De Maria da Penha a Maria de Magdala

À esquerda: Liberdade Guiando o Povo, 1830 (Eugène Delacroix). À direita: A Mulher de Willdendorf – Foto: Reprodução

Lorena de Cáritas Dantas Tuma*

O Brasil é o quinto país no ranking dos que mais praticam o feminicídio, que recai essencialmente sobre mulheres negras. Os fatos recentes como a morte da vereadora Marielle Franco, da advogada Tatiane Spitzner e da psicóloga Marina Gonçalves Cunha, de Juiz de Fora, são alguns episódios que saíram recentemente à luz. Lamentavelmente se tratam da minoria, já que mulheres de estrato social mais baixo têm dificuldade de aceder à justiça.

Segundo o Anuário Brasilieiro de Segurança Pública de 2018, o Brasil registrou 63.880 mortes violentas em 2017. No mesmo ano foram registrados 60.018 estupros – crescimento de 8,4% em relação a 2016 – 1.133 casos de feminicídios, 221.238 registros de violência doméstica e 4.539 mulheres vítimas de homicídio em 2017.

A violência de gênero no Brasil compõe um problema de segurança pública ainda pouco debatido, quase ausente nos debates das eleições presidenciais. É impossível conceber a democracia sem assegurar o direito e a integridade de mais da metade da população do país, que é composta por mulheres.

As mulheres protagonizaram/protagonizam a arte: A Mulher Willendorf é a primeira imagem feminina que se conhece, data da Pré-História. Nessa escultura de pedra, as formas avantajadas dos seios, quadris e ventre, representam a vida e fertilidade.

Na arte clássica, mulheres eram deusas do Olimpo. No quadro de Eugène Delacroix, que fala da revolução Francesa – Liberdade Guiando o Povo, 1830 – a Liberdade é retratada na figura de uma mulher no topo da tela.

Mas as mulheres que povoam a arte e o imaginário revelam o paradoxo da sociedade de seus dias e da contemporaneidade. Na Revolução Francesa, que culminou na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, excluíam mulheres, crianças, estrangeiros e escravos. As deusas povoavam o Olimpo, cujas cidades não haviam cidadãs, e o feminicídio contrasta até hoje com a imagem Pré-Histórica da Mulher de Willendorf, geradora de vida.

Na civilização Ocidental baseada nos princípios judaico-cristãos não se pode negar o protagonismo das Marias.

O Messias foi nascido de mulher, e durante seu ministério, livrou a adúltera do apedrejamento (Jo 8:1). Nos relatos bíblicos, Jesus quebrou todos os protocolos da época ao se dirigir diretamente às mulheres, incumbindo-as da missão de repartir as Boas Novas de sua ressureição. Uma confirmação de que homem e mulher são igualmente imagem e semelhança do Divino.

Este ano comemoramos doze anos da Lei Maria da Penha. A lei que estabelece medidas de proteção para as mulheres vítimas de violência, e punição incisiva aos agressores. Originou-se da luta de uma mulher, também Maria, vítima de violência doméstica.

Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus, foram figuras redimidas em sua época. Milênios depois consideradas santas por algumas denominações cristãs. Hoje, Maria da Penha, quem sabe, possa nos ajudar a redimir dos paradoxos da contemporaneidade.

*Arquiteta e urbanista