HISTÓRIA DE UM CÃO

Aos dezessete anos , em 1962, decorei este verdadeiro conto em forma de poema, do poeta Luiz Guimarães Júnior. Até hoje, aos 71 anos, nunca me esqueci de uma única estrofe. É um poema longo, mas vale a pena ler. Expressa um roteiro de AMOR e FIDELIDADE – Com certeza os meus contemporâneos devem se lembrar da velha CRESTOMATIA. Saudades!

(*) Luis Guimarães Júnior

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo;
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve mundo.
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida. O cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada;
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo.
O meu amigo, cabisbaixo, mudo,
Olhava-o … o sol nas ondas se abismava …
“Adeus!” – me disse, – e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
“Trata-o bem. Verás como o rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.”
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitando
A sua cauda – caminhava errante,
À luz da lua – tristemente uivando.
Toussenel, Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores,
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! – Era um artigo.
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes;
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas;
Contava-me também que a bordo havia
Toda a sorte de risos e belezas.
Assombrara-se muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo.
Citava o caso d’uma passageira …
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo,
Em nota bene do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo,
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão, tranquilo e atento,
Me contemplava, e creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos, humildemente,
Estendeu-se aos meus pés, silencioso,
Movendo a cauda, – e adormeceu contente,
Farto dum puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente, um dia,
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.
E respirei: – “Graças a Deus! Já posso”
Dizia eu “viver neste bom mundo,
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo”.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora,
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito:
E – de cansado – foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.
Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em voz alta e confessá-lo:
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.
Zunia uma asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante a instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto,
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto,
E a chuva meus cabelos fustigava…
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo – e com furor remamos.
Veludo, à proa, olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços,
E arremessei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte! Era pungente!
Voltei à terra – entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas, moribundo.
Mas ao despir, dos ombros meus, o manto,
Notei – oh grande dor! – haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: – eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente,
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente,
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caíra além no profundo mar,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! se Veludo
Duas vidas tivera, duas vidas,
Eu arrancava aquela besta morta,
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.
Corri, abri … Era Veludo! Arfava;
Estendeu-se aos meus pés e docemente,
Deixou cair da boca, que espumava,
A medalha suspensa da corrente.
Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado
Junto do cão – estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo; estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

(*) LUIS Caetano Pereira GUIMARÃES JÚNIOR, membro fundador da Academia Brasileira de Letras, diplomata, poeta, romancista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, em 17/02/1845, e faleceu em Lisboa, em 20/05/1898.