Datafolha revela: cenário eleitoral está ficando venezuelano

Ricardo Kotscho*

Analistas nativos, entre os quais me incluo, apressaram-se em deslegitimar as recentes eleições na Venezuela.

O principal motivo apontado foi o fato de políticos de oposição naquele país estarem presos ou impedidos de concorrer às eleições.

Outra razão lembrada foi o índice recorde de abstenções, mais de metade do eleitorado, e a quantidade de votos em branco ou nulos.

Pois estes dois fatores estão presentes também nas eleições brasileiras, segundo o último Datafolha divulgado no domingo.

Para começar, embora esteja preso há mais de dois meses, o ex-presidente Lula continua liderando com folga todos os cenários de primeiro e segundo turnos, com índices que variam entre 30% e perto de 50%.

Sem o nome de Lula na lista, quem lidera é o candidato “Ninguém”, com 33%, seguido de Bolsonaro, com 19% e Marina, 15%.

Claro que há também enormes diferenças entre as duas eleições. No país vizinho, o ditador-presidente Nicolás Maduro foi candidato reeleito para mais um mandato, e aqui o presidente Michel Temer, com 3% de aprovação na mesma pesquisa, correu da raia por absoluta incompatibilidade com o eleitorado.

A coalização governista formada no impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff não conseguiu até agora encontrar um candidato viável, a menos de quatgro meses das eleições.

Outro ponto em comum, no entanto, é o Judiciário, que exerceu papel decisivo pró-Maduro na eleição venezuelana, enquanto aqui o STF tem o poder de decidir quem pode ou não ser candidato, independentemente do que diz a Constituição.

Processos que investigam candidatos governistas são jogados para as calendas e seguem acelerados aqueles movidos contra políticos da oposição.

Gostaria de ver se os analistas nativos e os observadores estrangeiros medirão a eleição presidencial no Brasil com a mesma régua que os levou a declarar como ilegítima a reeleição de Maduro.

Da minha parte, vejo um quadro bastante semelhante ao que condenamos na Venezuela, não tendo faltado nem mesmo as alarmantes cenas de desabastecimento nas prateleiras durante a recente greve dos caminhoneiros.

Claro que a situação política e econômica da Venezuela é infinitamente pior do que a do Brasil, mas se seguirmos nessa toada em breve veremos cada vez mais brasileiros emigrando para o Paraguai.

Bons tempos aqueles em que éramos um imenso Portugal.

Vida que segue.

*Jornalista