Dr. Enzo, o especialista

Já tinha passado um tempo do trauma sofrido em dezembro. Mas em abril, comecei a perceber mudanças no meu comportamento. Estava convicto que o neurologista estava com razão. Após a alta hospitalar fiz ainda uma consulta retorno com ele que nessa ocasião, reforçou as observações feitas. Disse que nos próximos meses, eu teria dormências em algumas partes da cabeça, especialmente no rosto. Mas que eu deveria ficar tranquilo, pois era normal para o caso de um trauma como o sofrido. Segundo ele, as tonturas também passariam e o braço eu teria mesmo de buscar ajuda com um ortopedista.

Depois me deparei com problemas neurológicos, vividos depois da alta hospitalar. As evidências eram basicamente alterações comportamentais. Eu me conhecia e depois disso, observei que em circunstâncias normais, eu seria incapaz de dizer e protagonizar aquelas coisas. Algumas foram absurdas, outras vergonhosas. Acordei realmente muito estranho e tendo atitudes que não eram minhas. É difícil convencer a quem não quer entender a desgraça alheia. Vi e vivi tais coisas.

Esses problemas neurológicos eram transtornos que precisavam de acompanhamento adequado. Passei a divulgar isso e pedir ajuda aos amigos e familiares. Eu estava sonhando em voltar ao meu normal. Largar a síndrome do pânico e oprimir a depressão que dia a dia me sufocava. Foi assim que conversando com um gestor público ele disse que sabia da solução. Aceitou ser o meu intermediário, uma espécie de coiote. Um pouco mais forte do que aquele que me ajudou a furar as filas para conseguir as consultas no setor público de saúde. Ele falou que na unidade de atendimento que administrava tinha um médico diferente. “Diferente? Como assim diferente? ” — Pensei.

Ele foi me explicar que o médico só atendia pelo sistema federal de saúde, que à época era precário, mas que esse médico fazia a diferença. Foi assim que conheci o Dr. Enzo, especialista em Saúde da Família, uma pessoa de incomparável humanidade e que só atendia no máximo quinze pacientes por dia. Suas consultas eram demoradas. Ele mesmo chegava a ligar para os pacientes para convidá-los a retornar. Era um profissional que prezava pela sua qualidade.

Ouvindo isso fiquei perplexo! Afinal, isso não era aqui, pertinho de mim! Então passei a ligar ao gestor reforçando meu interesse em ser paciente desse médico. Fiquei insistindo, insistindo… Uma noite, em meados do mês de julho, recebi uma mensagem pela rede social do celular que dizia: — Lembrando que a sua consulta com o Dr. Enzo será no dia 17/07, 7h.

Mais uma vez fiquei embaraçado, porque imaginava que o meu ajudador já tinha falhado comigo, afinal o nosso contato tinha começado em abril e só agora em julho tinha conseguido me encaixar na fila do Dr. Enzo. No dia marcado, fiz um esforço extra para estar na unidade, na hora combinada. Chequei cedinho e fiquei observando aquela fila gigante do lado de fora do prédio.

Era uma fila respeitável. Depois lembrei-me de se tratar de uma indicação, por isso não teria de ficar na fila. Liguei para o amigo e ele me disse que como eu nunca tinha me consultado ali, teria de ficar na fila interna da unidade para fazer o prontuário e confirmar a consulta. Quando da confirmação, sabendo que eu era o primeiro, da lista de 15 pacientes, fiquei encabulado ao ver ficha de atendimento médico de número 3. Pensei: “como ficha 3 se eu fui o primeiro a confirmar?”.

Voltando com o atendimento questionei o porquê da ficha número 3, se eu tinha chegado cedinho da manhã e tinha sido o primeiro a confirmar a consulta com o Dr. Enzo? O atendente ficou calado, revirando os olhos, sem ter o que dizer. Refiz a petição e ele já visivelmente alterado disse que eu estava “no lucro e pegando um boi”, pois era para eu ficar na ficha 15, mas por causa de alguém importante, tinha sido encaixado na terceira posição.

Eu tinha mais argumentos, mas o que ganharia com isso? Valeria à pena ficar teimando com quem achava que estar me fazendo um favor, quando na verdade eu era o seu patrão? Um excelente patrão. Nunca pagava meus impostos e contribuições com atraso, e, apesar do salário dele estar em dia, calei-me, afinal eu estava moribundo.

Foi melhor calar. Assim, minhas convicções sobre a saúde pública muito bem elogiada pelos políticos da época, definitivamente deixam de existir. Todo mundo sabia que era conversa para boi dormir e para enganar pobre, mas eu e a torcida brasileira acreditamos e ajudamos a eleger aquele projeto político que virou cinzas quando o partido da situação deixou de governar.

Esse acontecido, guardei só para mim, afinal aquele meu círculo de amizade era rico e podiam pagar o melhor plano de saúde que existia naquele ano. Outro detalhe, ficava por conta da perseguição que as pessoas que pensavam diferente da situação, sofriam por suas ideias e ideais divergentes. Ser formador de opinião já era um perigo. Era um tempo de ditadura intelectual.

Foi assim que conheci o Dr. Enzo. Ele realmente existia e após aguardar, fui chamado e fiquei admirado com a duração da consulta. Nesse mesmo dia, deu o diagnóstico sobre o transtorno pós-traumático que eu estava enfrentando. Quando meu estresse pós-trauma teve seu ápice e tive de viajar às pressas para um grande centro médico, acusado por familiares e alguns amigos de loucura, por causas das atitudes diferentes, extremamente sinceras, tive certeza que aquele médico era mesmo capacitado.

Seu diagnóstico foi o mais indicado para a situação, tendo sido confirmado por outro neurologista de outra terra, que ao me atender manteve o diagnóstico e o uso da medicação do Dr. Enzo, por mais uma temporada.