Ciro morde e Cid Assopra

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Gustavo Conde

Li todas as matérias de ontem e hoje sobre a candidatura Ciro Gomes. Há nelas um jogo tradicional do coronelismo político da contra-informação que parte dos próprios agentes da candidatura, com a intenção clara de confundir – para atrair – o eleitorado inseguro que ainda não formou convicções. É uma tática conhecida, velha e, talvez, ineficiente em tempos de informação acelerada.

Ciro quer a direita e a esquerda com ele. Ele deve achar, em surtos privados de pretensão, que é o ‘Lula de 2002’ (delírio barato, até porque o Lula de hoje já não é mais o ‘Lula de 2002’ e nem poderia, já que o Brasil mudou e a direita virou um câncer fascista). Ciro usa uma tática muito manjada: enquanto ele “morde”, ele pede para o seu irmão Cid “assoprar”. Será, lamentavelmente, a tônica de sua campanha.

A ambiguidade ideológica estabelecida em sua candidatura pode, portanto, correr solta. É direita ou esquerda? Claro que o eleitorado mais politizado já entendeu que se trata de uma candidatura de direita. Mas, refiro-me à retórica eleitoral que será lançada como isca, tanto aos eleitores desavisados quanto aos líderes de partidos à deriva golpista, como o PP, o DEM e o PSB.

Para uns, Ciro se colocará como extrema direita com seu vasto, solto e destemperado verbo. Para outros, Ciro será o conciliador, através da dicção coadjuvante de seu irmão Cid. Para outros ainda, Ciro será o esquerdista salvador da pátria, ou a solução possível de redução de danos, com seu discurso inflamado dirigido aos já nocauteados tucanos.

Ciro é três, é dois, é mil. Com o fracasso estrondoso de todas as candidaturas do golpe e da mídia, ele se tornou uma saída até para a direita. Ciro é o Luciano Huck dos telespectadores-eleitores da Globo e o Joaquim Barbosa dos espectadores grotescos de enforcamentos festivos. Ciro virou uma solução – pasmem – até para o golpe.

(Pergunta não retórica: alguém já viu Ciro Gomes falar mal da Rede Globo?).

Aliás, é exatamente esse raciocínio pendular e com traços de queijo suíço que muitos ‘desencantados com tudo’ usam para justificar seu apoio ‘biliático’ ao tecnocrata do Ceará: ‘Lula não vai conseguir ser candidato e, portanto, só nos resta Ciro’. Eleitor ‘de esquerda’ com Ciro é aquela mesma personagem que caiu em desuso com o golpe: os falsos esquerdistas que se disseram decepcionados com o PT raiz.

Eles querem a primazia da moral, a imunidade de caráter, querem a tatuagem de “sou honesto e sempre fui, o mundo é que piorou”. É o cálculo que Ciro põe em prática para ter o PCdoB e o PSB (espero que Manuela não caia nessa, nem coagida pelos interesses do partido): ele disse – ipsis litteris – que quer “garantir a hegemonia moral e intelectual” fazendo o acordo com o PCdoB e com o PSB. É muito oportunismo.

O dado novo na campanha de Ciro, no entanto, é realmente o seu irmão Cid Gomes. Entre sinais contraditórios de simpatia, juras de amor e hostilidades, Ciro Gomes acionou o irmão Cid e partiu com voracidade retórica para cima dos partidos de todos os credos e crenças.

Ciro quer o Centrão, o DEM, o PP, o PSB, o PCdoB e mais quem quiser apoiá-lo. A rigor, só dispensa o MDB, para marcar distância de Temer. O problema é o verbo solto de Ciro, que ora afasta um, ora afasta outros, ora afasta todos, gerando uma série de idas e vindas e desmentidos na agenda do presidenciável.

As conversas com o Centrão, por exemplo, foram canceladas depois de Ciro dizer o que disse sobre o acordo com PSB e PCdoB. Ciro acrescentou que antes de fechar com o Centrão, precisaria acertar a aliança com PSB e PCdoB, já que isso supostamente lhe garantiria a hegemonia moral. Ciro queria uma ‘esterilização moral’ antes de pisar na lama do fisiologismo. É uma sucessão de blefes e declarações erráticas sem precedentes para uma candidatura de um só dígito, quase uma pistolagem.

De outro lado, as aproximações com o DEM vão sendo costuradas e desmentidas ao mesmo tempo, dado o interesse de Ciro em não melindrar a parcela mais ‘à esquerda’ de seu eleitorado. Enquanto Ciro solta o verbo e atira para muitos lados, Cid coloca panos quentes e telefona para ACM Neto, restaurando a ideia de que uma das alianças mais estratégicas para a candidatura é exatamente a aliança com o DEM.

A candidatura Ciro, portanto, promete fortes anti-emoções nas próximas semanas. É um festival de anti-empolgação, baldes de água fria e ambiguidades ideológicas. A parcela que se entende ‘de esquerda’ e que apóia Ciro terá de lidar com os próprios fantasmas que os levaram a essa ingrata condição: como processar intelectivamente um Ciro Gomes fazendo aliança com o PP e o DEM? Eles vão sangrar de contradição – e a tendência é a violência retórica aumentar, fazendo dos cirominions verdadeiros bolsominions turbinados. Medo.

Este missivista lamenta a guinada para lugar nenhum de Ciro Gomes. Como diz Lula, ele é um bom quadro, mas não é um líder. Isso ficou bastante claro nesses últimos movimentos. Não é trivial recusar a solidariedade a Lula nas atuais circunstâncias. Nem o papa Francisco explicitando seu apoio a Lula foi capaz de comover Ciro para o que de fato está em jogo neste momento.

É uma pena. Mas o golpe realmente fará muitos agentes outrora progressistas serem tragados pela espiral de ódio, oportunismo e pusilanimidade que se alastrou pelo tecido político-eleitoral do país. Perdemos todos com a capitulação de Ciro.

É linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247