Com crise, abertura de companhias bate recorde no 1º trimestre

Maria Aparecida Silva, que abriu sua loja após ser demitida de empresa – Foto: Ze Carlos Barretta/Folhapress

O número de empresas abertas no primeiro trimestre do ano foi recorde em 2017.

Segundo estudo da Serasa Experian, foram criadas 581 mil companhias, 12,6% a mais do que no primeiro trimestre do ano passado e maior patamar desde 2010, quando começa a série histórica

Luiz Rabi, economista da Serasa, aponta relação entre a aceleração da abertura de empresas no país desde o segundo semestre de 2015 e o aprofundamento da crise e do desemprego no Brasil.

No primeiro trimestre do ano, a taxa de desemprego chegou a 13,7%, atingindo mais de 14 milhões de brasileiros (em março de 2016, a taxa estava em 10,9%).

A maioria das empresas (64,4%) foi aberta no setor de serviços. Segundo Rabi, o setor é alternativa importante durante a crise porque, em geral, exige menos investimentos dos empresários.

Foi o que aconteceu com Ricardo Azevedo, 55, que trabalhava há oito anos em multinacional do setor de máquinas como gerente de vendas e foi demitido em agosto do ano passado.

Sem interesse por voltar para o mercado com um salário menor do que o que ganha, Azevedo decidiu investir em uma unidade da Limpidus, uma franquia de serviços de limpeza para escritórios. Ele abriu seu negócio em março deste ano.

“Pensei em abrir uma lavanderia, mas isso me exigiria um investimento arriscado, precisaria colocar toda a reserva que eu tinha”, diz.

Para Maria Aparecida Silva, 41, que trabalhava na área de TI da Odebrecht e ficou desempregada em fevereiro de 2016, R$ 100 foi o necessário para começar seu negócio.

Esse foi o valor que ela precisou para, em uma feira de empreendedorismo, comprar as primeiras bijuterias que vendeu de porta em porta.

Aos poucos o negócio foi dando certo, a variedade dos produtos, aumentando, até ela abrir a Macs Boutique, uma loja de roupas e acessórios em Guarulhos (SP) em setembro de 2016.

Silva conta ter recebido proposta para voltar ao mercado de trabalho, porém achou o valor oferecido baixo e menor do que acredita que pode ganhar por conta própria.

“Preferi tentar algo diferente porque o cenário econômico não está muito favorável para minha área.”

De cada 4 CNPJs criados em março (77%) 3 são de MEIs (microempreendedores individuais), categoria que permite faturamento anual de até R$ 60 mil.

Guilherme Afif Domingos, presidente do Sebrae, atribui o avanço dos MEIs à busca por formalização de autônomos, interessados em benefícios como auxílio-doença e aposentadoria.

Apesar de mais MEIs, a quantidade de pessoas que trabalham por conta própria diminuiu 4,6% no primeiro trimestre, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por amostra de Domicílios), do IBGE.

Para Bruno Ottoni, pesquisador do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da FGV), a desaceleração nessa categoria indica dificuldade do mercado para seguir absorvendo novos microempreendedores.

Folha de S. Paulo