Entre duas taças de vinho

Por Deise Torres (*)

Quando estou a me inebriar,

Com várias taças de vinho,
Meu coração se rebela,

E busca outros caminhos.

E entre delírios dementes,
Não tem pressa nem cansaço;
Despertam sonhos dormentes,
E seguem em busca de Baco.

Será temor ou angústia,
Tudo que eu estou sentindo?
Ou será somente o efeito,
De algumas taças de vinho?

Minha mente insiste e deseja,
Do deus do vinho um abraço;
Ai, meu Zeus do Olimpo,
Deixa-me encontrar deus Baco!

E em meio ao meu delírio,
Devaneio e desatino;
Me acode e me surge enfim,
Do Olimpo, o deus do Vinho.

Seguimos então com ardor,
Para o caminho da vinha;
Com luxúria paixão e amor,
Perseguindo a nossa sina.

Esse encontro imaginário,
É cena de muito carinho;
Somos par mais-que-perfeito,

Como duas taças de vinho.

E pra noite a gente vai,
Alegre e se divertindo;
Sorridente a gente sai,
Com duas taças de vinho.

 

A noite então se transforma,
Sem censura ou démodé;
Como do sono Cupido,
Que desperta Psiquê.

Ousamos nos permitir,

Liberdade sem promessa;
Degustando o nosso vinho,

Nos viramos às avessas.

Banquete cântaro e vinho,
Pra nós já tinha guardado;
E corpos viraram um só corpo,
Naquele amor desvairado.

E pudemos desfrutar,
Do banquete a iguaria;
Sem um instante perder,
Um momento de orgia.

O vinho enfim completou.
O beijo meu e o teu;
Por nossa boca jorrou,
Por nosso lábio desceu.

Enquanto a noite avançava,
Mais causava ansiedade;
Deus Baco se preparava,
Pra ser minha majestade.

E antes que eu partisse,
Quis me cobrir de carinho;
E meu corpo ele regou,
Com o néctar do seu vinho,

E não me deixou sentir,
Temor de outro destino;
Faz de tudo eu esquecer,
Sob o efeito do vinho.

E se ele tem que sair,

Pra seguir outro caminho,

Não saiu sem antes dar,
Prazer que propõe o vinho,

Não antes d’eu me aquecer,
Ao seu corpo em nosso ninho;
E suplicar pra beber,

Mais outra taça de vinho.

Não sem antes desfrutar,
Do teu beijo me seduzindo; 
Nem antes de eu molhar,
A tua boca com o vinho.

Não sem antes transformar,
Todo gozo em mil carinho;
Mais uma vez retornar,
Às nossas taças de vinho.

Não sem antes dividir,
Tudo aquilo que sentimos;
Todo êxtase de paixão,
Que foi regada com vinho.

Não sem compartilhar,
O meu prazer com o teu;
Nem sem antes eu confessar,
Desejos do corpo meu.

Desejo que toque meu corpo,
Com uma paixão proibida;
E transborde meu coração,
Por coisa jamais sentida.

E depois por toda a noite,
Vinho e prazer se confundir;
Quero você no meu corpo,
De novo a me seduzir.

Com nós dois embriagados,

A noite passou que nem vi;

E sob o lençol encarnado,
Ocorrera o que previ.

De um momento pra outro,

Nós dois então nos despimos;

Dois corpos viraram um só corpo,

Entre duas taças de vinho.

Selamos sedento desejo,
De amor descompromissado;
Ganhei outra vez teu beijo,
Um beijo por vinho molhado.

Na loucura daquele beijo,
A gente de tudo esquecia;
Amor e vinho e desejo,
Era brinde que a cena pedia.

E todo rito de amor,
Naquela noite mostrado,
Nos fez pedir mais licor,
E vinho tinto e rosado.

Do Olimpo o deus assistia,
A noite de amor e orgia;
Onde não se tinha limite,
E todo nosso corpo ardia.

E o momento ali passado,
Digno de Julieta e Romeu;
Fez dois corações alados,
Encontrar Hera e Zeus.

De mãos dadas com a deusa,
Que tinha se admirado;
Zeus nos recebeu com taças,
De vinho por todo lado.

E pra nós dois demonstrar,
O poder de seu carinho;
Depois nos ofereceu,
Banquete regado com vinho.

Disse não ter visto amor,

Igual na sua morada;

Nem o seu amor por Juno,
A este amor se igualava.

O Olimpo foi transformado,
Com desenho e pergaminho;
Foi colorido e bordado,
Com a cor carmim do vinho.

E pra coroar nosso amor,
Com o que apreciava;
Zeus com vinho nos brindou,
Em taças que não secava.

O nosso destino Proteu,

Já tinha adivinhado;

De todo pecado Plutão,

Já tinha nos perdoado.
E nosso amor no Olimpo,
Foi finalmente selado;
Por Zeus e Hera também,
Para sempre eternizado.

E da lembrança da noite,
Regada de vinho e paixão;
Ficou muita garrafa cheia,
E taças de vinho no chão.

Depois do desejo matado,
Meu corpo ao teu se rendeu;

Caímos então amparados,
Já nos braços de Morfeu.

E dormimos sono profundo,

Após tanto desatino;

Nosso amor então repousou,

Entre duas taças de vinho…

(*) Poetisa acreana, autora do livro Corpo Tenso Voz ativa.