que seja apenas um sonho ruim, que já demorou demais. Tomara que o povo faça o poder ser exercido em seu nome, de verdade. Tomara que os padrinhos, afilhados, chegados e comparsas não imperem. Espero que o povo os reprove e os devolva à era medieval, para que sejam novamente alfabetizados.

Tomara que a espada da Justiça reparta o bem-estar em proporções mais justas e que corte os excessos. Também que a balança pese com igualdade e no quilate da dignidade. Tomara que a nata da malandragem, conhecida de outros carnavais e cantada pelo poeta fluminense, saia logo de cena. Usando palavras atuais, “isso não tem que ser mantido”. Enfim, tomara que minha insônia se acalme e que eu volte a dormir com serenidade, para acordar com alegria, no país que me agrada abraçar.

Cronista