CAMINHOS DO JORDÃO

Até poucos dias estava convicto que a melhor cidade para respirar na Amazônia era Rio Branco, capital do Acre. Em seu mandato, o então governador do Acre, Binho Marques, usou slogan divulgando que o Acre era melhor lugar para viver na Amazônia. Muita gente ficou em dúvidas em relação a isso. Esses dias ele soltou o verbo numa rede social sobre possível bullying que estaria sofrendo de amigos influentes que não saberiam reconhecer o sucesso de sua empreitada.

Recentemente descobri um bom lugar para respirar e passar umas chuvas na Amazônia, Jordão, um dos menores e mais isolados municípios do Acre. Por lá, não se trata de ter os melhores serviços públicos do Estado, nem as melhores condições de saneamento, nem saúde das melhores do mundo, muito menos, educação que eduque nossas crianças, mas no Jordão as pessoas podem se alegrar de ter ar puro para respirar, privilégio que grandes cidades não dispõem.

Essa ida ao município só foi possível graças a um trabalho, relacionado à validação de dados do Índice de Efetividade da Gestão Municipal que o Tribunal de Contas do Estado do Acre, através de parceria com Tribunais de Contas dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e o Instituto Rui Barbosa, instaurou como forma de avaliar as ações dos governos municipais acreanos frente às exigências da sociedade. É um trabalho de abrangência nacional e tem objetivo de retratar a realidade dos municípios brasileiros. No caso dos acreanos, será possível evidenciar em que áreas há maior necessidades de investimentos.

A pacata cidade é habitada por gente hospitaleira. Elas desfrutam de ar agradável, longas áreas verdes, paisagens deslumbrantes e rios encantadores. Para quem gosta de água, certamente é um lugar dos melhores, com passeio de barco, pescarias, visita à realidade indígena de aldeia bem equipada, inclusive com acesso à internet. Na cidade a comunicação com a capital e com o resto do país é precária, no prato não há muitas variedades de alimentos. O visitante sente falta da salada de hortaliças e legumes o que pode ser compensado com as bananas vendidas nos cachos, na calmaria da cidade.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a cidade tem pouco mais de 7 mil habitantes. Fica ladeada por um importante rio da Amazônia, o rio Tarauacá, bem no local em que deságua o rio Jordão, com uma área territorial de aproximadamente 5 mil km². Faz limites ao norte com o município de Tarauacá, a leste com Feijó, a oeste com Marechal Thaumaturgo e ao sul com o Peru.

No site do IBGE se encontra traduzido um punhado da história da cidade. Por lá está escrito que a mesma se localiza na área do antigo Seringal Duas Nações, de propriedade do Sr. Levi Saveda e pertencia ao município de Tarauacá. Teria passado, em 1956, a ser denominada Vila Jordão.

Em 29 de março de 1992, o povo de lá reunido resolveu transformar a Vila Jordão em município, contando com apoio do prefeito de Tarauacá, Esperidião Menezes Júnior, do juiz eleitoral da Comarca de Tarauacá, Dr. Francisco Djalma da Silva e do Governador do Estado, Romildo Magalhães da Silva. Houve um plebiscito e por maioria absoluta de votos passou a categoria de município de Jordão.

No Jordão não é difícil sentir o acolhimento. Aproveitei para alargar a network e ainda preservar mais a saúde, fazendo uma corridinha no final da tarde. Foram três voltas ao redor da cidade, totalizando 7,5km. Uma aventura à parte, já que não apareceu algo comum aos munícipes que perceberam se tratava de um forasteiro que estava rodeando a cidade. Alguns imaginaram se tratar de um louco. Realmente era um Louco, um membro dos Loucos por Corrida do Acre.

Outro detalhe é o fato de o povo não saber que existem autores acreanos. Sequer conhecem as centenas de obras produzidas por inúmeros autores do Acre. Muitos da capital também não conhecem. Tem gente que até se pergunta o que fazem as instituições de cultura do Acre. Desde as fundações públicas, como a Elias Mansour e a Garibaldi Brasil, que anualmente custam alguns milhões ao bolso do povo ou mesmo as instituições privadas, sem fins lucrativos, como a Academia Acreana de Letras, a Academia Juvenil Acreana de Letras, as dezenas de academias e casas de culturas existentes em alguns municípios e pela recém-criada Sociedade Literária Acreana.

Imagino que a cultura centralizada na capital é motivo de muito barulho por meia dúzia que se denominam fazedores de cultura. Isso é puro ato de babar e rasgar seda. Difícil é ver esses atores sociais deixarem de reclamar do governador imortal das galáxias, dos deputados estrelas e das instituições públicas engessadas por centenas de cargos comissionados que não fazem o que deviam fazer e, partir para a ação, em busca de descentralizar o que se tem de melhor na capital e buscar interiorizar as coisas boas para as pessoas de bem que vivem nos rincões do Acre, como a cidade do Jordão.

Foi uma sensação agradável conhecer a realidade dos brasileiros acreanos que vivem no isolamento da floresta, respirando o melhor oxigênio do planeta e participar de uma ação do Tribunal de Contas do Estado do Acre que tem buscado maior proximidade na vida de seus jurisdicionados.

(*) Servidor do Tribunal de Contas do Estado do Acre.