Conheça Romero Jucá, o homem que abonará a ficha de filiação de Bittar no PMDB

Da redação – O grande ato político da semana deve ser mesmo a filiação do ex-deputado federal Marcio Bittar no PMDB. O evento deve contar com a presença de Romero Jucá, líder do governo no Senado Federal e um dos homens fortes de Temer. Jucá tem grande importância no PMDB e é hoje uma das figuras mais controversas da política brasileira. Seu nome figura entre alguns dos mais escabrosos escândalos registrados nos últimos anos. Junto com Aécio Neves, ele está entre os políticos que mais acumulam maior número de investigação na Lava Jato.

A ficha corrida de Romero Jucá levou o deputado federal Major Rocha (PSDB) a dizer que não participaria da festa de filiação de Marcio Bittar. Disse ele ao colunista político Luiz Carlos Moreira Jorge: “Com certeza a PF estará vigiando as lideranças do PMDB que vierem, e em festa vigiada pela PF, prefiro ficar distante”.

Em um dos momentos mais vergonhosos da política brasileira, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, Romero Jucá desempenhou papel fundamental. Ele foi um dos articuladores do golpe.

Biografia revela diversos escândalos

Romero Jucá tem 62 anos, é economista e natural do Pernambuco, da capital Recife. Seu primeiro grande cargo se deu no governo do presidente Figueiredo, ainda no Regime Militar. Já no governo de Sarney, foi nomeado governador de Roraima. Foi o último governador do extinto território federal. E foi justamente em Roraima que Jucá ganhou projeção nacional. Ali ele se radicou e passou a exercer a atividade política.

No governo de Itamar Franco, foi diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e secretário Nacional de Habitação. Já eleito senador por Roraima, foi vice-líder de Fernando Henrique Cardoso naquela casa. No governo Lula foi ministro da Previdência, depois foi exonerado após envolvimento em escândalo de corrupção.

Sua queda se deu após a divulgação de um episódio envolvendo a cessão de fazendas fantasmas para quitar empréstimos que somavam R$ 18 milhões do Banco da Amazônia feitos a uma empresa da qual era sócio nos anos de 1990. Em sua defesa, alegou que as acusações não se sustentavam, pois eram fruto de disputas políticas em Roraima. Apesar de alegar inocência, sua queda veio dois meses depois dos fatos virem a público. Apesar disso, Romero Jucá saiu impune desse episódio, já que o caso prescreveu em 2008 quando a Procuradoria-Geral da República arquivou o inquérito.

No seguinte, se tornou líder do governo da presidente Dilma Rousseff no Senado. Junto com Michel Temer, Aécio Neves e outras lideranças de oposição, Romero Jucá iniciou a trama que resultou na deposição de Dilma em agosto de 2016.

Com o advento do governo de Michel Temer, foi nomeado ministro do Planejamento. Foi um dos principais articulares da nova administração e um dos mais fiéis interlocutores de Temer. Mas, novamente, caiu quando foi gravado pela Polícia Federal sugerindo um pacto para deter avanço da Operação Lava Jato. A conversa era com o então presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que veio a se tornar um dos mais importantes delatores da Lava Jato.

Matéria da Folha expôs o grande cacique do PMDB

De acordo com matéria publicada pela Folha de S.Paulo em maio de 2016, “há outros casos contra ele em curso. O ex-servidor da Receita Federal João Gruginski, um delator da Operação Zelotes, que investiga, entre outras coisas o tráfico de influência no Congresso, afirmou que lobistas teriam repassado R$ 60 milhões para Jucá e para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Além disso, colaboradores da Justiça no âmbito da Lava Jato – entre eles empreiteiros – disseram que o peemedebista foi destinatário final de propinas oriundas do setor elétrico. O empresário Ricardo Pessoa, da UTC, disse em sua delação que o senador pediu 1,5 milhão de reais para a campanha eleitoral de um de seus filhos, que disputava o cargo de vice-governador em Roraima. Jucá nega qualquer envolvimento nos esquemas”.

Ainda segundo a Folha, “em depoimento à Polícia Federal Jucá afirmou que vive com seu salário, mas que “eventualmente” recebe doações de seus filhos, ambos empresários. A família seria proprietária de ao menos 12 companhias, de acordo com a reportagem, com interesses que variam de lojas de calcinha a mineradoras. Integrante da bancada ruralista no Senado, Jucá tem em seu currículo um projeto de lei que, pasmem, regulamenta a mineração em terras indígenas. A proposta foi duramente criticada por ambientalistas e pelas comunidades nativas, e alguns acusaram o peemedebista de legislar em causa própria, já que sua filha Marina Jucá é sócia da Boa Vista Mineração, que em abril de 2012 solicitou ao Governo autorização para extrair ouro em terras indígenas”.

A Folha relaciona, ainda, outros casos envolvendo Romero Jucá quando dirigia a Funai. Diz o jornal que “ele autorizou que os indígenas firmassem contratos com madeireiras para que a mata nativa fosse explorada, o que segundo especialistas ampliou o ritmo da degradação ambiental nas reservas. Também é creditada a ele a decisão que reduziu o território destinado aos índios Yanomami a limites inferiores aos definidos pela própria Funai anteriormente”.

Em outro trecho da mesma matéria, cita a o caso da “venda e permuta de madeiras nobres apreendidas para as próprias madeireiras em troca de serviços e benfeitorias nos territórios indígenas. Um desses casos, descrito no livro Etnodicéia Uruéu-Au-Au : o endocolonialismo e os Índios no Centro de Rondônia (Edusp), do antropólogo Mauro Leonel, envolveu a “alienação de 9.322 metros cúbicos de toras de madeira” para a empresa Cometa em troca “da construção de 45 quilômetros de estradas” ligando postos da Funai. A atuação questionável de Jucá à frente da Fundação foi premiada pelo então presidente José Sarney. Em 1988 ele foi nomeado governador da área que mais tarde viria a se tornar o Estado de Roraima”.

Outras lideranças

A declaração do deputado federal Major Rocha citada no início deste artigo pode não ser voltada apenas pra Romero Jucá. Outras grandes figuras do PMDB também já tiveram ou têm escândalos envolvendo os seus nomes. A mais famosa de todas é o deputado federal Flaviano Melo. Ele foi o protagonista de um dos maiores casos de corrupção e desvio de dinheiro já registrados no Acre, a famosa Conta Flávio Nogueira.

Esse caso funcionava assim: O então governador Flaviano Melo atrasava por quase um mês o pagamento de servidores aposentados e pensionistas. Esse dinheiro era somado a outro tanto desviado do Fundo de Participação do Estado e era depositado em oito contas-fantasmas, abertas e gerenciadas pelos ex-secretários da Fazenda Deusdete Antônio Nogueira e Carlos Oscar Abrantes Nogueira Guedes no Banco do Estado do Acre (Banacre). Mas esse dinheiro não ficava parado. Ele era aplicado no mercado financeiro. Os rendimentos eram sacados e convertidos em títulos ao portador e negociados no mercado financeiro. Adiante, parte desse dinheiro era devolvido aos cofres públicos, sem correção e desvalorizados, para pagamento dos aposentados e pensionistas.

O nome “Flávio Nogueira”, de acordo com o que foi apurado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Acre, vem da junção do prenome de Flaviano e ao sobrenome do secretário Deusdete Nogueira. Como Jucá, Flaviano nunca foi responsabilizado pelo caso.

Liderança com tornozeleira

Há ainda outras lideranças que, se comparecerem ao evento, certamente, estarão sendo monitorados pela polícia. É o caso de Aldemir Lopes, que até pouco tempo era o secretário-geral do PMDB no Acre. Lopes também é homem de confiança de Flaviano Melo, mas responde por uma série de crimes praticados contra a administração pública em Brasileia, principal cidade do Vale do Acre. Junto com o ex-prefeito Everaldo Gomes, ele é suspeito de desvio de recursos, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos públicos. Aldemir chegou a ser preso pela Polícia Federal, mas encontra-se em liberdade vigiada em Rio Branco. Aldemir porta em uma de suas canelas, uma tornozeleira eletrônica que indica, em tempo real, sua localização para as autoridades policiais.

Apesar das limitações legais, Aldemir Lopes continua exercendo função importante no PMDB. Recentemente comandou reunião com o pré-candidato ao governo do Estado pela oposição, o senador Gladson Cameli (PP). Especula-se que ele será um dos coordenadores da campanha de Gladson, sendo o responsável pela articulação política no Vale do Acre.