Imersão na Independência…

Alvorada nos varadouros do Seringal Cachoeira, Xapuri. (Todas as fotos de Kennedy Santos)
Alvorada nos varadouros do Seringal Cachoeira, Xapuri. (Todas as fotos de Kennedy Santos)

Na Semana da Pátria, sete jovens saíram da dependência cotidiana da modernidade e ganharam asas, sonhos, novas visões, conhecimento e história, em uma independência que apenas o bem mais precioso que possuímos pode oferecer: a nossa Floresta!

A ideia surgiu numa conversa que tive com o nosso amigo e Governador Tião Viana. Ele perguntou: “poderia a Sociedade Filosophia fazer uma Imersão no Seringal Cachoeira, em menor tempo e com um grupo reduzido, realizando uma Experiência Piloto?”. Ele, como sempre, inovador.

Aceitamos o desafio. E, num tempo recorde, mobilizamos nossos valorosos parceiros das dez Imersões realizadas anteriormente e partimos para mais um evento psicopedagógico e psicofilosófico: a XI Imersão ao Nosso Tempo e Espaço Originais, no Seringal Cachoeira, Xapuri, Acre, com duração de 30 horas, nos dias 06 e 07 de setembro, idealizada pela Sociedade Filosophia.

Mesmo sem uma prévia base teórica mais aprofundada sobre a experiência, demos ênfase à síntese maravilhosa do Astrônomo e Filósofo da Ciência, Carl Sagan: “Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando para ser conhecida”.

E isso se realizou.

O Seringal Cachoeira, onde Chico Mendes viveu, é um assentamento com mais de 80 famílias que vivem do extrativismo da borracha, castanha, manejo sustentável das árvores, agricultura familiar, pequena pecuária e do turismo. Um exemplo de sustentabilidade na Amazônia brasileira, na fronteira com a Bolívia. Mas é, também, um lugar místico, rico em simbologias, mitos, que dialogam com pesquisas e ciência de alta ponta.

Saímos de Rio Branco no início da tarde de terça-feira, 06 de setembro. Na viagem, fomos contando as histórias do Quinari, usina de álcool combustível, Capixaba, Xapuri, fábrica de laminados de madeira e a de preservativos. Tratamos também da tentativa de inversão da base econômica do Acre, de extrativismo para a pecuária, nos anos 1970, suas consequências e resultados.

Mas, o que particularmente muito me impressionou foram as conversas dos jovens no trajeto. Eu esperava comentários comuns, inerentes aos jovens de hoje, hiper-modernizados, internéticos, envoltos a uma civilização global espetacularizada.

Mas, não.

Eles passaram a viagem inteira discutindo Astrofísica, Astronomia, Biologia Molecular. Questionavam a recente comprovação das ondas gravitacionais de Einstein, discutiam em minúcias como interagir a relativística com a Física Quântica, quais as moléculas iniciais da origem da vida no Planeta, por que tudo existe, e onde começa o infinito!

Feliz do homo sapiens que consegue encontrar o seu sentido nesta breve vida na Terra, breve como o piscar dos vagalumes. Eu consegui. Depois de mais de 50 voltas ao redor do Sol eu sei que vim para este Planeta para ser professor. E naqueles instantes, ouvindo aquelas conversas, minha alma se iluminou. Há esperança. Existem muitas riquezas oceânicas nos jovens de hoje. E, principalmente, como podemos e devemos aprender com eles!

Saída da modernidade para a tradição...
Saída da modernidade para a tradição…

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Na primeira noite, os jovens conheceram uma lenda viva da história do Acre: um seringueiro, um sábio da Floresta: Nilson Mendes, primo do Chico.

À luz de três lamparinas e sob as folhagens de uma imensa castanheira, eles ouviram o Nilson contar a história de sua vida, dos Empates, das lutas travadas em defesa da Floresta pelos seringueiros, índios e ribeirinhos. Do antes e do agora. Mas também dos mistérios maravilhosos dos mitos. “Eu já dormi com o Caboquinho da Mata dentro da minha rede, quando esperava, à noite, caça para matar”. Falava o Nilson. E ele, honestamente, verdadeiramente, acredita neste acontecimento.

Na madrugada do Dia a Independência, às três horas, saímos para os varadouros da Floresta. Os jovens cortaram seringa, ouviram o som da floresta, viram o tapete de estrelas acima das árvores, caminharam quatro quilômetros.

Durante a manhã, guiados pelo Nilson Mendes, fizemos a Trilha da Coroa e da Furna da Onça, de médio e alto risco. Foi aí que os jovens conheceram a sabedoria do Nilson. E se encantaram com ele!

Conheceram vários tipos de espécies, flora, fauna, fitoterapia, nome cientifico de cada árvore, segredos (nem todos revelados) da Floresta. Os jovens nunca, nunca, imaginavam o quanto de conhecimento empírico o Nilson Mendes possui.

Na tarde, fizemos a trilha mais importante do Seringal Cachoeira. A da árvore sagrada, da Rainha da Floresta: a Trilha da Samaúma. Gigantesca, mais de 35 metros de altura, cerca de 400 anos, com um diâmetro que somente 25 pessoas podem abraçá-la. Foi o nosso Grand Finale. E não poderia ser melhor.

Fizemos 10 quilômetros de trilhas em 12 horas. Espaço e tempo que durarão para sempre em nossas vidas.

Chegamos a Rio Branco às 19h30. E a grande alegria: todos estavam clorofilados. Todos agora se abriam para o diálogo entre os saberes da Tradição e da Ciência. Esta é a síntese filosófica das Imersões: que fiquemos clorofílicos para receber e oferecer novos conhecimentos, com novas visões, nos tornando Cidadãos do Mundo.

Tião Viana conversou com os jovens, assim que eles chegaram da Imersão, e escreveu: “Os comentários são mágicos, conseguiram entender melhor o Planeta Terra a partir da observação das estrelas na mata e na madrugada. Conheceram o sábio Nilson seringueiro e ficaram impactados com tanta vida e saber sobre a simplicidade e a vida amazônica, diálogos únicos…Um olhar diferente sobre o nosso viver, o videogame, as relações entre homem-comunidades.”

Missão cumprida. Outras virão.

Na Semana da Independência, sete jovens se tornaram, verdadeiramente, mais independentes e orgulhosos de suas origens. E entusiasmados com o presente, que nada mais é do que o futuro que realiza.

Nossos agradecimentos ao Governo do Acre; Instituto de Matemática, Ciências e Filosofia do Acre; Secretaria de Turismo; Secretaria de Saúde; Secom; Nilson Mendes e Gerência da Pousada do Seringal Cachoeira.

Marcos Afonso é Jornalista, Professor e Moderador Geral da Sociedade Filosophia.